sábado, 24 de agosto de 2013

A INTELECTUALIDADE SE ESQUECEU DA CULTURA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Nas pregações da intelectualidade associada aos movimentos sociais e às pesquisas acadêmicas, nota-se um grande erro, gravíssimo para pessoas que se comprometem a se solidarizar com as classes populares e a analisar sua cultura. É que tais pessoas se esqueceram da verdadeira cultura brasileira, mais preocupadas com a "ditabranda do mau gosto".

É de impressionar que, na visão de certos ativistas e intelectuais, que se gabam de estabelecer um contato "orgânico" com as populações das periferias, as favelas só "curtem" hip hop e "funk". Uma visão simplória, e bastante equivocada, e que tenta "folclorizar" uma realidade construída pelos mecanismos da grande mídia.

A grande mídia atinge as periferias não da forma do noticiário político do qual as pessoas geralmente não entendem. Merval Pereira, por exemplo, é pouco atraente na sua aparência de aristocrata dos anos 1920 e muito rebuscado para os padrões médios do "povão". Reinaldo Azevedo, nem se fala, os salões de barbear e as salas de espera dos hospitais públicos evitam ler suas páginas.

Do outro lado da mesma moeda, Luciano Huck não manipula apenas pelos escândalos pessoais ou pelo apoio que dá ao PSDB. Isso, aliás, não é mecanismo de manipulação, é defeito pessoal mesmo. Huck manipula através das mesmas causas defendidas pela mesma intelectualidade que defende o "funk", o brega, o tecnobrega etc.

Temos um patrimônio cultural brasileiro muito melhor do que as coisas rasteiras que simbolizam o sucesso fácil e a supremacia do "mau gosto popular". Sambas, modinhas, baiões, xaxados, maxixes, cocos, lundus, jongos, catiras e muitos outros ritmos que hoje, praticamente, foram privatizados pela intelectualidade ideologicamente formada na Era FHC.

De repente, a antiga MPB só é lembrada para a intelectualidade buscar algum vínculo nobre à supremacia do "mau gosto", ou para que a intelectualidade que defende a mediocrização cultural nos faça crer que "não discrimina a cultura de qualidade".

PARA INTELECTUAIS, MÍDIA E TECNOLOGIA SÃO "PURAS"

Em espaços como o Farofa-fá, a MPB autêntica aparece só para lembrar de um "tempo lindo que passou". Novos Baianos, Joyce, Sérgio Sampaio, Sérgio Ricardo, Itamar Assumpção, Alceu Valença... Tudo lindo, mas "superado" por gente "de verdade" (sic) como Michel Teló, Gaby Amarantos, Michael Sullivan, Leandro Lehart, Mr. Catra, Zezé di Camargo, Calcinha Preta e por aí vai.

O povo pobre deixou de ser criador de sua própria cultura e passa a ser consumidor. Enquanto isso, é "estimulado" a "criar", de forma "recriativa" (ou "recreativa"?) referenciais ditados de cima para baixo pelo poder radiofônico, televisivo e fonográfico.

O grande problema é que a intelectualidade chega no "meio" da festa do "mau gosto" popularesco. Não sabe sequer metade do processo que ocorre por trás. Acredita numa "pureza" dos meios de comunicação e da indústria fonográfica que lidam com o brega-popularesco e sua música que suas visões "etnográficas" parecem extraídas de um conto de fadas.

É risível. Sabe-se que os barões da mídia e do mercado fonográfico apoiam abertamente os ídolos bregas, funqueiros e similares. Mas, para o discurso intelectual, é tudo "mídia independente" ou "alternativa", em discurso que encaixa bonitinho em monografias e nas imagens de documentários, mas é vazio de veracidade.

Afinal, são rádios, TVs e gravadoras que expressam o poderio das classes dominantes regionais. E um mercado de entretenimento que é aliado desse esquema. Se creditarmos toda essa indústria de "funk", tecnobrega e similares como "pobre", como é que acontece toda essa tecnologia de ponta de parte de "produtores" que, em tese, não têm dinheiro para adquirir um sítio?

E A MÚSICA DE QUALIDADE?

A intelectualidade tenta enrolar e iludir a opinião pública achando que vai melhorar o brega-popularesco com mais dinheiro, sobretudo nas verbas estatais e na regulamentação dos investimentos privados, mas isso só mexe no aspecto econômico da coisa.

Maquiar a breguice jogando ídolos brega-popularescos a gravar sucessos da MPB autêntica e maquiar os arranjos não contribuiu até agora para melhorar a cultura brasileira. Pelo contrário, a música de qualidade nunca esteve na alma dos "artistas" bregas e tudo o que eles fizeram é um mimetismo técnico que apenas engana nas aparências.

A música brasileira de qualidade continua ignorada pelo grande público e discriminada pela grande mídia. Quando muito, ela é apreciada pelo "povão" como se fosse música estrangeira. O patrimônio musical do povo brasileiro ainda não lhe pertence. O povo primeiro tem que mostrar o que tem de ruim para tomar emprestado da intelectualidade o patrimônio musical que outrora lhe pertenceu.

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