quarta-feira, 31 de julho de 2013

POVO POBRE NÃO PODE FAZER MÚSICA?


Por Alexandre Figueiredo

A população pobre é refém do "funk carioca". E a intelectualidade não cansa de bater na tecla que o "funk" é o único caminho considerado por ela para a emancipação condicionada - e limitada - das classes populares.

Insistindo na supremacia do "mau gosto" como suposta causa libertária, a intelectualidade vinda dos porões da etnografia de plástico da Rede Globo, do modernismo de butique da Folha de São Paulo e da sociologia cultural do PSDB, tenta convencer as esquerdas a aceitar o "funk" como "legítima expressão de lazer e arte das classes populares".

Enquanto isso, jovens querem aprender música de verdade e não podem. Quando conseguem, são considerados "burgueses", "abandonaram" suas origens. A visão intelectual dominante, que tenta a todo custo dominar e seduzir as forças progressistas, tenta transformar a cultura das classes populares num esgoto ao qual as pessoas mais esclarecidas são "convidadas" a relativizá-lo e "positivá-lo".

O discurso pró-funqueiro da intelectualidade dominante, que não foge ao contexto e aos mecanismos da ditadura midiática, impede que as classes populares caminhem por conta própria, sendo obrigadas a restringir suas expressões ao quase monopólio do "funk carioca" e outros ritmos "polêmicos" que os barões da mídia e do mercado "reservam" para o povo pobre.

Em outra oportunidade, detalharei a fabricação de consenso que os empresários-DJs de "funk carioca" trabalharam para "folclorizar" o ritmo, favorecendo ainda mais seus interesses comerciais mascarados por esse discurso pseudo-ativista. Sabe-se que a juventude torna-se escrava desse ritmo e não pode mais ir adiante em sua cultura.

Enquanto o discurso choroso do "funk carioca" em busca de "seus espaços na sociedade" - na verdade, outros espaços e outras reservas de mercado, como reza a cartilha capitalista - prevalece até mesmo no imaginário de turistas e acadêmicos que acreditam que dele se virá uma cultura "rica e instigante", os pobres se sentem tolhidos e bitolados num amontoado de ruídos, palavreados e baixarias.

Os pobres são proibidos de tocar violão, aprender canto, aprender composição. A intelectualidade dominante acha lindo o jovem pobre se limitar ao microfone do "funk", ao mero rabiscar de letras funqueiras, mas isso é pura limitação artística para abaixo do medíocre. Para as favas essas apologias ao "mau gosto" que só prejudicam a evolução pessoal do povo pobre.

Afinal, a não ser pelo dirigismo estético do "pagode romântico" ou pelas "linhas de montagem" determinadas por rádios locais e pela TV aberta, onde se permite até aprender canto lírico e violão clássico desde que seja a serviço da pseudo-MPB mais brega, o jovem pobre é proibido aprender canto e instrumento musical.

O povo pobre não pode ser músico de verdade. A intelectualidade dominante, dotada do privilégio do prestígio midiático e da visibilidade, não deixa. Para ela, é bonito o pobre ficar na sua ignorância, na sua mediocridade, na sua imoralidade.

Tudo isso é diversão para acadêmicos e jornalistas que criam teses delirantes a favor de tudo isso, é assunto para seu sensacionalismo politicamente correto, com seus arremedos de História das Mentalidades, New Journalism e pós-Tropicalismo em documentários, reportagens, monografias, artigos e livros badalados, mas que a posteridade os sepulta nos mofos dos almoxarifados e arquivos.

A intelectualidade dominante tirou do povo pobre sua própria herança musical, dos tempos em que o bom violão era considerado "instrumento de malandro". Mas o violão se consolidou um instrumento de linguagem rica, que nenhum sampler de DJ funqueiro ou nenhum sintetizador de "funk melody" conseguem copiar, na sua beleza, na sua vibração, na sua energia.

Mas mesmo o violão transformado em máquina industrial do "pagode romântico" e do "sertanejo" não resolvem o problema. Até porque, nesses casos, o povo pobre também é proibido de fazer boa música, porque tudo é calculado, até as notas musicais mais "belas" são frutos de uma linha de montagem cujo padrão é previamente estabelecido por "especialistas" na indústria do entretenimento.

A espontaneidade popular, que gerou uma cultura riquíssima de ritmos musicais genuínos e valores sociais transmitidos comunitariamente, e não pelo processo vertical da mídia "popular" - mas controlada por grupos oligárquicos regionais ou nacionais - , foi banida pelo brega-popularesco e sua máquina de fazer sucessos que nada tem a ver com cultura de verdade.

Enquanto existe a ditadura midiática, garantida pela vista grossa de uma intelectualidade vigilante, o povo pobre não será sujeito ativo de sua própria cultura. Através de ritmos como o "funk", o povo pobre só é "sujeito" no discurso publicitário dissolvido "cientificamente" por intelectuais sob aplausos dos barões da mídia.

No entanto, é nesse contexto que o povo pobre se limita a ser objeto desse processo de "cultura de massa", manipulado nos seus desejos, anseios e crenças, reduzido a uma caricatura quase imperceptível numa nação midiatizada como o Brasil. Mas é uma caricatura cujo desenho mostra traços assustadores de domesticação social.

O povo pobre é escravizado por essa "cultura" brega que tem no "funk" seu exemplo mais extremo. E a intelectualidade que apoia essa "cultura" pode até gostar de pobreza. Mas, no fundo, ela não gosta de pobre, pois seu discurso "positivo" nada faz e nada quer fazer para superar a verdadeira pobreza cultural.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...