terça-feira, 27 de agosto de 2013

DEFESA DO "FUNK" OU APOLOGIA AO RACISMO?

SOB O PRETEXTO DE ASSOCIAR O "FUNK" À NEGRITUDE, INTELECTUAIS ESTARIAM  DEPRECIANDO OS NEGROS POBRES.

Por Alexandre Figueiredo

O discurso de defesa do "funk" agora mudou de foco. Deixou de lado, não por completo, mas pelo menos de forma prioritária, a defesa do "funk" feito no Rio de Janeiro, visado negativamente pela  opinião pública, para apostar suas fichas no "funk ostentação" paulista, que soa novidade e é reforçado pela repercussão nacional do assassinato de um dos seus nomes, MC Daleste.

O "funk", tido agora como "mais paulista do que carioca" pela intelectualidade "soros-positiva", precisa agora mudar o seu discurso. Sem deixar de lado alegações repetitivas e chorosas de "vítima de preconceito" e "expressão das periferias", agora precisa reforçar os argumentos de defesa na medida em que aumenta a rejeição popular ao ritmo.

Agora a intelectualidade precisa vincular o "funk" ao "caldo cultural" brasileiro, jogando o ritmo dentro de "modernismos e antropofagias, saudosas malocas e modernas tropicálias", nas palavras do aluno-modelo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, por ora passeando agora pelas ciberredações de esquerda.

A própria intelectualidade que defendia o brega-popularesco e empurrava goela abaixo para as plateias alternativas e progressistas uma linhagem de bregas que ia de Waldick Soriano a Mr. Catra, pouco importando o "abraço" dos barões da grande mídia a eles, antes discriminava a MPB autêntica, jogando-a para dentro de seus armários particulares para apreciação privada em suas casas.

Hoje mudam de estratégia. Precisam "liberar" os "malditos" da MPB autêntica para uma parcela "menor" das classes médias e baixas consumirem. Algo que a grande mídia fez no final dos anos 90, quando, pressionada por discriminar a MPB em prol dos neo-bregas, "liberou" os medalhões da MPB e tentou um vínculo com os neo-bregas vigentes.

Daí, por exemplo, duetos como entre Zé Ramalho, o "medalhão", e Chitãozinho & Xororó, os neo-bregas. Algo não para exatamente sofisticalizar, aos poucos, o gosto popular que envolve também o das classes médias baixas e as classes baixas, mas de empurrar a breguice hegemônica para o público mais selecionado.

A COISA ESTÁ MAIS ORGANIZADA

Hoje a mesma coisa é feita num contexto mais "arrojado" e num cenário "progressista". Mesmo que a intelectualidade se esforce, não sem constrangimento, tapar o sol do apoio da grande mídia com a peneira.

Junta-se então os excluídos do mainstream da MPB com os supostos "excluídos" do brega e derivados. Podendo ser até Michael Sullivan, que havia tido, na música brasileira dos anos 80, o poderio que Ali Kamel hoje tem no jornalismo da Rede Globo. Mas que o "caldo" (ou o caldeirão; Luciano Huck que o diga) tenha que incluir sobretudo o "funk".

Afinal, o "funk" é uma forma de manter a população pobre sob o controle remanescente dos dissidentes do baronato midiático, que foram seduzir as esquerdas no exato momento em que o barco da grande mídia começa a afundar. Alguns bons alunos dos barões da mídia foram espertos o suficiente para armarem trincheira no lado oposto, antes de serem tragados pelo desgaste que sofrem seus mentores.

O que surpreende, no entanto, é que a situação está bastante persuasiva, a coisa está mais organizada. Não são apenas artigos como o de Milton Moura, lá na Bahia, fazer defesa das baixarias do É O Tchan, nem Mônica Neves Leme, na surdina, entregar as mesmas baixarias na conta do poeta Gregório de Mattos, falecido há mais de 300 anos e cujos restos mortais se perderam.

Hoje são grupos de ativistas, grupos de intelectuais, políticos, todo o Ministério da Cultura engajado - pelo menos a corrente comandada por Gilberto Gil e Juca Ferreira - , alguns esquerdistas médios e o "namoro escondido" com os barões da grande mídia. Todo esse movimento organizado para promover a domesticação das classes pobres com o "funk".

REJEIÇÃO ATRIBUÍDA AO RACISMO

E o "funk", agora com campanhas cada vez mais chorosas, utiliza como "desculpa" o racismo para invalidar a ampla rejeição que recebe do público. E que agora, "queimado" pelas notícias criminais, pelas associações às baixarias e pelo envolvimento com a velha grande mídia, o "funk" recicla seu discurso com outras caras e outros lugares, através do "funk ostentação".

É uma forma de tentar ganhar tempo enquanto o "funk" recicla o mercado carioca se realimentando da reputação paulista. Embora o "funk ostentação" soe confuso, promovendo "cidadania" misturando "proibidões", "popozudas" e letras exaltando a riqueza e o luxo, ele tem o caráter "novidadeiro" por ter sido uma cena surgida mais recentemente.

Portanto, misturando seus equivalentes paulistas de Anitta, MC Federado & Os Lelekes, Naldo Benny, Mr. Catra, MC Smith e MC Cidinho & MC Doca, com uma estética "nova" importada do gangsta rap, reforçam todo o discurso "ativista" que há dez anos tenta promover a supremacia do "funk" na cultura brasileira.

Só que a argumentação, muitas vezes, pega pesado demais nas acusações contra quem rejeita o ritmo carioca agora com "filial paulista". A intelectualidade agora atribui a rejeição a um suposto sentimento de racismo por parte dos detratores do gênero.

"O 'funk' é rejeitado porque é feito por negros", é a desculpa geral agora difundida pela intelectualidade dominante. Sem medir escrúpulos para o exagero da acusação, afinal nem todos os envolvidos no "funk" são negros, a onda agora é forçar a barra das acusações indevidas para colocar os funqueiros como "vítimas" mais uma vez.

FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO

O que pode ocorrer com a pregação intelectual em favor do "funk" é que o feitiço poderá se voltar contra o preconceito, quando ela tenta associar o ritmo à ideia de negritude. Isso porque, se analisarmos a simbologia do "funk" em sua praxe, a associação da negritude pode significar não a defesa da negritude, mas uma possível prática de racismo contra os negros.

O "funk" está associado à ideia de glamourização da pobreza, ou seja, da pregação da ideia, bastante discutível, de que "ser pobre é lindo". Junto a isso há a exaltação dos mais baixos valores morais, relacionados sobretudo a sexo e criminalidade, incluindo a exploração da imagem da mulher (inclusive negra) como objeto sexual e a incitação à pedofilia até dentro de "bailes funk".

A intelectualidade "relativiza" esses valores e, sem detalhá-los, os define como "positivos", a pretexto de serem "valores do outro". "O que para nós é imoralidade para as periferias é sinônimo de felicidade e aumento de auto-estima", é o que costumam argumentar.

Só que associar a negritude ao "funk" tem esse preço, o de associar a negritude aos valores negativos vinculados ao ritmo. E isso pode soar uma postura sutilmente racista por parte da intelectualidade, para a qual a imagem do negro pobre está sempre associada a valores pejorativos, pouco importa se eles são "positivamente" descritos sob o pretexto da "alteridade cultural".

Daí o problema da intelectualidade forçar a barra na apologia ao "funk". Não conseguindo argumentar de forma mais nobre, agora partem para acusações fortes, mesmo difundidas "com categoria". É verdade que não vivemos mais a realidade de 150 anos atrás, mas às vezes a intelectualidade dominante parece estar vivendo nos tempos dos velhos engenhos escravistas da cana de açúcar...

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