domingo, 25 de agosto de 2013

A INTELECTUALIDADE E A PEDRA DO SAPATO DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Evidentemente, o "funk" é a última herança da ditadura midiática, defendida de forma desesperada por uma parte influente, mas pouco confiável, da intelectualidade, apesar de muita gente botar a mão no fogo por ela.

E a intelectualidade, em pânico, se inquieta com o alto índice de rejeição que o ritmo sofre que, estrategicamente, deixou de lado a defesa do cenário funqueiro do Rio de Janeiro, bastante visado negativamente pela opinião pública, para fazer a defesa se concentrando no foco do "funk ostentação" que, apesar de confuso e contraditório, soa como se fosse uma "novidade".

 Nos últimos argumentos apresentados pelas esquerdas médias, que tão lacrimosamente defendem o "funk" como se fosse um ritmo "linchado" e "derrotado" pela sociedade - situação bem diferente do que a grande mídia mostra, com os funqueiros triunfantes abraçados aos barões da mídia - , nota-se uma leve mudança estratégica na medida em que as pressões contra o ritmo são muito grandes.

Uma das estratégias foi observada no texto da ativista Jarid Arraes sobre a funqueira Anitta. Antes, havia uma preocupação da intelligentzia em apoiar o "funk" como um todo, até mesmo formas comportadas como o "funk melody". Apenas se estava "autorizado" a falar mal do Latino, até pela imagem sensacionalista a que ele está associado.

Agora, no entanto, se "pode" criticar o "funk melody", até para "fortalecer" o simulacro de debates e polêmicas que atinge o ritmo, e tentar desfazer o vínculo que o "funk" possui na grande mídia, e cuja parceria entre a Globo e o "funk" do Rio de Janeiro "queimou" demais a imagem do estilo, juntamente com a associação a clubes esportivos e outros contextos claramente mais comerciais.

A ligação do "funk" com a grande mídia foi tão forte que seus "militantes" adotaram uma outra estratégia: estar "acima das ideologias". Tentam unir, assim, a contraditória postura da visibilidade midiática com a reputação "progressista", ainda que, nesse discurso, eles esbarrem em pensadores como Francis Fukuyama, que usou esse argumento para justificar o "fim da História".

Isso não impede que manobras de tentar associar o "funk" às esquerdas continuem sendo feitas, como a ênfase da presença do ex-ministro do governo Lula, Juca Ferreira (do grupo hostil ao de Ana de Hollanda e do ECAD, e próximo de Gilberto Gil e do Coletivo Fora do Eixo) numa palestra inaugural sobre "funk" num centro cultural da Vila Cachoeirinha, periferia de São Paulo.

Curiosamente, esse Centro Cultural da Juventude tem o nome da falecida antropóloga Ruth Cardoso, que havia sido esposa, até o fim da vida, do sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi uma das que apadrinharam a carreira acadêmica de Hermano Vianna, um dos propagandistas do "funk".

ARGUMENTOS RACISTAS "POSITIVOS"

O que se observa, no entanto, é que os defensores do "funk" agora usam argumentos "positivamente" racistas para justificar a "importância" do estilo. Como se não bastasse acusar a rejeição do "funk" a um contexto moralista-elitista que só existiu há uns cem anos atrás, agora usam o fato de que o "funk" é rejeitado porque seus intérpretes e fãs são negros.

Isso é um desvio de foco, mas rende uma argumentação engenhosa que arranca aplausos nas plateias. Tanto Jarid Arraes quanto o ex-ministro Juca - que inaugurou um "ciclo de debates" que teve MC Leonardo e o "pesquisador do funk", o professor da USP Danilo Cymrot e o documentarista Montanha - citaram a alegação "racista" que alimenta a propaganda do "funk".

Essa alegação se baseia no mito de que o "funk" seria uma expressão "moderna" da negritude brasileira. O funk autêntico (Tim Maia, Black Rio, Cassiano), sim, podemos dizer que é expressão da negritude. Mas esse som voltado a exaltar o grotesco, não. Além disso, os empresários-DJs não são necessariamente negros, e nem estão preocupados em zelar pela cultura negra brasileira.

Até o "tamborzão" foi feito mais por objetivos turísticos do que culturais. E, além disso, associar o "funk" à negritude pode sugerir um problema, como em muitos na intelectualidade "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa que prega a supremacia do "mau gosto" na cultura brasileira.

Isso porque o "funk" adota uma imagem estereotipada e caricata do povo pobre. Seu princípio maior é a glamourização da pobreza e da miséria. E isso vale desde os MCs do "funk de raiz" até as "mulheres-frutas" com seus sorrisos retardados nas páginas dos jornais "populares". É aquele velho mito da intelectualidade "pequeno-burguesa" de que a "pobreza é linda" e a "ignorância é pura".

A partir dessa perspectiva, o povo negro também é reduzido a uma imagem caricatural trabalhada pelo "funk". Como ocorre, em Salvador, com a imagem de "bobo alegre" e "tarado" no chamado "pagodão" de grupos como Psirico, Parangolé e outros. Isso expressa uma alusão sutil ao racismo, escravizando o negro na imagem produzida por esses ritmos "populares" patrocinados pela grande mídia.

Portanto, soa muito perigoso dizer que a rejeição sofrida pelo "funk" é fruto de racismo. As pessoas que rejeitam o "funk" apreciam artistas negros, de Jimi Hendrix a Roberto Silva, de Bob Marley a Agostinho dos Santos, de Bessie Smith a Jovelina Pérola Negra, de James Brown a Itamar Assumpção. Não há como associar qualquer ação racista nisso.

Por outro lado, a evocação de pretextos raciais para reforçar a propaganda do "funk" pode sugerir um processo de discriminação racial contra o negro, na medida em que ele se torna prisioneiro de sua imagem caricata e grotesca vinculada pela mídia, através do "funk" e outros ritmos similares.

E A REGULAÇÃO DA MÍDIA? - Os riscos da campanha pela democratização dos meios de comunicação ir por água abaixo aumentam na medida em que a causa começa a ser diluída por gente "solidária" que não quer difundir culturas diferentes daquelas já difundidas pela grande mídia.

É aquela turma que apenas quer apenas arrancar os "anéis apertados" da "urubologia" do noticiário político ou do humorismo humilhador. Fora Merval Pereira, fora Marcelo Tas, fora Eliane Cantanhede, mas que continuem as "banheiras do Gugu" apenas alternando com reportagens sobre Educação pública, atividades sindicais e outros projetos de cidadania.

A turma que quer que a regulação da mídia seja uma alternância "menos monótona" de baixaria e cidadania - às vezes com a "provocativa" mistura dos dois - até agora não posicionou-se sobre a relação do "funk" com a regulação midiática, da qual os funqueiros não adotaram um posicionamento oficial.

No discurso eles se dizem a favor, mas não detalham muito a respeito, se limitando a uma postura vaga e genérica. Mas, na prática, eles não podem ser contra os monopólios da mídia que dão visibilidade, espaço e rentabilidade para eles.

A intelectualidade se limita a dizer apenas que os funqueiros dominam as novas tecnologias da informação e são divulgados por rádios "comunitárias", o máximo que podem dizer relacionando "funk" e mídia alternativa. No mais são apenas posturas vagas, porque se existe muita gente defendendo o "funk", as pessoas que o questionam não são poucas.

Daí o "funk" ser a pedra do sapato da intelectualidade que o defende.

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