terça-feira, 2 de julho de 2013

PROTESTOS AVANÇAM CONTRA REDE GLOBO

 
Por Alexandre Figueiredo

É evidente que a Rede Globo está na pauta dos protestos populares que acontecem há cerca de um mês. A ditadura midiática simbolizada pelo principal veículo das Organizações Globo é conhecida desde quando a Rede Globo ainda estava no papel.

Ironicamente, a Rede Globo de Televisão surgiu de uma concessão de 1957, durante o governo de Juscelino Kubitschek, feita para a Rádio Globo do Rio de Janeiro. Detalhe da ironia: JK estava viajando e o presidente em exercício era ninguém menos que João Goulart, o vice, o mesmo que as Organizações Globo lutaram em derrubá-lo da presidência em 1964.

A Globo havia surgido de uma transação ilegal com a Time-Life, que financiou a instalação da emissora, a partir de 1962, o que fez a TV Globo do Rio de Janeiro ser inaugurada três anos depois, num prazo relativamente curto.

Outra ironia: a TV Globo carioca não tinha programação definida e era a mais fraca em audiência na televisão da Guanabara. Eram tempos em que as gigantes da televisão brasileira eram a TV Record / TV Rio, que formavam as Emissoras Unidas (ou "emissoras nem sempre unidas", já que a parceria era quebrada várias vezes), a progressista TV Excelsior e a poderosa TV Tupi.

No entanto, Roberto Marinho era membro ilustre da direita empresarial, muito querido pelos golpistas da UDN e da ala mais reacionária do PSD, e também amigo do capital estrangeiro. A Globo acabou sendo politica e economicamente ajudada, enquanto a TV Excelsior era "estrangulada" pela ditadura, que só por implicância cobrava dívidas pesadas à emissora de Mário Wallace Simonsen.

Simonsen, empresário da companhia aérea Panair, era também um grande produtor de café, mas apesar de muito rico era altruísta - da mesma forma que o grande fazendeiro João Goulart, de igual perfil progressista - , e administrava muito bem a TV Excelsior. Tinha executivos habilidosos, como Álvaro de Moya, que transformaram a Excelsior numa das mais criativas emissoras de TV do país.

Enquanto a Excelsior ia bem, mas se dava mal por motivos ideológicos - Simonsen se suicidaria pouco depois, em 1965, vendo a Panair e a Excelsior "estranguladas" pela ditadura - , a Rede Globo iniciava sua ascensão e adquiriria várias emissoras de rádio e TV das Organizações Victor Costa, entre elas a TV Paulista, histórica emissora de televisão surgida em 1952, que virou TV Globo SP.

A grande esperteza que fez a Globo crescer é quando, no começo dos anos 70, com a TV Excelsior já extinta pelo golpe mortal do AI-5, a emissora resolveu assimilar o estilo de programação da finada emissora, só eliminando os aspectos progressistas daquela.

A Globo começou sofisticada, mas ultimamente aderiu de vez ao popularesco. É claro que emissoras concorrentes como Record, Bandeirantes e a decadente Tupi trabalharam, nos anos 70, na bregalização da cultura popular, enquanto a Globo adotava um padrão mais requintado. No entanto, a redemocratização fez a Globo apostar na sua visão deturpada de "cultura popular".

Enquanto fazia um jornalismo que apostava em valores conservadores e no direitismo político mais convicto, a Globo mergulhava na bregalização light, a partir da máquina de fazer dinheiro do conservador Michael Sullivan, que as esquerdas médias se esqueceram do poderio que ele exerceu na música brasileira, comparável ao que Ali Kamel faz hoje no jornalismo "global".

A Globo adotou a campanha que a Folha de São Paulo e a Veja já faziam por Fernando Collor, transformando-o no presidente eleito através de uma propaganda grosseira que envolveu até mesmo manipulação de imagem favorável ao indigesto e (até hoje) medíocre político alagoano (mas nascido no Rio de Janeiro).

Enquanto isso, a mesma Globo tentava "embelezar" os neo-bregas surgidos ou popularizados na Era Collor - como "sertanejos" e "pagodeiros românticos" - , fazendo-os à imagem de uma pseudo-MPB engomada, arrumadinha e asséptica, artisticamente estéril. Isso quando buscava o apoio entusiasmado ao então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Aliás, o pupilo de FHC, o antropólogo Hermano Vianna, foi ajudar a Globo a promover uma "imagem socializante" do "funk carioca", ritmo que entusiasma os irmãos Marinho - herdeiros do "doutor" Roberto - por desenvolver uma visão caricata e estereotipada de povo pobre.

O "funk carioca" tinha o elemento publicitário certeiro para seu casamento feliz com as Organizações Globo, união nem sempre admitida por setores da opinião pública. O "funk" cria um arremedo de "rebeldia", "incomodando" sem realmente incomodar, desviando o foco do debate público em torno de problemas mais importantes relacionados às classes populares.

A Globo ainda botou Merval Pereira para ser "imortal" da Academia Brasileira de Letras mesmo publicando apenas coletâneas de artigos. E fez Luciano Huck manipular a juventude com sua gíria "balada". Se ele cobrasse direitos autorais pelo uso desta gíria, seria muito mais rico do que Eike Batista. O mesmo caso com Fausto Silva e a gíria "galera".

Tentando frear o progressismo político e domesticar a cultura popular, com o apoio de Huck, Faustão, Ana Maria Braga, Xuxa e outros e pelo proselitismo ficcional das novelas, a Globo hoje não tem o poder hegemônico de antes.

O Jornal Nacional não tem a mesma audiência nem o poder formador de opinião de antes, seus programas também não conseguem ter o mesmo sucesso de outrora e mesmo ídolos popularescos emergentes, como MC Naldo Benny e Thiaguinho, não conseguem ter o sucesso estrondoso que a Globo, há 15 anos atrás, fazia com os neo-bregas de 1990.

Amanhã, na sede da TV Globo do Rio de Janeiro, no Jardim Botânico, às 18 horas, haverá uma manifestação de protesto contra a emissora, que no começo chegou a enfatizar os vandalismos para desmoralizar os protestos populares, mas depois recuou.

No entanto, o povo não é bobo e quem estiver disponível pode ir até a Rua Von Martius fazer seu protesto, aproveitando a onda de manifestações que acontece no país.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...