terça-feira, 13 de agosto de 2013

FORA DO EIXO É MAIS "IDEOLÓGICO" QUE O CPC E O ISEB


Por Alexandre Figueiredo

"Fenômeno" da temporada, o Fora do Eixo e um de seus braços ativistas, a Mídia Ninja, é oficialmente considerado uma "renovação" em termos de propostas de atividades culturais, tecnologias da informação e expressões midiáticas, aparentemente se configurando numa ação coletiva organizada.

Embora várias fontes definam o Fora do Eixo como a manifestação do novo e como uma força revolucionária na sociedade brasileira, o que se vê na organização é apenas um fenômeno que se vale mais pelas técnicas de marketing do que pelo conteúdo e prática que nem sempre seu discurso consegue expressar ou mostrar.

Há 50 anos atrás, o "fenômeno" da época era o Centro Popular de Cultura da UNE. Comandado por figuras como o dramaturgo, ator e diretor teatral Oduvaldo Vianna Filho e Carlos Estevam Martins, já falecido, e tendo como membros Cacá Diegues, Ferreira Gullar e Arnaldo Jabor, a instituição contava também com núcleos regionais e alguns ligados a entidades estudantis estaduais e municipais.

O CPC da UNE (e outros CPCs direta ou indiretamente ligados) tinha um vínculo ideológico, embora não seja um vínculo estrutural, com o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), instituição cujos principais membros eram Roland Corbusier, Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré, entre outros, e que se dedicava, desde o governo Kubitschek, a avaliar a realidade sócio-econômica do país.

Tanto os CPCs quanto o ISEB foram prematuramente extintos pelo golpe de 1964. Estavam no "pacote" de instituições e pessoas "não muito bem vistas" pelos militares. Mas o pior nem foi isso, foi o fato de que, nos anos 80, num revisionismo histórico feito por intelectuais depois ligados ao PSDB e à grande mídia, criou uma imagem negativa das duas antigas instituições.

Assim, os CPCs e o ISEB se tornaram injustamente classificados como "fábricas de ideologias", como se fossem entidades acabadas, quando suas atividades nem haviam chegado ao auge. Mal conseguiam ter metade da projeção que o Fora do Eixo possui hoje, e não podiam sequer se aperfeiçoar, por causa da ditadura instaurada no Brasil que fez as duas iniciativas se encerrarem.

O FORA DO EIXO JÁ SURGIU "ACABADO" E CENTRALIZADO

Do contrário que os CPCs e o ISEB, o Coletivo Fora do Eixo já nasceu como um projeto acabado e ideológico, além de estar centralizado numa cúpula comandada por Pablo Capilé junto a colaboradores diversos como Pedro Alexandre Sanches, Carlos Eduardo Miranda, Emicida, Criolo, Bruno Torturra, entre outros.

Os CPCs, por exemplo, ainda discutiam a questão da cultura popular, se ela precisava baixar ou elevar o nível das expressões culturais ou se a mensagem popular tinha necessariamente que conter temas de engajamento político, muito antes da cultura brasileira enfrentar transformações como a popularização da guitarra elétrica e o problema dos mecanismos da "cultura de massa".

Mas o Coletivo Fora do Eixo já estabelece um projeto acabado de "expressão cultural", numa aliança, um tanto tendenciosa, entre o mercado (visto como um mercado "anti-mercado") e as cenas independentes, num processo ideológico em que a "cultura de massa" não é mais discutida, mas "aperfeiçoada" pelo paternalismo intelectual que conhecemos.

Observa-se, em vez de discutir os rumos da cultura brasileira, um debate restrito às necessidades de sustentação econômica e publicitária tanto de um establishment cultural ainda não plenamente massificado quanto de cenas culturais emergentes, mas sem que se questione as contradições e problemas que a "cultura de massa" traz, sobretudo no que se diz à domesticação do povo pobre.

Desse modo, os FdE tanto acolhem performáticos independentes quanto funqueiros e uma ala de ídolos bregas que não voltou à grande mídia (da qual essa ala não foi boicotada, mas apenas "tirou férias" como em modismos adormecidos), como Luís Caldas, Leandro Lehart, Raça Negra e Odair José, empurrados para os redutos alternativos no lugar de quem realmente precisa desses espaços.

Há no coletivo uma pregação ideológica das "novas mídias" que superestima o potencial tecnológico em detrimento da mobilização humana (como se esta só fosse possível em função das novas tecnologias), o que mais parece propaganda de empresas de telefonia e de Informática do que uma defesa das facilidades que a tecnologia traz para a mobilização dos vários segmentos sociais.

Além disso, existe também uma apropriação da marca Fora do Eixo nas várias produções e eventos de integrantes associados, mas estes, além de não levarem seus créditos pessoais, também não são devidamente remunerados por isso. E, nas diversas reuniões do grupo, Pablo Capilé já havia demonstrado que, por trás do discurso de "coletividade", ele estabelece poder centralizado na instituição.

Duas dissidentes do FdE, a cineasta Beatriz Seigner e a jornalista Laís Bellini descreveram, em seus respectivos textos no Facebook, a atitude centralizada de Pablo Capilé. E que nos fazem pensar sobre o nível ideológico do Coletivo Fora do Eixo.

O FdE não quer transformar a sociedade de forma orgânica. Apenas quer se tornar um consórcio de produtores culturais e ativistas sociais num discurso que é transgressor na forma, mas altamente convencional no conteúdo.

Embora a organização seja muito recente, surgida em 2005 e, portanto, oito anos de existência - mais jovem que o ISEB (1955-1964) e mais velho que o CPC (1961-1964) - , o grupo já estabelece um perfil ideológico, se observarmos que as atuações do CPC e do ISEB, em que pese a influência de alguns integrantes, eram bem menos ideológicas que a dos FdE.

Afinal, os dois projetos estavam, na verdade, em aberto, mas não puderam levar seu caminho adiante. Se não tivéssemos ditadura militar, o CPC da UNE teria revisto vários de seus equívocos, e quem sabe teria difundido e revitalizado uma cultura brasileira mais forte.

Extinto pela ditadura, o CPC perdeu o rumo e as oligarquias (sobretudo latifundiárias) fizeram, com seu aparato midiático, a cultura popular baixar o nível, sobretudo pelo brega que, primeiro, derrubou qualquer vínculo do povo pobre com sua própria cultura para depois investir em pastiches dessa mesma cultura subtraída, através de "pagode romântico", axé, "forró-eletrônico", "sertanejo" etc.

Sem o ISEB, a economia foi tomada de uma geração de tecnocratas (sobretudo em torno de Fernando Henrique Cardoso) que passou a pensar no desenvolvimento brasileiro sem rupturas reais com a supremacia dos países ricos, em que a cidadania não pode ser além do mais básico possível e a prosperidade econômica deve se limitar a um processo fomentador de consumismo.

"OFICINA DE IDEOLOGIAS"

O que o Coletivo Fora do Eixo quer não é realmente o novo. Culturalmente, prefere aparar as "feridas" culturais causadas pelo establishment do brega com aparatos pós-tropicalistas de efeitos placebos (inócuos). Um exemplo disso é a cosmética em torno do tecnobrega, ritmo patrocinado pelo latifúndio e pelos barões da mídia no Pará, mas vendido como "movimento cultural sem mídia".

Como projeto de políticas sociais, econômicas e midiáticas, os FdE apenas reciclam o neoliberalismo com algum reformismo social relativo, maior ênfase na tecnocracia digital, na espetacularização dos movimentos sociais e na concentração de poder na figura de Pablo Capilé. Portanto, estamos à frente de uma verdadeira "fábrica", ou melhor, de uma "oficina de ideologias".

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