segunda-feira, 5 de agosto de 2013

FAROFA-FÁ E A PROVOCAÇÃO COMO MERCADORIA

Por Alexandre Figueiredo

Na falta de uma pauta definida para a cultura popular, as esquerdas são tragadas por uma intelectualidade de centro-direita, inspirada em Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama, Roberto Campos e outros dos quais adaptam conceitos neoliberais para o âmbito da cultura.

Mais uma vez, essa intelectualidade tenta o proselitismo, agora com o sítio Farofa-fá, de Pedro Alexandre Sanches e Eduardo Nunomura, ligados ao combo soros-positivo do Coletivo Fora do Eixo, buscar hospedagem no portal da Carta Capital, com a pretensão de abordar "sem preconceitos" as várias tendências da cultura brasileira.

Usando como pretexto a "diversidade cultural" - no mesmo sentido de "democracia" defendida pela banda podre da imprensa política - , Sanches e Nunomura haviam se formado na USP numa época em que FHC era um dos gurus máximos da universidade, como alternativa "equilibrada" para o "desorientado" Fernando Collor de Mello, que havia confiscado as poupanças de todos os brasileiros.

Eram tempos em que a Folha de São Paulo exercia supremacia absoluta e com seu Projeto Folha orientava uma visão neoliberal de cultura popular, na qual a cultura de qualidade é obrigada a fazer o papel de coadjuvante enquanto os donos da festa, ligados à "cultura" brega e seus derivados, fingem que são excluídos da grande mídia.

O conteúdo do sítio alternará a MPB de qualidade que não foi devidamente popularizada - e que também não integra a "ingrata" elite da Biscoito Fino - e os brega-popularescos que tiraram férias da grande mídia, com o direito ao dirigismo ideológico que pretende obrigar as pessoas a gostar dos bregas sem "obrigá-las a gostar" dos mesmos.

Daí tal dirigismo que determinará ao público alternativo e descolado brasileiro a aceitar como "libertários" e "provocativos" nomes inócuos como Benito di Paula, Luiz Caldas, Leandro Lehart, Sílvio Britto, Odair José, Raça Negra, e até mesmo a Gaby Amarantos que até a revista Veja adora.

O Farofa-fá aposta numa abordagem "provocativa", mas numa provocação transformada em mercadoria e cujo potencial contestador é esvaziado. Afinal, seus responsáveis juram que são desprovidos de qualquer tipo de preconceito, menos o de um, que é ver o "mau gosto" como único caminho viável para a expressão das classes populares.

Estas, segundo o olhar "generoso" da intelectualidade dominante - que mais uma vez tenta seduzir as esquerdas com pontos de vista que caem direitinho em O Globo e na Folha de São Paulo - , são obrigadas a pautarem seus valores culturais pela mídia, cujo vínculo oligárquico é simplesmente ocultado pela intelectualidade "fora do eixo" que recebe mesada do magnata George Soros.

Tendo agora como ênfase o "funk ostentação" e o tecnobrega, o Farofa-fá apenas trata o ato de "provocar" como mercadoria, já que é de praxe de seus responsáveis ignorar as diferenças entre cultura de verdade e "cultura de massa", apenas pela aparente associação ao "popular" e ao "pobre".

Paciência. Não temos um Umberto Eco, um Noam Chomsky ou um Guy Debord no Brasil. Até poderíamos ter, mas eles foram barrados na porta de entrada dos anteprojetos de mestrado nas Universidades. A cultura brasileira está travada, e vivemos a supremacia de uma geração que vê a pobreza como "algo lindo", em vez de defender a verdadeira qualidade de vida das classes populares.

Para quem se interessar, o Farofa-fá entrará no ar no novo portal na próxima sexta-feira. Só que estará mais para gororoba do que para farofas e paçocas (alusão à antiga coluna de Pedro Sanches, hoje escrita pela talentosa cantora Eliete Negreiros). Porque sua tese é mostrar que o joio é parte integrante e inseparável do trigo da visão dominante dos intelectuais sobre a cultura brasileira.

No entanto, cuidado. O Farofa-fá se insere no mesmo contexto de Joaquim Barbosa namorando a Globo e Merval Pereira ocupando cadeira na Academia Brasileira de Letras. Como todo neoliberalismo, fala-se em "liberdade" e "democracia" apenas para legitimar o pior, para que o "mau gosto" tente roubar a festa da cultura de qualidade brasileira.

Portanto, não se trata de um portal progressista a prometer defesa da regulação midiática e a libertação das classes populares dos desmandos do capitalismo. Para a intelectualidade dominante do país, índio quer apito. Mas, por outro lado, tucano quer comer farofa, quer comer farofa, quer comer farofa-fá.

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