terça-feira, 13 de agosto de 2013

MOVIMENTOS QUE INCLUEM DEFESA DO BREGA OMITEM VERBAS PRIVADAS


Por Alexandre Figueiredo

As iniciativas e movimentos que incluem, de uma forma ou de outra, a complacência com a domesticação sócio-cultural das classes populares através da defesa do brega e seus derivados (sobretudo o "funk carioca"), se limitam a se comportar como se fossem projetos que só recebem apoio estatal.

Seja no documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, nos livros Eu Não Sou Cachorro Não, de Paulo César Araújo e Que Tchan é Esse? de Mônica Neves Leme e em iniciativas como o Rio Parada Funk e o Coletivo Fora do Eixo, há o mesmíssimo discurso: a suposta dificuldade de obter recursos financeiros e a informação oficial de que eles só recebem verbas públicas.

Contrariando a alma do negócio, ou talvez como forma de esconder o jogo, tais iniciativas, que de uma forma ou de outra mexem com fenômenos comercialmente bem-sucedidos na grande mídia brasileira, tentam dizer que são "independentes" e que trabalham com "cultura alternativa".

Primeiro, deixemos de ingenuidade. Se ídolos e músicas que aparecem nas mais tocadas de emissoras do porte da Nativa FM, Band FM e Beat 98 FM são considerados "cultura alternativa", "independente" e "à margem da grande mídia", então não se sabe para que serve o raciocínio humano nas mentes de tais pessoas.

Além disso, é a alma do negócio que boa parte das iniciativas combine verbas públicas com verbas privadas e que eventos musicais quase sempre combinam as duas coisas. Então por que iniciativas relacionadas com fenômenos "populares", de forte apelo comercial, insistem em dizer que são "independentes" e "só recebem verbas públicas"?

Da mesma forma, por que houve a facilidade de funqueiros e nomes do "forró eletrônico" e "sertanejo universitário", vários deles vindos do nada, de fazerem até turnês pelo exterior? Seriam tão somente as verbas públicas e, de resto, só recursos colhidos dos semáforos das ruas e das doações dadas as ONGs?

O que se esconde de verbas privadas é algo difícil de saber. Nós inferimos na medida do necessário. Isso porque as verbas privadas vêm, muito provavelmente, de fontes que iriam comprometer a imagem supostamente progressista de tais iniciativas, envolvendo desde corporações associadas ao conservadorismo ideológico até financiamento estrangeiro respaldado pela CIA.

Pesquisas diversas mostram que desde entidades estrangeiras como a grande mídia estabeleceram apoio amplo a tais iniciativas. E que apontam que estas não se configuram em projetos independentes nem sofreram a tão alardeada dificuldade de obter recursos.

A UNIRIO (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) estabelece parcerias com a Fundação Ford, consórcio "filantrópico" de várias empresas norte-americanas vinculado ao Departamento de Estado dos EUA. É da UNIRIO que surgiram as teses que originaram os livros Que Tchan é Esse? e Eu Não Sou Cachorro Não.

Os dois livros seguem a agenda estadunidense de promover a domesticação sócio-cultural das classes populares, através da glamourização da "cultura de massa" que, embora seja de alto êxito comercial, é falsamente tida como "cultura independente". As duas teses foram produzidas ainda durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ideólogo também apoiado por tais instituições estrangeiras.

O documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, por sua vez, segue a agenda de glamourização da pobreza ditada pela Globo Filmes. Foi lançado na mesma época que Os Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira, a divulgação dos dois filmes, em que pese a diferença de gênero - o de Denise é um documentário, o de Breno é uma biografia dramatizada - , se baseou nos mesmos argumentos.

Ambos se respaldaram na visão de que ídolos popularescos, apesar do amplo sucesso comercial que faziam, com plateias lotadas, discos vendidos e muito cartaz na mídia, eram tidos como "vítimas de preconceito" pelo simples fato de não serem levados a sério por uma parte da crítica musical, além de representarem dois pólos da suposta "diversidade cultural" do brega: o "polêmico" "funk carioca" e o "sofisticado" "sertanejo".

Embora o nome da Globo Filmes não apareça nos créditos oficiais do filme de Denise Garcia, leva-se em conta o fato de que a cineasta gaúcha foi funcionária da Rede Brasil Sul (parceira das Organizações Globo em Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Tudo indica que a Globo Filmes atuou na forma de apoio de divulgação do filme.

O Rio Parada Funk não poderia contar apenas com recursos públicos. Seria muito impossível para um evento de sua estrutura. Além disso, seu comércio vende cervejas e refrigerantes de marcas privadas, e até agora não se tem conhecimento de uma marca estatal de bebidas em atividade no Brasil. Tudo indica que os anunciantes privados que respaldaram e respaldam o evento investiram nele, mas ocultaram suas marcas para evitar problemas.

Já o Coletivo Fora do Eixo, como iniciativa que envolve organizações não-governamentais, produtores de eventos e tecnologia de mídia e informática, tem o patrocínio de George Soros, já que vários ativistas ligados ao coletivo fazem propaganda do "negócio aberto", modelo de gerenciamento cultural e tecnológico criado pela empresa do magnata, Soros Open Society.

Seria ingenuidade creditar, para esses movimentos, o caráter exclusivamente estatista, até porque seus membros nem assumem uma postura anticapitalista firme, e como eles desejam o maior número de vantagens possível, eles compactuam com a grande mídia e com o mercado dos quais dizem "romper". Vide, por exemplo, Paulo César Araújo tendo amplo espaço nas Organizações Globo.

Agora é preciso uma investigação maior que possa confirmar por definitivo tais informações, em vez de aceitar que tais iniciativas sejam apenas "humildes projetos de apoio estatal".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...