sábado, 3 de agosto de 2013

A GLAMOURIZAÇÃO DA IGNORÂNCIA


Por Alexandre Figueiredo

Tudo ficou midiatizado. Até as mentes férteis de nossos intelectuais tornaram-se midiáticas, e a bolha de plástico do saber midiático faz com que mesmo os intelectuais mais carregados de metodologia científica sejam tentados a pensar a realidade de acordo com o que absorvem da televisão, do rádio, das revistas e dos jornais.

A intelectualidade desconhece o povo, isso é sabido. A formação de antropólogos, sociólogos, jornalistas culturais, cineastas e hitoriadores, em boa parte, é elitista. Seu contato com as classes populares é superficial. Com formação midiática, através de apenas ver a realidade pela televisão, rádio, revistas e jornais, pensam que nelas o mundo aparece como realmente é.

Daí eles não entendem as questões que realmente estão acerca da cultura popular. Não veem as tensões que existem na "cultura de massa" brega-popularesca, acham que a grande mídia não interfere, que o mercado não atinge, pensam, com seus olhos de Rede Globo e seu raciocínio de Folha de São Paulo, que a "cultura popular", tal como entendem, está virgem e protegida dos mecanismos do poderio midiático.

Com seus conceitos, preconceitos "sem preconceitos" e outros valores elitistas "não-elitistas", os intelectuais glamourizam a ignorância popular. Tudo no seu discurso é lindo: o povo pobre consome os fenômenos popularescos, e a intelectualidade diz que isso é "ativismo". O povo pobre é vulnerável a valores sociais, morais e culturais degradados, a intelectualidade diz que "são outros valores positivos".

Assim, o relativismo ético, tão defendido, até neuroticamente, pela intelectualidade dominante, faz com que o povo pobre fique à margem das reivindicações de mudanças sociais. Ao povo pobre, bastam apenas as melhorias de ordem econômica e institucional, porque aos intelectuais só interessa que o povo pobre consuma mais e não seja reprimido, desde que no entanto suas melhorias não se ampliem para além do "estritamente básico".

A intelectualidade dominante vê o povo pobre como um bando de "bons selvagens", cujo progresso sócio-cultural só deve ser feito quando se enfatiza a ajuda paternalista "não-paternalista" das classes abastadas. Não interessa que a MPB nasça dentro do seio do povo, este que faça música brega e espere enriquecer para "poder fazer MPB" (e o resultado é ruim).

No comportamento, é a mesma coisa. As jovens pobres nascem defendendo valores machistas, se orgulham em trabalhar a imagem de "mulheres-objeto", e o paternalismo "não-paternalista" das mulheres intelectuais é que lhes atribui como "feminismo" e as "orientam" para o "aperfeiçoamento" desse "feminismo primitivo (!)", que as intelectuais definem como "intuitivo".

Há outros exemplos, que mostram que a degradação moral nas classes populares, resultante de processos que incluem a manipulação midiática e a crise na educação, entre outras coisas, é "positivada" pelo discurso intelectual dominante, como se fossem "valores positivos" das periferias, numa dicotomia centro X periferia ou elite X periferia herdada do mestre "renegado" mas seguido por estes intelectuais, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

É aquele papo conhecido: "Eu não gosto disso, eu não defendo isso, mas tenhamos que aceitar, isso é a alegria do pobre, é o direito dele se expressar, é o que ele sabe fazer e o que deixa feliz". Um papo que arranca aplausos de plateias desavisadas, mas que se torna uma grande aberração ideológica, porque por trás dessas palavras "bonitas", existe um surdo e violento sentimento de elitismo social, de deixar que o povo pobre permaneça na sua inferioridade "não-inferior" social.

Empurrar com a barriga o verdadeiro problema que está no dito "mau gosto popular", que é inferior até mesmo às atribuições, antes injustas, de "mau gosto" cultural, não resolve o problema da cultura popular. Pelo contrário, alimenta as vaidades intelectuais em torno do consentimento do que "está aí" nas rádios e TVs.

Daí a injustiça. Glamouriza-se a ignorância popular, achando que o povo está vinculado a tudo que é ruim na sociedade. A intelectualidade badalada julga que a ignorância a que se sujeita o povo pobre pelas tensões sociais em curso é "sua inteligência", um "modo diferente de sabedoria". Agindo assim, a intelectualidade assume na prática um paternalismo que renega no discurso.

"Positiva-se" apenas essa constatação da ignorância popular, alegando, com certa hipocrisia, que "o que é ruim para nós, é bom para o povo". Aceitar tudo isso é o pior dos elitismos. Não há como alguém que pensa assim se dizer "anti-elitista".

Seu elitismo "anti-elitista" chega a ser tão ruim quanto o elitismo da sociedade rica mais preconceituosa. E, num certo sentido, até pior: o elitismo da intelectualidade dominante é ainda mais enrustido.

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