segunda-feira, 19 de agosto de 2013

NÃO HÁ COMO PENSAR EM NOVA MÍDIA SEM NOVA CULTURA

NOMES COMO NALDO BENNY SIMBOLIZAM VALORES DIFUNDIDOS PELO PODER MIDIÁTICO.

Por Alexandre Figueiredo

Discute-se a decadência das Organizações Globo, do Grupo Abril ou até mesmo da mídia "satélite" de jornais popularescos (o Meia Hora, por exemplo, deixou de ter edição paulista) e de emissoras como a Rede TV e as rádios do Grupo Bandeirantes.

No entanto, não se discute que a cultura brasileira está em crise. Intelectuais dominantes empurram o problema com a barriga, jogam a sujeira debaixo do tapete e acham que o futuro da cultura popular está na prevalência do "mau gosto". Acham que o jabaculê ditará o folclore do futuro, e apostam numa etnografia que, tida como "provocativa", é muito mais conformista com o status quo midiático.

Há muito se descreve, neste blogue, que a cultura brasileira foi afetada por valores e princípios ditados pelo poder midiático. Não há como dizer que o "funk" está à margem da mídia, porque ele foi condicionado por elementos ideológicos transmitidos pela grande mídia e, o que é pior, durante a ditadura militar.

Não há como confundir conformismo com reação. No brega, as pessoas não lutam por um país melhor, vão para o bar e enchem a cara. Ou, em modalidades mais "modernas" (como o "forró eletrônico", axé-music e "funk"), o pessoal vai para o galpão montado como "casa de espetáculos" - parece um estábulo, e o "povão" se comporta como gado - e vão consumir o "sucesso do momento".

A intelectualidade dominante, aquela que ainda arranca aplausos e prêmios empurrando pontos de vista risíveis, cai em contradições o tempo inteiro. Paciência, é o Brasil de Ali Kamel, que coloca Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras e do qual Paulo César Araújo não é um contraponto, mas um complemento para esse contexto conservador.

Daí que, quando se fala das relações do brega-popularesco com a grande mídia, esses "pensadores", de antropólogos a cineastas documentaristas, com toda a "segurança" de seus argumentos, não sabem dizer se houve uma invasão do "povão" na grande mídia ou se foram os barões da mídia que pegaram carona nos "sucessos populares".

Tentam negar o óbvio, que é a cumplicidade entre brega-poplularesco e grande mídia. E caem no ridículo quando alguém alerta que vários dos ídolos exaltados pela intelectualidade, como Zezé di Camargo, Joelma, Odair José, Waldick Soriano e Leandro Lehart são, na verdade, figuras bastante conservadoras.

Ninguém ousou dizer, nos EUA no auge da Contracultura, que um Pat Boone da vida era mais revolucionário que Bob Dylan e os ingleses Beatles. Até Syd Barrett, mesmo chapado, fez pouco do conservador cantor de "Bernardine" num programa deste, e Boone mal tinha noção de que teria um equivalente brasileiro, Odair José, apelidado equivocadamente de "Bob Dylan da Central".

A intelectualidade brasileira que se diz "progressista" não se preparou para muitos momentos constrangedores. Acabaram batendo boca com seus pares, por defenderem uma "cultura" que tem muito mais a ver com o poderio midiático, com rádios e TVs controladas por grandes oligarquias empresariais ou por poderosos grupos latifundiários.

Há uma turma que imagina que pode-se romper com o poder midiático e manter a herança cultural desse mesmo poder. Isso não é possível. A crise é uma só, atingindo de forma igual desde "urubólogos" a cantores neo-bregas agora comprometidos como uma "MPB de mentirinha" feita para boi dormir.

Outro aspecto constrangedor é ver a turma do Farofa-fá defender pontos de vista que se vê integralmente, sem tirar nem pôr, nas páginas da Ilustrada da Folha de São Paulo ou do Segundo Caderno de O Globo. Ou ver Paulo César Araújo, queridinho das esquerdas médias, virar praticamente um "consultor" informal de cultura das Organizações Globo. Coincidência?

Romper com o poder midiático significa romper com os padrões oficiais de cultura que temos. É natural que, derrubando "urubólogos", "juízes-estrelas" do Poder Judiciário e humoristas antissociais, derrube-se também "mulheres-frutas", ex-BBBs e "pagodeiros" e "sertanejos" com pouca intimidade com os próprios ritmos que dizem seguir.

Se não fosse o poder midiático, os ídolos musicais naturalmente seriam outros. O Clube da Esquina teria mais influência na música caipira do que brega e Bee Gees, e até os supostos "sofisticados" Victor & Léo e Chitãozinho & Xororó estariam no limbo. A música nordestina não "desceria ao povo" com Calcinha Preta, "subiria ao povo" com Alceu Valença comandando centenas de discípulos.

Em vez de Ivete Sangalo e Alexandre Pires, teríamos Roberta Sá e Wilson Simoninha como ídolos mais populares. Flávio Venturini seria mais prestigiado do que Odair José. Joel Silveira teria mais influência no jornalismo popular do que Jacinto Figueira Jr., e as musas mais populares estariam mais próximas de Márcia Peltier do que de Gretchen.

Maria Rita Mariano, a filha de Elis Regina, até ameaçou o império sangalense, o "Império Romano do axé", mas foi tragada pela mídia. E Diogo Nogueira, filho do bamba João Nogueira, foi ainda gravar música de Alexandre Pires!! Sem falar de Zeca Baleiro preferindo exaltar o brega do que revitalizar a MPB autêntica. Não dá para renovar sem ter um verdadeiro espírito de ruptura ao "estabelecido".

A própria MPB pós-tropicalista foi compactuar com o brega-popularesco. E o prestígio de Fernando Henrique Cardoso fazia a intelectualidade crer que defender a "cultura de massa" era mais importante do que zelar pelo patrimônio cultural de nosso país. E Globo e Folha forjando um discurso de exaltação ao brega que as esquerdas mais frouxas se recusaram a perceber.

Portanto, será inútil falar mal de Ali Kamel, Marcelo Madureira, Marcelo Tas, Eliane Cantanhede e Luciano Huck se compartilha dos valores "culturais" que a mesma grande mídia do qual eles fazem parte. Deixemos de ser ingênuos, antes que vejamos, daqui a dez anos, os arautos da "cultura" brega festejando vitória nos salões do Instituto Millenium.

Pensar o "popular" como apologia ao "mau gosto" e como glamourização da miséria, da ignorância e de tudo que é ruim mas que é "positivado" pelo badalado discurso intelectualoide, não é romper com o poder midiático, mas reafirmá-lo como sua derradeira herança, em que o "rei" morto prolonga sua "realeza" através de seu legado ideológico preservado.

Para os defensores do brega, na verdade defensores potenciais dos barões da mídia, deveria valer a seguinte frase: "A grande mídia morreu!! Viva a grande mídia!!".

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