quarta-feira, 28 de agosto de 2013

COLETIVO FORA DO EIXO E O CASO CABO ANSELMO


Por Alexandre Figueiredo

A comparação soa pesada e os contextos são diferentes, mas não há como ignorar as semelhanças entre o fenômeno Coletivo Fora do Eixo / Mídia Ninja e a Revolta dos Marinheiros de 50 anos atrás, episódio cujo desfecho acabou impulsionando o golpe militar de 1964.

Em 1963, o Brasil discutia as reformas de base prometidas pelo então presidente da República, João Goulart. Reforma política, reforma tributária e sobretudo reforma agrária estavam entre as prioridades. Já se falava, timidamente em relação a hoje, em reformulação da mídia, que hoje é um dos pontos centrais dos movimentos sociais.

Naquela época, não havia Internet e a televisão brasileira mal começava a experimentar a novidade do videoteipe, usada então por poucas emissoras. A grande imprensa exercia supremacia e o rádio, longe da queda não-assumida de audiência de hoje, impulsionou um crescimento enorme da audiência de então por conta dos aparelhos portáteis.

Já se falava, nos bastidores da intelectualidade e dos movimentos esquerdistas, de uma escandalosa negociação entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life para a implantação de uma emissora de TV com outorga de responsabilidade da Rádio Globo do Rio de Janeiro. Não é preciso dizer que se trata da mesma TV Globo que volta à pauta por conta da sonegação fiscal e queda de audiência.

Se as esquerdas médias hoje se deslumbram com Paulo César Araújo com suas pregações em prol do brega, as de 50 anos atrás se divertiam com um livro do húngaro naturalizado brasileiro Peter Kellemen, Brasil para Principiantes, cujo sucesso se deu até seu autor ser desmascarado depois como um pilantra que fazia golpes com uma falsa loteria.

Era o ano do primeiro LP dos Beatles, da ascensão de Brigitte Bardot, do auge da Bossa Nova, da ressaca das comemorações pelo bicampeonato de futebol do ano anterior, da transição do cenário da música jovem brasileira da geração "Estúpido Cupido" e "Broto Legal" para os primeiros preparativos para a Jovem Guarda batizada na década seguinte, com Sérgio Murilo deixando passar a "coroa" para o capixaba Roberto Carlos.

Nas esquerdas, havia a atuação intelectual do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e do CPC da UNE (Centro Popular de Culturada União Nacional dos Estudantes) que discutiam a cultura brasileira como um processo de trabalhar o crescimento social das classes populares, num tempo em que o controle das elites midiáticas pela "cultura de massa" era incipiente.

Ídolos bregas - não com esse nome, e mal a palavra "cafona" começava a ser difundida a partir dos textos de Carlos Imperial - já haviam, como Orlando "Tenho Ciúme de Tudo" Dias e Waldick Soriano, mas eles não exerciam supremacia. E ninguém os promovia como se fosse "ativismo libertário" nem "arte superior", não haviam tais pretensões no Brasil de 1963.

Não havia MST, mas as Ligas Camponesas. Se hoje temos PT e PSDB, antes o "B" estava em posição inversa, com o PTB e PSD polarizando a política, respectivamente, em centro-esquerda moderada e em centro-direita modernizada. O PTB e o PSD existem atualmente, mas não são a sombra do que foram nos tempos de Jango e Juscelino Kubitschek.

As forças progressistas acirravam os debates e as pressões pelo cumprimento das reformas de base prometidos por Jango assim que recuperou o direito de governar. Ele havia sido empossado, depois de ameaçado de perder o cargo, devido à mobilização pela legalidade constitucional, liderada pelo cunhado Leonel Brizola, mas sob a condição de governo parlamentarista, opção derrubada pelo plebiscito do começo de 1963.

Nesse período, Paulo Freire difundia seu Movimento de Cultura Popular com um método de ensino que, além de ensinar as pessoas a ler e a escrever bem, estimulava a compreensão crítica de sua própria realidade e de bandeja ainda ensinava a fazer jornalismo alternativo. Enquanto isso, os CPCs debatiam os rumos da cultura brasileira através do resgate das manifestações artísticas de raiz.

De repente, entre as desavenças entre direita e esquerda, surge numa revolta de marinheiros por reivindicações inegavelmente justas - como um sargento poder ser eleito para o Poder Legislativo - uma figura estranha de um jovem sargento de 22 anos, José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo. A revolta ocorreu somente em março de 1964, mas foi condicionada pelo contexto do ano anterior.

Com aparência que lembrava mais um típico integrante de banda de rock daquela época, o Cabo Anselmo (cuja aparência hoje lembra um Jerry Garcia mais complexado) se apresentava como porta-voz dos pracinhas e, dizendo-se esquerdista, evocava as reivindicações de seus colegas.

Os generais que já se incomodavam com o presidente João Goulart prometendo reformas sociais que comprometiam os privilégios das classes dominantes também se sentiram perturbados com a manifestação de Anselmo, que havia rompido com a hierarquia militar já que pracinhas não poderiam ter o mesmo poder de decisão dos oficiais.

Cabo Anselmo surgiu para desestabilizar o debate de então, e causou mais reboliço do que poderiam causar figuras como Francisco Julião, das Ligas Camponesas. E aparentemente Cabo Anselmo parecia uma figura libertária, carismática, tanto que João Goulart, depois que decidiu prender os revoltosos, os anistiou, o que enfureceu os oficiais que passaram a se mobilizar pelo golpe que o derrubou.

E hoje, 50 anos depois? Houve uma onda de manifestações populares de diversos tipos, ideologias e estratos sociais, reivindicando as reformas sociais de hoje, não muito diferentes das de 50 anos atrás - sobretudo a reforma agrária - , embora com uma ênfase maior na questão dos transportes públicos e um destaque ascendente à necessidade de regulação da mídia.

E eis que, de repente, surge um grupo de jornalistas "provocativos" que num ato de marketing "combativo", foi detido pela polícia. Esse grupo tornou-se conhecido como Mídia Ninja, que logo se identificou como grupo associado ao Coletivo Fora do Eixo, comandado por Pablo Capilé.

Com o episódio, a exemplo da Revolta dos Marinheiros de 1964, a discussão foi desestabilizada e, de repente, os movimentos sociais se reduziram à grife do Coletivo Fora do Eixo. Como no caso Cabo Anselmo, questões importantes ligadas às reformas sociais foram deixadas em segundo plano, com a preocupação de se discutir a reputação de determinadas figuras controversas.

O caso Cabo Anselmo teve um desfecho ruim. Anselmo se assumiu agente da CIA e denunciou vários colegas e até uma ex-namorada para a repressão militar. Ele disse numa entrevista que havia "cansado de ser comunista" e "não gostava dos excessos das guerrilhas", mas no fundo seu esquerdismo sempre foi uma fraude, desde o começo.

Já o Coletivo Fora do Eixo, embora oficialmente seja apenas um grupo "independente" financiado pelo PT, demonstra ser adepto das ideias da Soros Open Society, empresa do magnata e especulador financeiro George Soros, como comprova a campanha dos integrantes do Instituto Overmundo, principal braço acadêmico do FdE, pela divulgação do "negócio aberto" defendido por Soros.

Embora haja a empolgação um tanto romântica das esquerdas em relação ao Coletivo Fora do Eixo, ainda é cedo para sair comemorando e um tanto arriscado atribuir qualquer revolução ou renovação ao FdE e à pessoa de Pablo Capilé. A História dirá depois.

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