sexta-feira, 16 de agosto de 2013

DEBATES CULTURAIS EM TRINCHEIRAS OPOSTAS

VLADIMIR SAFATLE (E) E EDUARDO NUNOMURA - Batalha cultural com trincheiras trocadas.

Por Alexandre Figueiredo

Morto há 30 anos, o cineasta espanhol Luiz Buñuel perdeu uma boa sinopse. Uma polêmica cultural em que um intelectual de esquerda usa um espaço de direita para expressar suas ideias e que é rebatido por um intelectual de centro-direita (apesar de autoproclamado "de esquerda") que usa um espaço digital fornecido por um portal de uma revista semanal de esquerda.

Vamos narrar a situação. Há pouco mais de um ano, o filósofo e professor universitário Vladimir Safatle havia escrito o texto "Nome Próprio da Cultura", em 03 de julho, na sua coluna da Folha de São Paulo. Safatle é considerado um prestigiado pensador de esquerda, mas a Folha é um jornal direitista, embora tenha reservado um espaço para o pensamento esquerdista, o extinto caderno Mais!.

Nesse texto, Vladimir questionava o desvirtuamento do debate da cultura brasileira para aspectos meramente econômicos, assistenciais e educacionais, além de criticar a atitude da intelectualidade de perder tempo com o que ele define como falsos dilemas, como a dicotomia "cultura de elite" versus "cultura da periferia".

Num dado momento, Vladimir escreveu o seguinte trecho: "Como Britney Spears sempre circulará mais do que Anton Webern, fica justificada a transformação do Estado em departamento de desenvolvimento de subprodutos culturais para a indústria. Daqui a pouco, teremos baile funk pago pela Secretaria da Cultura (ainda por cima, com a desculpa de que se trata de manifestação popular)".

Foi a senha para despertar a reação da intelligentzia engajada na bregalização da cultura popular. Antes de ir adiante, é bom avisar que Anton Webern foi um compositor e maestro austríaco, morto durante a Segunda Guerra Mundial, e que era ligado à música dodecafônica, vertente considerada "pós-modernista" da música clássica.

 O MÚSICO DANILO DUNAS

E eis que chega uma mensagem do acordeonista Danilo Dunas, famoso por tocar versões de "Chupa Que é de Uva", sucesso dos paladinos da imbecilização cultural do "forró eletrônico", os Aviões do Forró, e de produzir um sucesso funqueiro híbrido, a "Melô do Tchuco Muco".

Danilo Dunas, ironicamente, foi citado em reportagem da Folha de São Paulo em favor do "funk", ritmo . A mensagem dele foi acolhida por Eduardo Nunomura, um dos editores da coluna Farofa-fá, abrigada no portal da revista Carta Capital.

EM QUE PLANETA DANILO DUNAS VIVE? EM QUE TEMPO?

Questionando Vladimir Safatle, Dunas recorreu aos velhos clichês da discurseira pró-funqueira conhecida há pelo menos dez anos. Esnobando as críticas de Safatle ao falso dilema “cultura elitista x cultura popular”, Danilo, na sua choradeira, compara a rejeição que o "funk carioca" sofre hoje com a que o samba e a capoeira sofreram no passado.

Em contrapartida, Danilo solta a seguinte "pérola", que não tem o menor procedimento prático da realidade: "Se há um gênero musical que se desenvolve de forma vigorosa à margem da “indústria cultural”, é o funk, assim como o tecnobrega e outros estilos musicais das periferias do Brasil".

Quanto à comparação de Danilo faz do "funk" com o samba e a capoeira, seu argumento é improcedente na medida em que vivemos sociedades diferentes. O "funk carioca" não é vítima de uma elite moralista e higienista, como aquela que prevalecia em 1910. Ele é rejeitado por uma sociedade moralmente bem mais flexível, mas que não aceita os abusos imorais cometidos pelo gênero.

Muito se falou aqui pela glamourização da pobreza a que é associado o "funk carioca", evidentemente não pelo discurso intelectualoide que o defende, mas pelos questionamentos sérios que se vê diante da defesa da pedofilia, da redução da mulher a um objeto sexual e das apologias à violência e a criminalidade, além do som intragável do "funk carioca".

Estas são coisas rejeitadas não por uma sociedade órfã da aristocracia do Segundo Império ou das oligarquias da República Velha, mas de pessoas com profundo conhecimento de cidadania, conceitos morais, ética, qualidade de vida e outros princípios democráticos, enquanto o "funk" é um depositário de valores sociais retrógrados travestidos de "novos" pelo discurso intelectual dominante.

Outro equívoco, gravíssimo, traçado por Danilo Dunas, é dizer que o "funk carioca", assim como o tecnobrega e outros ritmos "populares" (talvez ele fale também de arrocha e tchê-music, por exemplo, além do "forró eletrônico" que no Nordeste enfurece até budista), está "à margem da 'indústria cultural'".

Nada disso. Esses ritmos todos se articularam em torno de valores, padrões e influências de sistemas de rádio e televisão controlados por oligarquias regionais, e como mercados foram alimentados até mesmo por grandes proprietários de terras e políticos conservadores. Nem quando surgiram eles estiveram à margem da grande mídia, foram alimentados, tutelados e fortalecidos por ela.

O "funk carioca" é historicamente ligado às Organizações Globo, e seu discurso "socializante" foi estabelecido nas telas da Rede Globo e também nas páginas da Folha de São Paulo bem antes de virar queridinho das esquerdas médias. Nunca ficou à margem da grande mídia, e nomes como Luciano Huck são os que mais contribuíram para a popularização do gênero, de forma aberta e explícita.

Quanto ao tecnobrega, o pessoal lê um livro de um advogado carioca, o professor Ronaldo Lemos da Fundação Getúlio Vargas, patrocinado pela Fundação Ford e por George Soros, dizendo que o tecnobrega surgiu à margem da grande mídia de Belém do Pará. Equívoco gigantesco.

Quem acompanhou a ascensão do tecnobrega e suas "aparelhagens", sabe que o tecnobrega sempre teve o apoio das oligarquias midiáticas paraenses, várias delas parceiras do latifúndio que extermina a bala trabalhadores rurais no interior.

O tecnobrega teve o apoio entusiasmado até do Grupo O Liberal, da oligarquia Maiorana (ou Mayorana), que sempre divulgou abertamente o ritmo. O Grupo O Liberal é parceiro local das Organizações Globo (a afiliada da TV Globo é desse grupo) e seu poderio tenta sufocar de toda forma a manifestação progressista de Lúcio Flávio Pinto, blogueiro e autor do Jornal Pessoal.

Portanto, Danilo Dunas deve viver no Brasil de 1910 em que não havia Rede Globo nem Folha de São Paulo (O Globo era apenas um jornal fictício de uma obra de Lima Barreto e uma lembrança de um extinto jornal do século XIX sem relação com os Marinho; e Irineu Marinho, pai de Roberto e avô dos atuais donos das OG, dirigia A Noite).

Por outro lado, era um Brasil que também não havia Lúcio Flávio Pinto (que, por sinal, acha tecnobrega um lixo). Os jornalistas pessoais eram outros, e mesmo as teses marxistas não haviam se transformado em fenômenos políticos. E o Brasil era culturalmente mergulhado em mares parnasianos e simbolistas, distantes dos futuros ventos modernistas que arejaram nossa cultura.

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