sexta-feira, 12 de julho de 2013

O SUPOSTO "FUNK ANTI-GLOBO": PARÓDIA OU INCOERÊNCIA?


Por Alexandre Figueiredo

A atual fase dos protestos populares já começa a ter pautas mais específicas ligadas a sindicatos ou então a radicalização das indignações contra o império midiático da Rede Globo. À primeira vista, parecem bem menos ecléticas do que as primeiras passeatas, mas mostram que os protestos são o começo de um longo caminho de manifestações que vêm por aí.

O que chamou a atenção, numa manifestação sindical realizada em São Paulo, é o coro de um grupo de jovens, puxado por uma garota, que adotava um refrão, que dizia: "Pra mídia melhorar / Queremos democratizar /E se a gente se unir /A Rede Globo vai cair, vair cair, vair cair! No chão!".

Pelo vídeo que aparece abaixo, o grupo parece cantarolar o refrão em ritmo de "funk carioca", mas o grupo não deixou claro se é uma paródia ou se agiu em completa incoerência. Afinal, o "funk carioca" é célebre por suas alianças históricas com as Organizações Globo, tendo servido para a corporação dos irmãos Marinho estabelecer sua visão ideológica para a "cultura das periferias".

A ligação do "funk carioca" com os barões da grande mídia é tão certa que o maior astro do ritmo, Mr. Catra, é muito amigo de Luciano Huck, um dos principais astros da Globo. Huck também é um dos maiores divulgadores do ritmo, tanto que a gíria "é o caldeirão", que os funqueiros entendem como "é o máximo", foi inspirada no programa Caldeirão do Huck.

De novelas a inserções em telejornais, as Organizações Globo, em diversos veículos, chegaram mesmo a promover o "funk carioca" como paradigma de "cultura popular", ao mesmo tempo em que, cinicamente, definia as favelas, construções habitacionais improvisadas e precárias, como "arquitetura pós-moderna", promovendo uma paisagem de consumo que nada beneficiava de fato o povo pobre.

LOBÃO REPROVA OS PROTESTOS. MAS AMA O "FUNK" DE PAIXÃO

O roqueiro Lobão, que anda tendo surtos neocon desde quando ainda estava escrevendo o livro Manifesto do Nada na Terra do Nunca, condenou os protestos populares, dizendo que eles "não têm foco" e teme pela "venezuelização" do Brasil.

Espécie de equivalente roqueiro ao jornalista Arnaldo Jabor, Lobão mais parece uma versão uma-pessoa-só do movimento Cansei, com seu conservadorismo de classe abastada temendo perder seus privilégios com as transformações sociais vividas no país.

Mas, para quem acha que "funk carioca" é "movimento libertário", é bom deixar claro que Lobão, que andou atacando tudo e todos, manifesta seu profundo e fiel amor aos funqueiros, e ele andou preferindo o ritmo até mesmo a boa parte do Rock Brasil que ele há tempos atacava.

E que ninguém pense que ele adora apenas o "proibidão", só por causa de seu envolvimento com drogas. Lobão curte o "funk de raiz", e nomes como Tati Quebra-Barraco, Valesca Popozuda e o próprio Mr. Catra. E o "funk", para o "bondoso cordeiro" do poder midiático, é a única coisa que o roqueiro considera como "movimento social válido".

DESAVISADOS?

O que indaga a nós é que os jovens que protestavam contra a Rede Globo o faziam em ritmo de "funk". Não se deixou claro se os jovens compartilham da visão delirante e completamente sem fundamento que o "funk carioca" ainda está "fora da mídia" ou se eles fizeram uma paródia.

Neste último caso, eles estariam fazendo a estratégia do "inimigo", usando de um ritmo tão badalado pela emissora carioca para, num processo de "exorcização" ideológica, rogar a decadência do célebre império midiático.

Mas no caso deles tiverem usado um "funk" como expressão "libertária" do poder midiático, eles, desavisados, estariam cometendo uma incoerência, pois o "funk carioca" não defende a regulação da mídia e se sente muito feliz com as parcerias com a Globo. Hermano Vianna, o intelectual que mais milita em prol dos funqueiros, trabalha na Rede Globo e escreve para O Globo.

Até mesmo a APAFUNK (Associação de Profissionais e Amigos do Funk) nada seria se não fosse o filme Tropa de Elite, de José Padilha, por sinal membro do nebuloso Instituto Millenium. E, não fosse José Padilha, MC Leonardo não estaria fazendo palestras por aí, tendo permanecido no limbo. E MC Leonardo escreve para o jornal Expresso, o tabloide popularesco dos Marinho.

E SE FOSSE SÓ UMA BATUCADA?

Mas uma terceira hipótese pode ser plausível a respeito da manifestação. Se tirarmos o propósito de "fazer um funk", o protesto anti-Globo pode ser visto apenas como uma daquelas batucadas que sempre haviam, sem motivo estritamente musical, mas como um gancho para animar os protestos.

Neste sentido, não havia como inserir o "funk carioca" no contexto porque batucadas assim aconteciam até mesmo nos protestos sindicais dos anos 70 e nas passeatas estudantis de 1968. Tendo um tambor, qualquer um lança um refrão, sem parecer funqueiro nem calouro ruim do Chacrinha.

Talvez seja melhor entender que os jovens tenham apenas querido fazer uma batucada. Nada demais. Neste sentido, vale o protesto anti-Globo. Enquanto isso, Luciano Huck já gravou programa com a funqueira Valesca Popozuda, a falsa solteira que a Globo irá jogar contra Ariane Steinköpf, alimentando os factoides das musas siliconadas.

Faz parte. É o caldeirão. Loucura, loucura, loucura. Plim-plim!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...