quinta-feira, 8 de agosto de 2013

MÍDIA NINJA E A ESPETACULARIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS


Por Alexandre Figueiredo

As manifestações populares seguiam em junho com os mais diversos segmentos sociais, e causaram uma repercussão que se expandiu na mídia do exterior e colocaram o Brasil, finalmente, no mapa das manifestações sociais de relevância, quando os céticos já começavam a pensar que os BRICs se transformariam em PRICs, uma vez que as esquerdas médias brasileiras se preocupavam demais com o Estado Palestino que parecia que a Palestina se tornaria potência antes mesmo do Brasil.

De repente, surgiram passeatas e manifestações que nada tinham a ver com os eventos "espetaculares" das "marchas pela maconha" ou mesmo de manifestações feministas e pró-LGBT que primavam mais pelo sensacionalismo de seus "manifestantes" - feministas "de peito aberto" e gays estereotipados - do que pelas causas que defendiam. Pelo contrário, os protestos de junho encampavam essas causas de maneira natural, sem que o espetáculo ofuscasse a relevância dos protestos.

Vandalismos à parte - evidentemente, em toda manifestação popular, desordeiros se infiltram para tentar bagunçar a festa, mas eles nada têm a ver com as verdadeiras manifestações - , os protestos populares tornaram-se um poderoso fenômeno que, no Brasil, permitiu que se mostrasse que aquele modelo de país sonhado por políticos, tecnocratas, empresários, corruptos em geral etc estava caduco.

É claro que se trata do começo. São as primeiras manifestações, os primeiros totens derrubados. Haverá outros. Mas enquanto a realidade brasileira não se arruma - são quase 50 anos de retrocessos, lançados pelo golpe de 1964, além do desequilíbrio social causado pelos "fenômenos" Jânio Quadros e Cabo Anselmo - , o que se nota é que os movimentos populares correm o risco de serem tutelados, à direita e à esquerda, respectivamente pela midiatização e pela partidarização.

LIGAÇÕES AO COLETIVO FORA DO EIXO

Aí, de repente, surgiu do nada um grupo de "jornalistas independentes" que, aparentemente fazendo coberturas sobre os desmandos da Polícia Militar nos protestos populares, foram "detidos" por alguns guardas. Intitulado Mídia Ninja, o grupo revelou-se também ligado ao soros-positivo Coletivo Fora do Eixo.

Seu líder, Bruno Torturra, não é um sujeito independente da grande mídia nem do estamento sócio-político dominante. Simpatizante de Marina Silva, integra um grupo (Rede Pense Livre) apadrinhado por Fernando Henrique Cardoso, foi roteirista do programa Esquenta, da Rede Globo, produzido por Hermano Vianna, antropólogo militante do "funk carioca" e também ligado a FHC. Ele conduz a Mídia Ninja em parceria com o idealizador do FdE, Pablo Capilé.

O grupo também se serve da máquina partidária-estatal-empresarial do PT, dentro daquela facção fisiológica capaz tanto de se envolver com Marcos Valério quanto de barrar o projeto de Regulação da Mídia. Como sua instituição-mãe, o Fora do Eixo, a Mídia Ninja só assume a arrecadação petista, mas estaria recebendo também recursos privados.

É o mesmo discurso feito para o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, para a organização do Rio Parada Funk, para a produção do livro Eu Não Sou Cachorro Não. Os investimentos privados não são assumidos, só se assume o financiamento estatal do PT ou de instituições diversas - de ONGs a bolsas de pesquisa - , até para reforçar o caráter "público" e "esquerdista" dos movimentos.

Uma das primeiras atuações da Mídia Ninja foi a entrevista com o prefeito carioca Eduardo Paes, com este tentando se distanciar do atual padrinho político, Sérgio Cabral Filho, em franca queda de popularidade. Foi uma forma de promover a MN no seu jornalismo tendenciosamente "independente" às custas de uma tentativa "independente" de Eduardo Paes entregar a crise a seu padrinho, um artifício que o prefeito carioca não faria com os "Amigos do RJ" do telejornal da TV Globo carioca.

Recentemente, também, a MN foi entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura, respondendo de forma "equilibrada" as perguntas de jornalistas que pareciam "estupefados" com o "movimento". Apesar das esquerdas terem caído no delírio, o pensamento "libertário" de Capilé e Torturra não trouxe verdadeira inovação ao pensamento tecnocrático vigente nos últimos 20 anos.

Não são eles os modernos, o Brasil é que ficou atrasado demais que qualquer coisa vira "novidade" neste país em crise de valores. Até mesmo a pintura padronizada nas frotas de ônibus outorgada em prefeituras de diversas cidades do pais, e que é fonte da mais aberrante corrupção nos sistemas de ônibus municipais e intermunicipais.

A exemplo também do FdE e de outros "militantes", há a tentativa de vínculo "exclusivo" com a máquina petista, o que é fato, mas há também ligações que mostram que, de uma forma ou de outra, eles se "encontram" com a causa demotucana. Não é preciso dizer que, após a eleição de Lula, vieram "dissidentes" de diversas facções para forjar um "esquerdismo" de última hora, achando que era marxista só porque tinha simpatia pelo então presidente.

O problema é que essa aparente ambiguidade ideológica tenta dar a impressão de falsa independência, quando na verdade torna-se um artifício de "maleabilidade ideológica". Os FdE costumam falar mal da Folha de São Paulo e da revista Caras em suas palestras, mas seus integrantes aparecem "na boa" e até "na melhor" nesses veículos da grande mídia. Os exemplos de Pablo Capilé e Emicida não deixam mentir.

FINANCIAMENTOS EXTERNOS

O que poucos falam é que, como todo "ativismo de resultados", o Coletivo Fora do Eixo, até pelas bandeiras que levanta junto a entidades-irmãs como a ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), futura menina dos olhos da Mídia Ninja (até pela afinidade de causas por uma imprensa "independente"), recebe também financiamentos estrangeiros intermediados por organizações brasileiras.

A ABRAJI é ligada ao projeto Jornalismo nas Américas, promovido pelo Knight Center da Universidade do Texas (Texas é um Estado tradicionalmente conservador dos EUA), cujo presidente é um ex-jornalista de Veja, Rosenthal Calmon Alves, que condenou Julian Assange, se derreteu por Yoani Sanchez e é elogiado com entusiasmo por figuras insuspeitas como Miriam Leitão, Merval Pereira, William Waack e até Carlos Alberto di Franco, ligado à Opus Dei e ao Instituto Millenium.

O Centro Knight, como é conhecido aqui, recebeu do magnata George Soros - conhecido especulador financeiro, ideologicamente conservador, mas que ultimamente pensa em tratar os movimentos ativistas internacionais como "brinquedos" para seus interesses pessoais de dominar o mundo - diversas e generosas doações financeiras, o que não é apenas um investimento "caridoso", mas uma forma de garantir a pauta de acordo com os interesses do poderoso magnata.

E o Coletivo Fora do Eixo, até pelas bandeiras que adota, sobretudo quanto às ideias de cultura popular e mídias digitais, claramente inspiradas no "negócio aberto" de George Soros, cujo representante brasileiro é o advogado carioca Ronaldo Lemos, figura aparentemente independente dos FdE mas na prática um importante aliado do coletivo. Lemos havia difundido as ideias da Soros Open Society no seu livro sobre Tecnobrega.

LIMITAÇÕES AO ATIVISMO SOCIAL

As atuações "provocativas" do Coletivo Fora do Eixo e seus manifestantes direta ou indiretamente associados podem ser um risco, porque são confundidas com autêntico ativismo popular, quando são apenas expressões tendenciosamente políticas, nos quais as causas defendidas nem sempre de verdadeiro interesse das causas populares.

Afinal, esses grupos, com todo o "brilhantismo" supostamente atribuído a eles, revela na verdade uma atualização de conceitos de globalização tecnológica e ativismo sócio-cultural que faziam parte do discurso neoliberal imediatamente após a queda do Leste Europeu e da globalização tecnológica e econômica lançada nos anos 90.

Por mais "esquerdista" que pareça, o ativismo dos FdE e similares soa muito mais um "ativismo de resultados" bem ao gosto dos tecnocratas do G-8, do Fórum Econômico Mundial e das grandes corporações multinacionais da indústria informática e da moderna telefonia móvel instaladas nas diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.

Daí o desejo de bregalização da cultura popular, camuflado num suposto contexto de "cultura de vanguarda", sobretudo empurrando bregas esquecidos goela abaixo para o público alternativo. Daí a espetacularização das passeatas e manifestações, mais por um sensacionalismo "polêmico" do que pela relevância das causas defendidas.

Daí, também, a articulação dos diversos movimentos ativistas para exercer um controle ideológico ou até mesmo a falir diversas instituições pela cooptação castradora. Daí a domesticação dos diversos movimentos e causas sociais. E daí a coisificação do homem pela tecnologia, com as novas tecnologias usando os movimentos sociais e não o contrário como deveria ser.

É como diz o ditado: quando a esmola é tanta, o santo desconfia. O surgimento de uma "rede" de instituições, grupos etc, usando um discurso "contra" as corporações e prometendo uma atuação "independente", na verdade é um gancho para evitar o avanço dos verdadeiros movimentos sociais e uma forma de reciclar e prolongar a supremacia do neoliberalismo, seja com tinturas petistas, seja com outras tinturas tendenciosamente esquerdistas ou envergonhadamente direitistas.

A Mídia Ninja, com sua pretensa unanimidade, apenas lançou a primeira campanha publicitária desse processo.

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