terça-feira, 6 de agosto de 2013

FHC E A INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA



Por Alexandre Figueiredo

Seria Fernando Henrique Cardoso o "cabeça" de um plano para promover a mediocrização cultural do Brasil? Diretamente, talvez não, mas o que se sabe é que hoje a supremacia de uma intelectualidade cultural "sem preconceitos" nada seria se não fossem os conceitos que o ex-presidente, ainda como apenas sociólogo e acadêmico, difundia em torno das teorias de livre mercado associadas ao (limitado) desenvolvimento social do Brasil.

Hoje a intelectualidade bate o pé e jura de pés juntos que sua linha de pensamento é "progressista". Tentam fazer prevalecer a tese de que a "cultura de massa" baseada numa linhagem de tendências bregas, supostamente "populares", é o novo folclore brasileiro e sinônimo de ativismo social das classes populares.

Seus "pensadores" se contradizem o tempo inteiro. Mas basta uma choradeira que eles acabam parecendo convincentes. Há muita gente de coração mole, mesmo nas esquerdas. E a choradeira de que certos intelectuais "aguentaram todo tipo de preconceito" para convencer de que o povo pobre é melhor sendo cafona, sem qualquer escrúpulo de promover sua imbecilização, acaba fazendo sentido, mesmo com todos os equívocos a respeito desta tese.

O que poucos imaginam é que essa tese, baseada numa suposta "cultura das periferias" fundamentada nos valores difundidos pelo rádio e televisão, é claramente influenciada pela Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso. Para esses "pensadores", é cruel essa constatação, conforme a suposta orientação ideológica "de esquerda" que eles hoje tentam assumir, mas a herança é fato.

Afinal, não custa repetir que FHC, na sua tese sobre subdesenvolvimento no Brasil, pregava uma prosperidade sócio-econômica que não comprometesse a hierarquia geopolítica do Ocidente. Ele defendia o progresso econômico, a redução da pobreza, o aumento do consumo e do emprego, mas dentro dos limites que reconheçam que o Brasil "não precisava" superar a hegemonia dos países ricos, apenas adotando uma relativa prosperidade social.

Além disso, os termos "centro" e "periferia", muito mais do que um discurso intelectual empurrado goela abaixo para as plateias progressistas, foram lançados primeiro pelo ex-presidente e membro-fundador do PSDB. A ideia de periferia defendida por Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e outros se baseou explicitamente nos conceitos trabalhados por FHC.

POVO POBRE ASSOCIADO À IDEIA DE "MAU GOSTO"

E o que isso significa para a cultura? Adaptada ao âmbito da cultura popular, a Teoria da Dependência de FHC indica que o povo pobre expressará a cultura popular não mais da maneira espontânea que construiu o rico patrimônio cultural que hoje temos, mas deve desenvolver, de forma "re-criativa" (ou recreativa?), os referenciais trazidos pelas mídias regionais, que a intelectualidade dominante atribui como "porta-vozes do povo".

A partir de intelectuais que construíram a base que inspirou o pensamento neoliberal de hoje, de Gilberto Freyre a Francis Fukuyama, se estabelece um parâmetro ideológico em que o povo pobre está associado ao "mau gosto" que, aceito pela sociedade, é "lapidado" pelo assistencialismo intelectualoide patrocinado "acidentalmente" pela grande mídia.

É a própria visão de que o povo pobre está associado à ideia de "mau gosto", num preconceito cinicamente difundido como se fosse uma "ruptura de preconceitos", que esconde esse paternalismo gentil e cordial da intelectualidade pró-brega. São teses elitistas que são servidas às plateias de esquerdas como se fossem "genuínas teses progressistas de cultura popular".

Ou seja, a intelectualidade adota seu discurso que é entendido da seguinte forma, sem nos limitarmos à aparência mas buscando sentidos também ocultos do texto:

1) A intelectualidade reconhece que os fenômenos midiáticos "populares", embora rendam muito dinheiro, são considerados por especialistas "baixa cultura" e "expressões do mau gosto".

2) O discurso intelectual então ensaia uma solidariedade, dotada de um paternalismo não-assumido, a esses fenômenos "populares", sob a alegação de que eles, por "fazerem muito sucesso", são "a expressão genuína (sic) de um povo ou uma comunidade".

3) Apoiando esses fenômenos "populares", a intelectualidade os adota como "protegidos" de uma pretensa folclorização que esconde o fato de que tal discurso não é mais do que uma tentativa de recuperar, em termos comerciais, a popularidade dos ídolos popularescos de outrora ou de ampliar o sucesso dos ídolos do momento para plateias mais "seletivas".

4) A partir disso, a intelectualidade busca então "melhorá-los" com seu paternalismo dando aos ídolos "populares" informações e referenciais. Por exemplo, o paternalismo intelectual é capaz de dizer para um funqueiro que houve a Contracultura dos anos 60 e o povo negro era capaz de protestar sentado à mesa de um restaurante. Ou dizer para um "sertanejo universitário" que existem nomes como Byrds e Neil Young. Ou então dizer para uma "mulher-fruta" que um dia Leila Diniz esteve entre nós.

Com todo esse processo, bem à altura da aparente generosidade do projeto neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, mostra duas coisas. Primeiro, que o povo pobre é portador de "cultura inferior" e temos apenas que fingir crer que isso não existe. Depois, jogando os problemas da ignorância e da manipulação social das elites para debaixo dos tapetes da intelectualidade, tudo é feito mais para garantir publicidade para uma elite de jornalistas culturais, cineastas e cientistas sociais.

Primeiro, deixa-se o povo pobre mostrar tudo que ele tem de ruim. Segundo, esse processo tem que ser legitimado como se fosse "expressão natural do povo pobre", pouco importa se os ídolos de sucesso surgiram das mentes de um executivo de TV ou gravadora. Terceiro, legitimado o processo, a intelectualidade, "solidária", mostra as maravilhas da "alta cultura" para os ídolos popularescos se "aperfeiçoarem".

Daí a grande farsa que a intelectualidade supostamente progressista, mas formada por valores difundidos por Fernando Henrique Cardoso nos meios acadêmicos e pela Rede Globo e Folha de São Paulo na mídia, que quer que a cultura popular seja associada a tudo de ruim, mas relativizado como se fosse "o lado bom do outro".

Para a intelectualidade dominante, o povo pobre só é "melhor" naquilo que ele tem de ruim, e nós é que somos obrigados a aceitar tudo isso. Ela defende isso sem medir escrúpulos em ver o rico patrimônio cultural brasileiro nas mãos de uns poucos especialistas.

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