sábado, 31 de agosto de 2013

"FUNK" E O FRACASSO DA BLINDAGEM INTELECTUAL


Por Alexandre Figueiredo

Rola nos bastidores um clima de luto da intelectualidade dominante, diante do fracasso da campanha pela defesa do "funk carioca". Agora tentando redirecionar o foco da retórica para o "funk ostentação", o confuso cenário de São Paulo - que mistura "proibidões" e "popozudas" com um discurso pseudo-ativista - , eles já sentem o peso da rejeição da sociedade ao gênero.

O recente discurso do ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira - do grupo ligado a Gilberto Gil e padrinho do Coletivo Fora do Eixo - , num evento que "debatia" o "funk" num centro cultural em Vila Cachoeirinha, em São Paulo, foi digno de uma choradeira. Tentando insistir que "funk" é "cultura", Juca tenta vincular a "diversidade cultural" a esse ritmo brega-popularesco.

O mesmo caminho segue Pedro Alexandre Sanches, o "bom aluno" de Otávio Frias Filho e adepto das ideias de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso, que apela para a "superioridade" do "funk", dentro daquele pretensiosismo excessivo de "cultura séria" e dando continuidade aos relatos que o blogueiro do Farofa-fá escreveu sobre o mesmo "debate" acima citado.

O dramalhão discursivo não conseguiu, ao longo de seus dez anos de proselitismo - primeiro, nos cenários da grande mídia, depois nas esquerdas médias - , convencer a sociedade da "superioridade artística" dos funqueiros, tidos como "expressão natural das periferias e da cultura popular atual".

Só que a retórica da "diversidade cultural", apesar do verniz "progressista", tem exatamente o mesmo sentido que a da "democracia" pregada pela mídia mais reacionária. Não se trata de defender, de fato, a democracia ou a diversidade cultural, mas apenas a vinculá-las, de modo mais totalitário, à supremacia de formas sócio-culturais retrógradas.

O discurso de defesa do "funk" é extremamente contraditório. Há muito tempo o ritmo está no establishment do mainstream e seus defensores ainda reclamam de "exclusão". Criam um discurso "militante", com comparações surreais a tudo que for arte e ativismo para tentar comover a opinião pública e esquecer que essa "riqueza toda" simplesmente inexiste no cotidiano funqueiro.

O "funk", até agora, não representou qualquer tipo de progresso cultural da sociedade, do contrário que o jazz e o samba, como a blindagem intelectual costuma comparar. Musicalmente, o "funk" é oco, repetitivo, sem a riqueza sonora e expressiva que a blindagem intelectual normalmente atribui.

Até agora, o "funk" só inseriu o "tamborzão", os sons imitando galopes e sirenes e a balcuciação de MCs de apoio no seu som, sem trazer qualquer benefício ao mesmo. Pelo contrário, a pregação da defesa do "funk" acabou dando no efeito inverso, que é o aumento da rejeição da sociedade ao ritmo e a exposição ao ridículo da intelectualidade associada.

Dizer que o "funk" é a "revolução do mau gosto numa sociedade careta" é um discurso desprovido de real sentido progressista. Defendê-lo a pretexto de defender a "diversidade cultural" soou por demais "urubológico", ficou algo semelhante a do "livre mercado" pelo discurso neoliberal. E a rejeição ao "funk", tida como "elitista", é algo que ocorre até mesmo dentro das periferias.

O que fez a retórica do "funk carioca" fracassar, criando o êxodo simbólico para São Paulo, foi o fato de que o "funk" do Rio de Janeiro acumulou uma série de baixarias e ocorrências criminais, além de não conseguir provar que estava "à margem da grande mídia" tamanha a cumplicidade explícita com os barões da mídia de todo o país.

Tais problemas não puderam ser camuflados pelo discurso, com um quê de sentimentaloide, que falavam que o ritmo era "vítima de preconceito" e rejeitado por "elitistas" e "moralistas". Chegou-se a comparar a rejeição do "funk" à do samba há cem anos atrás, como se nós fôssemos uma sociedade rigorosamente igual a de 1910. Não deu certo.

Depois, forçando ainda mais a barra, a intelectualidade dominante tentou associar a rejeição do "funk" a manifestações de racismo contra o povo negro, algo que resultou num grande equívoco. Afinal, quem rejeita o "funk" admira verdadeiros artistas negros, de Milton Nascimento a Elza Soares, de James Brown a Jovelina Pérola Negra, de Jimi Hendrix a Itamar Assumpção, e personalidades como Martin Luther King e o geógrafo baiano Milton Santos.

No entanto, a intelectualidade associada não conseguiu explicar por que combate a pedofilia e a pornografia, quando ocorre nos seus meios sociais, e apoia as mesmas práticas quando elas estão associadas ao povo "negro e pobre" do "funk". Para esses "pensadores", Gisele Bündchen fazendo papel de mulher-objeto é deplorável, mas se a Mulher-Melão fizer o mesmo, torna-se "admirável".

O apoio que esses intelectuais dão ao "funk", ritmo associado a uma visão estereotipada e glamourizada da miséria humana, simbolizada pelas favelas brasileiras, torna-se uma prova de que eles, por mais "contra" o preconceito e o elitismo digam ter, expressam um preconceito social e um elitismo mil vezes pior do que aqueles que juram "combater".

A repercussão negativa acaba se tornando inevitável, embora a intelectualidade, como se fosse em um disco de vinil riscado, repita a mesma choradeira várias vezes, de que o "funk" é "vítima do mais absurdo preconceito", usando até mesmo questões raciais para desviar o foco da discussão, que envolve um ritmo dançante associado ao grotesco e à estereotipação das classes pobres.

Até mesmo o presidente da APAFUNK (Associação de Profissionais e Amigos do Funk), MC Leonardo, tem que falar de outros assuntos em sua coluna na revista Caros Amigos. Ele havia até mesmo lamentado a "falta de mobilização" das periferias diante da rejeição ampla que o "funk" continua sofrendo no Rio de Janeiro.

A rejeição dada ao ritmo cresceu de tal forma que, nas próprias periferias, as mães, sobretudo negras e pobres, ficam preocupadas quando veem filhos e filhas indo para o "baile funk". Além disso, musicalmente o "funk" escravizou os jovens pobres, que não podem mais aprender a tocar instrumento ou cantar melhor, o "funk" é uma "linha de montagem" com regras muito mais rígidas de execução e expressão. O "funk" só "evolui" se os chefões DJs mandarem, e olhe lá.

Além disso, o apoio de gente ligada ao conservadorismo midiático, como Lobão, Luciano Huck e Nelson Motta foi algo impossível de esconder. Luciano Huck é amigo de Aécio Neves e Eike Batista e serviçal dos irmãos Marinho. Não há como considerar o "funk" à margem da mídia com um apoio da extensão dada pelo principal astro da Rede Globo.

Mas já no "funk ostentação" o abraço da mídia já começa a fazer efeito. A TV Bandeirantes, "casa" de Bóris Casoy e Marcelo Tas (este expressou total apoio ao "funk"), já namora os funqueiros paulistas, que também receberam tratamento vip nas páginas da Veja São Paulo, suplemento feito no "olho do furacão" da revista que tem Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes como seus astros principais.

Os intelectuais associados à defesa do "funk", mesmo assim, não desistem. Por enquanto, eles apostam suas fichas na cena paulista e derramam suas lágrimas em palestras para convencer a sociedade em geral que o "funk" é "cultura de verdade". A blindagem assume seus riscos, no seu discurso oportunista e apelativo, mas já não tem mais a aparente unanimidade de dez anos atrás.

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