sábado, 10 de agosto de 2013

O "FIM DA HISTÓRIA" DA CULTURA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante que defende a bregalização do país não quer cultura, quer hit-parade. Ela acredita que o comercialismo na música brasileira a tornaria mais sustentável e competitiva, assim como acredita que é nas sub-celebridades e na espetacularização banalizada que estará a (suposta) emancipação cultural das classes populares.

Mas ela corteja a cultura de qualidade, a MPB autêntica e as grandes personalidades como forma de dizer que não gostam só do joio, "gostam também" do trigo e querem, "sem preconceitos", a "mistura democrática" do joio e do trigo, assim como do alho com os bugalhos.

Já se falou do "Fim da História" de Francis Fukuyama, que é a tese de que a história da humanidade atingiu seu "ponto máximo" e que agora não seriam necessárias as lutas humanas, já que o neoliberalismo e a globalização econômica e tecnológica garantiriam a prosperidade social.

A tese é muito combatida, até mesmo pelas esquerdas médias, mas ela se estende, no Brasil, em uma abordagem ligada à cultura brasileira servida sobretudo para as mesmas esquerdas médias, sob o rótulo de "popular".

O "Fim da História" relacionada à cultura brasileira se baseia no princípio de que a cultura de qualidade, baseada nos laços comunitários, na busca de melhorias sociais e na luta contra os processos de dominação e manipulação social, "havia acabado" e que agora cabe apenas usufruir os benefícios do consumismo simbolizado pela "cultura de massa".

São teses difundidas por "pensadores" como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, em que a tese fukuyamiana adaptada ao tema da cultura brasileira teria feito até mesmo seu marco: outubro de 1967, no Festival de Música da TV Record. O longo protesto de Caetano Veloso contra as vaias de seu número "É Proibido Proibir" tornaram-se o "grito" divisor.

Desde então, a MPB de qualidade ou o comportamento ao mesmo tempo espontâneo e mobilizador das classes populares deu lugar a uma dicotomia entre o brega e a "MPB para as elites", no âmbito musical, e a "nova" atribuição comportamental às classes populares relacionada ao sensacionalismo, ao grotesco e ao piegas.

São conceitos tipicamente neoliberais, e a tese fukuyamiana da cultura brasileira, apoiada numa adaptação de teses tropicalistas esvaziadas de qualquer contestação aprofundada, estabelece até mesmo a "pré-história" e a "antiguidade" atribuídas à cultura brasileira.

Para a intelectualidade dominante, a "pré-história" seria delimitada desde a origem brasileira, que se perdeu no tempo, das tribos indígenas até o advento da indústria fonográfica e do avanço da vida urbana pós-Abolição, a "escrita", a "galáxia de Gutemberg" da cultura brasileira. Nela as classes populares estabeleciam lutas violentas de emancipação por estarem à margem do status quo social.

A "Antiguidade" seria então o começo do século XX, com a estabilização da vida das classes populares depois da Abolição do regime escravo, e dos primeiros registros da música popular em disco. Nessa época o rádio estaria surgindo, a partir dos experimentos de 1919, em Recife, e 1923, no Rio de Janeiro, como forma de difusão da cultura e, sobretudo, da música.

Nessa época também se ascendeu a intelectualidade que rompeu com o formalismo eurocêntrico dos parnasianos, a partir do movimento modernista de 1922, cujo auge se deu nos debates intelectuais e culturais dos isebianos e cepecistas prematuramente abortados em 1964. Houve também a literatura marcante da geração de 1945 e a "antropofagia" musical da Bossa Nova.

Essa fase "antiga" se daria até 1967 porque, embora tenha havido o golpe militar de 1964, a cultura brasileira buscou uma resistência até esse ano, como as manifestações populares foram adiante em 1968. Mas o marco de 1967 se dá porque em 1968 a influência da MPB moderna (que fundiu a música de raiz cepecista com a Bossa Nova) foi neutralizada pela "cultura de massa".

Afinal, é engano dizer que até mesmo pescadores de regiões isoladas do Pantanal e da Amazônia ouviam Bossa Nova o tempo inteiro. Esse é o discurso da intelectualidade hoje que se diz "cansada" da MPB, que só a quer regravada e pasteurizada por ídolos bregas.

Mesmo no auge da Bossa Nova, quem vivia nas roças e no interior só ouvia serestas e marchinhas, ou quando muito dava continuidade às expressões culturais mais antigas. Nem mesmo o "povão" do Norte do país sabia que dois nomes ligados à Bossa Nova, João Donato e o já falecido Billy Blanco haviam nascido na região.

Em 1967, havia o "canto do cisne" da Bossa Nova (como movimento) que foi o disco de Antônio Carlos Jobim com Frank Sinatra - referência de cantor para os bossanovistas - e a impactuante sofisticação do primeiro álbum de Milton Nascimento, cantor mineiro nascido no Rio de Janeiro e que havia iniciado sua carreira sob o apoio de Agostinho dos Santos, um dos maiores cantores da época.

Já em 1968, em que pese o fim forçado da Jovem Guarda - que, no auge da psicodelia, era inspirado pelo rock comportadinho de 1958-1963 - , ela havia sido "exumada" pelos tropicalistas que, cortejando-os, exaltavam tanto os dois caminhos diferentes levados pelos jovemguardistas: o sambalanço e o brega.

De um lado, vemos Roberto Carlos e Erasmo Carlos seguindo a receita soul de seus amigos de adolescência Tim Maia e Jorge Ben (Jor), Wanderleia flertando musicalmente com Raul Seixas, Sérgio Reis voltando à música caipira de seus primeiros compactos, Eduardo Araújo abrasileirando (mesmo) a música country e Ronnie Von envolvido em uma surpreendente fase psicodélica.

De outro, músicos ligados a bandas como The Fevers e Os Incríveis investindo em arremedos de Jovem Guarda que criaram um elo que unia os retardatários do movimento (como Odair José e Paulo Sérgio) a seus laços e, por outro lado, aos arremedos de "seresteiros" da primeira geração brega (Waldick Soriano, Orlando "Tenho Ciúme de Tudo" Dias).

Desse segundo movimento, o Brasil começou a conhecer a tradução brasileira daquele movimento de cantores-compositores da linha "mais do que comportada" de 1958. Se a Jovem Guarda assimilava apenas elementos musicais de nomes como Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin, Paul Anka e outros, o brega criou verdadeiros equivalentes desses mesmos cantores.

E aí vieram Benito di Paula, Luís Ayrão, Dom & Ravel, Odair José, Paulo Sérgio, Mauro Celso, que elaboraram o primeiro teste do brega pós-Waldick - que havia rompido com a cultura brasileira - de "reconstruir" a música brasileira através da pasteurização comercial que só mantém a brasilidade na forma, com um conteúdo bastante inócuo e asséptico.

Ou seja, a primeira geração brega destruiu a cultura brasileira. No âmbito musical, banindo com o patrimônio musical acumulado em nossa História. No âmbito cultural rompe com a mobilização social, deixando o povo pobre na conformação com a pobreza e seus símbolos: o alcoolismo, a prostituição, o subemprego, o comércio clandestino.

Só depois o establishment criou outras formas de brega que "reconstroem", de forma controlada e inofensiva, as caraterísticas de brasilidade cultural, como depois se viu no "sertanejo", no "pagode romântico" (herdeiro do "sambão-joia" de Benito di Paula e companhia), na axé-music e no "forró eletrônico" seus símbolos musicais e na indústria de loterias (inclui até mesmo o jogo-do-bicho) no âmbito da (controlada) emancipação cultural sem que haja melhorias na Educação.

Passou-se a encher as casas dos pobres de dinheiro, e, com o tempo, só se ensinou as "popozudas" a usarem vestidos ou a forjarem um falso feminismo ou a transformar locutores policialescos brucutus em pastiches do Chacrinha ou do Sílvio Santos. Ou a ensinar Alexandre Pires e Leonardo a fazerem uma pseudo-MPB nos mesmos moldes daquela que já irritava muitos brasileiros.

Tudo se torna uma questão não mais de cultura livre, mas de livre mercado mesmo. Usam-se pretextos de "liberdade cultural" apenas para defender o tendenciosismo mercadológico, que transita entre a imbecilização e a sofisticação como baratas numa casa. Mas o pretexto da "diversidade cultural" acaba sendo tão postiço quanto o da "democracia" na caduca imprensa política de direita.

Portanto, o legado de Francis Fukuyama não pode ser camuflado por um pseudo-esquerdismo de seus intelectuais brasileiros. Se ele se mostra claro nas ideias apresentadas, posturas não conseguem contradizê-las. Até porque uma ideia apresentada vale mais do que mil posturas contrárias a ela.

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