sexta-feira, 30 de agosto de 2013

FAROFA-FÁ SONHA COM A MÚSICA BRASILEIRA DA ERA MÉDICI

NOVOS BAIANOS - Na perspectiva fukuyamiana dos blogueiros do Farofa-fá, o som do grupo só serve para as altas elites universitárias.

Por Alexandre Figueiredo

Embora abrigado num portal da imprensa progressista, o blogue do Farofa-fá, comandado por Eduardo Nunomura e Pedro Alexandre Sanches, é a tradução perfeita das ideias de Francis Fukuyama, mesclados com os conceitos de livre mercado de Fernando Henrique Cardoso e de "cultura de massa" de Caetano Veloso, sobre o "fim da História" da MPB.

Nessa visão, a visão de "diversidade cultural", embora trabalhada num discurso "libertário", nada difere, em sentido ideológico, dos conceitos de "livre mercado" do neoliberalismo econômico e de "liberdade de imprensa" dos barões da grande mídia.

A visão se fundamenta na tese de que a história da Música Popular Brasileira "deu o que tinha que dar". Ou seja, criamos um patrimônio cultural, desde os tempos indígenas até os contatos com influências europeias e africanas, e, mais tarde, norte-americanas, e tivemos um auge com a sofisticação dos anos 60 e 70.

Depois disso, a história da música brasileira atingiu seu "fim" e o canto do cisne teria sido a da geração da casa noturna Lira Paulistana, cujo cenário musical, comandado por Arrigo Barnabé e pelo falecido Itamar Assumpção, se comparou à Semana de Arte Moderna de 1922 em sua terceira geração (a segunda teria sido o Tropicalismo).

Mas, apesar de podermos considerar como "canto do cisne" a turma da Lira Paulistana, a "queda do muro" teria sido dado no Festival da Música Popular Brasileira da TV Record de 1967, com o "grito" de Caetano Veloso contra a vaia durante seu número "É Proibido Proibir".

A partir desse "primeiro grito", que é visto pela intelectualidade dominante como um "divisor de águas" da MPB, derrubaram-se as fronteiras entre o folclore e a "cultura de massa", algo que, à primeira vista, parece democrático, mas no fundo é a aplicação das regras de "livre mercado" da música brasileira.

E, depois dela, veio o "milagre brasileiro" e, com ele, a ascensão dos ídolos cafonas, favorecida pela divulgação desses cantores pelas emissoras de rádio que apoiaram a ditadura militar. E veio a verdadeira discriminação cultural que hoje é considerada "anti-discriminatória" pela tão festejada intelectualidade.

Isso porque, no calor da Era Médici, a música brasileira se dividia entre as cafonices que eram empurradas para um público de menor poder aquisitivo e menor instrução, enquanto a música brasileira de qualidade era reservada para um público mais intelectualizado e com mais dinheiro no bolso.

A MPB autêntica tinha trânsito nas rádios, mas como havia a censura e um certo interesse da grande mídia de dificultar o acesso de seus artistas ao grande público - só permitindo mediante algumas condições, ou quando não podia vetar o acesso, sobretudo quando se tratam de sambistas e sanfoneiros de notável reconhecimento popular.

Foi a partir dessa época que houve, nas universidades, o começo da desmoralização dos CPCs da UNE, do ISEB e daqueles que lutavam pela melhoria da cultura brasileira. E que criou visões completamente distorcidas sobre o processo evolutivo da música brasileira, os mesmos defendidos, às vezes com notável sutileza, pelos blogueiros e colaboradores do Farofa-fá (não seria Farofa-FH?).

É o caso do antigo patrimônio cultural das classes populares, que agora tornou-se privativo de um público economicamente mais abastado. Baião nordestino, por exemplo, virou coisa de universitários hippies e quase ricos do Paraná. O samba que animava os morros cariocas hoje é visto como coisa "tão Zona Sul" quanto a Bossa Nova.

Em contrapartida, a afirmação do povo pobre está no que as emissoras de rádio empurram para ouvir, e pela mediocridade artística que só é lapidada depois de milhões de discos vendidos após cinco anos. E o povo pobre não cria mais sua cultura, "recria" a partir de "matérias-primas" vindas de fora, através do poder midiático.

Era isso que ocorria na Era Médici. O "povão" ouvia Waldick Soriano, Odair José, Wando. Quando podia, tinha condições de ouvir de Cartola a Zé Ramalho, de Nelson Cavaquinho a Djavan, passando por Elis Regina. Já as elites universitárias ouviam o "lado B" de Zé Ramalho, Djavan, Belchior etc, mas podia ouvir Quinteto Violado, Joyce, o Clube da Esquina, o som instrumental brasileiro.

SEPARATISMO "COMBATIDO", MAS AGRAVADO

Hoje a intelectualidade usa a desculpa do combate à segregação cultural para misturar bregas e MPB num mesmo balaio. Mas na verdade ela reforça essa segregação, esse separatismo "combatido" é agravado, porque as elites "podem" ouvir música brega, mas o "povão" não pode ouvir música de qualidade.

O pessoal do Farofa-fá que elogia o "funk" como se fosse a última flor do Lácio ouve dentro de seus quartos os discos dos Novos Baianos, do Quinteto Violado, de Diana Pequeno, de Marcos Valle, de Zimbo Trio, da Banda Black Rio. Já o "povão" não, e hoje são os netos de quem, discriminado socialmente, só podia ouvir Waldick, Odair, Gretchen, Mauro Celso, Amado Batista e companhia.

Os mais jovens ouvem brega-popularesco que rola nas FMs controladas por grupos oligárquicos, por políticos, latifundiários e até jagunços. Mas hoje a coisa é pior, porque até mesmo o público universitário está exposto a esse lodo e, o que é pior, é obrigado a reconhecer como "vanguarda" nomes retrógrados como Luiz Caldas, José Augusto, Leandro Lehart, Gaby Amarantos, Mr. Catra etc.

Ou seja, hoje a coisa está pior. A cultura brasileira tem seu destino nas mãos das esquerdas médias e dos alienígenas da centro-direita que hoje querem que "democracia cultural" seja aceitar o brega e achar que a MPB autêntica encerrou sua era.

Enquanto ainda existe MPB autêntica, mas ela envelhece, com seus antigos jovens artistas tornando-se "coroas" ou idosos, o que se vê são um bando de "performáticos" patéticos, musicalmente confusos e inócuos, misturando MPB e brega querendo soar "provocativos", mas apenas soam tolos. Vide Kitsch Pop Cult, Banda Uó, Vivendo do Ócio, Gang da Eletro e outros bobos-alegres.

Se a vanguarda da Música Popular Brasileira está nas mãos desse pessoal, estamos perdidos. E a patota do Farofa-Fá quer que, em primeiro momento, se inicie uma "gororobização" da música brasileira, misturando MPB de vanguarda com cafonices, até que depois se criem os padrões mercadológicos para o império totalitário do hit-parade na música brasileira.

Revivendo o segregacionismo cultural da Era Médici, os "farofa-feiros" tentam caprichar no discurso libertário de mensagem neoliberal. E querem radicalizar o processo. O hit-parade brasileiro do brega já é hegemônico há algum tempo. Com o proselitismo "farofa-feiro", o hit-parade poderá se tornar totalitário. E aí a música de qualidade será apenas uma doce lembrança do passado.

Essa farofa tem um baita sabor de jabá...

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