sábado, 27 de julho de 2013

POR QUE A INTELECTUALIDADE AINDA NÃO CONHECE O POVO?

AS ESQUERDAS MÉDIAS APOIAM A REFORMA AGRÁRIA (NA FOTO, UMA PASSEATA DO MST), MAS POUCO VÃO ALÉM DE PAUTAS SINDICAIS E INSTITUCIONAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Por que nossos intelectuais ainda desconhecem as classes populares? Por que as elites pensantes, mesmo aquelas que pesquisam a cultura popular, ainda não conseguem ver, da forma mais realista possível, a natureza autêntica da cultura popular e o cotidiano das classes pobres?

Descontando pretensões e declarações um tanto demagógicas e outro tanto envergonhadas - uma forma hábil de dizer "sim" é dizer "não", pelos sentidos ocultos que isso apresenta e que contradizem meras palavras ditas - , o que vemos é essa postura de antropólogos, sociólogos, jornalistas em geral, historiadores, ativistas sociais e cineastas, que, independente do plano ideológico, só agora começam a conhecer e a entender (e, ainda por cima, mal) o povo pobre.

Sabemos que na maioria esses intelectuais se dividem em parte numa esquerda hesitante, tímida e pouco perseverante na compreensão crítica do mundo, e que mal começa a compreender a realidade das classes excluídas para além da agenda das lutas sindicais e da violência que atinge sobretudo a juventude negra e pobre. Além dela, e até aproveitando o esquerdismo ainda iniciante e tímido da outra, vemos pseudo-esquerdistas que se promovem às custas dos pretextos do "popular".

As esquerdas médias acabam sendo seduzidas pelas pseudo-esquerdas, e estas aproveitaram o desgaste do governo Fernando Henrique Cardoso, depois de episódios como a tragédia da plataforma P-36 da Petrobras e o racionamento da energia elétrica, para renegar a herança original. Intelectuais que se formaram através das ideias de FHC e dos valores difundidos pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo usaram a vitória eleitoral de Lula para desenvolver seu pseudo-esquerdismo.

Isso acaba corrompendo a visão progressista sobre cultura popular, porque ela é hegemonicamente afetada pela supremacia do pensamento elitista, não aquele que rejeita surdamente as classes populares, mas o "bom" elitismo, o "bom" paternalismo que aposta na domesticação, pela mídia e pelo mercado "populares", das populações pobres.

SOCIALISMO INICIANTE

Ao socialismo iniciante das mentes das esquerdas médias, ainda presas a pautas sindicalistas e institucionais, se intervieram visões neoliberais de pseudo-esquerdistas que juntavam, num só balaio, análises da Teoria da Dependência de FHC com conceitos do pós-Tropicalismo e "recheados" do "fim da História" de Francis Fukuyama. Tudo coberto de um verniz falsamente "libertário" e "ativista", um esquerdismo vermelho tipo tinta guache, que desmancha em pouco tempo.

Mas por que as esquerdas médias se deixaram seduzir pelos falsos dissidentes do tucanato, de jornalistas culturais adestrados (ou amestrados) por Otávio Frias Filho, cientistas sociais influenciados por FHC, cineastas documentaristas tomados pela lógica da Globo Filmes, que estavam ali vendendo seu "peixe" brega, funqueiro, "sertanejo" etc para a mídia esquerdista em grau muito baixo de desconfiômetro?

Simples. As próprias esquerdas médias se inserem num contexto histórico e sócio-cultural no qual eles mesmos não fazem parte das classes populares ou, se fazem, integram já setores associados de alguma forma as elites médias. Portanto, eles podem não serem as elites burguesas que defendem os privilégios sociais, econômicos e culturais de si mesmas, mas também estão longe de fazerem parte do proletariado.

As esquerdas médias possuem uma bagagem cultural que envolve muitas leituras de livros e um gosto musical que transita entre o que há de mais arrojado na MPB, os clássicos do rock autêntico e esquisitices ou sofisticações da música pop em geral. Para localizar o leitor, digamos que seus paradigmas principais sejam Arrigo Barnabé e Sérgio Ricardo, Eric Clapton e Smiths, Regina Spektor e John Mayer.

Evidentemente, as esquerdas médias não chegam a ir a fundo nos subúrbios nem no comércio popular. Quando eu morei em Salvador, fui várias vezes ao bairro do Uruguai, cheguei a andar dentro de uma favela da Boca do Rio e passei uma vez pela feira de São Joaquim. Um intelectual esquerdista médio só percorre tais locais quando são obrigados a fazer pesquisa de campo ou acompanham autoridades, celebridades e ativistas em visitas a esses lugares.

"APOLOGIA AO POPULAR" GARANTE ÁLIBI

Se as esquerdas médias se comportam assim, imagine então os pseudo-esquerdistas, que quando muito só conhecem as classes populares através de contatos com porteiros de prédio, faxineiros, empregadas domésticas, feirantes, peixeiros e caixas de supermercado. Os intelectuais de pseudo-esquerda, que contradizem sua postura "esquerdista" pregando ideias neoliberais mal camufladas pela "apologia ao popular", são dotados ainda de um elitismo mais rígido ainda.

Escondem, em seus pontos de vista "populistas", seu desejo de ver o povo pobre domesticado por uma "cultura popular" tramada pela grande mídia e pelo mercado. Para eles, é melhor um pobre rebolando o "funk" do que fazendo passeatas por justiça social. Os pseudo-esquerdistas usam jargões "esquerdistas" para disfarçar bem seu direitismo antipopular. E ainda chamam Dilma Rousseff de "presidenta"!!

Os intelectuais pseudo-esquerdistas se esforçam o máximo para proteger dessa suposta defesa ao que entendem por "cultura das periferias". Estes possuem o mesmo perfil ideológico de um Ali Kamel, Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede, mas possuem oportunismo suficiente para renegar os mestes e colegas do neoliberalismo ideológico do qual se formaram.

Daí a esperteza deles "rejeitarem" os excessos de seus colegas "urubólogos". Tentam impressionar falando mal do Instituto Millenium (o qual sentem um forte e "sensual" desejo de visitar), dos processos judiciais de Ali Kamel, do reacionarismo da Veja e de figuras como Eliane Cantanhede e Merval Pereira, ou mesmo do humorista Marcelo Madureira. Os intelectuais pseudo-esquerdistas os espinafram sem receio de que serão eles que os acolherão num momento futuro.

VISÃO FRÁGIL

Mas por que as esquerdas médias são tão receptivas ao pensamento "populista" das pseudo-esquerdas intelectuais? Talvez esse desconhecimento da realidade concreta do povo pobre, que toma conta dos esquerdistas médios mesmo com toda a solidariedade - sincera, mas precária - , possa torná-los "presas" fáceis do discurso pseudo-esquerdista de intelectuais em prol da bregalização do país.

Afinal, tanto esquerdistas médios quanto pseudo-esquerdistas não possuem uma visão plenamente realista das classes populares. De formação classe média, possuem os conceitos genéricos de povo e são vulneráveis a determinados preconceitos, sobretudo nos pseudo-esquerdistas de formação neoliberal.

Mas enquanto os esquerdistas médios desconhecem o povo pela sua ignorância natural de classe, os pseudo-esquerdistas, com seu elitismo enrustido, simplesmente ignoram de maneira convicta, embora não assumida. Se irritam quando veem o povo pobre fazendo passeatas, por exemplo, por reforma agrária, mas não podem se posicionar a respeito. Pela conveniência das circunstâncias, intelectuais deste porte precisam manipular o jogo de alianças que mascare suas posições reais.

Assim, eles fazem comentários ligeiramente depreciativos contra seus mestres e colegas de formação ideológica. Por outro lado, precisam se omitir de discordâncias violentas que possuem com esquerdistas como Emir Sader e José Ramos Tinhorão, para não pegar mal, pois os pseudo-esquerdistas precisam fazer proselitismo nas esquerdas para a defesa do brega.

Aproveitando essa visão fácil, os pseudo-esquerdistas tentam inserir falsos consensos em torno de ritmos que a mídia direitista já explora com muito gosto, como o "funk carioca" e o tecnobrega. Por outro lado, os pseudo-esquerdistas precisam neutralizar e enfraquecer o debate de pautas como a regulação da mídia e a reforma agrária, através de uma postura que expressa uma aparente defesa no enunciado, mas um tenebroso desprezo aos detalhes.

Isso faz com que as esquerdas médias, fração hegemônica da intelectualidade progressista, adote posturas que não representam ruptura com o status quo midiático-cultural. Pelo contrário, imaginam que essa "cultura popular" que vem da grande mídia e do mercado são "expressão natural do povo pobre". Criam polêmicas sem necessidade, enquanto os pseudo-esquerdistas, quietos, se dirigem aos cenários da Globo e Folha para comemorar o proselitismo que enfraqueceu os debates sobre cultura brasileira.

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