quinta-feira, 18 de julho de 2013

O EXCESSO DE PRETENSÃO DO "FUNK CARIOCA"

PATRICK MORAZ E DJ MARLBORO - Contextos diferentes, pretensões diferentes, mas um "lobo" em comum.

Por Alexandre Figueiredo

O "funk carioca" se serve de todo tipo de apelação. Vai desde a tentativa de exportação, vide uma coletânea lançada por um obscuro selo britânico de dance music, até as passeatas chorosas em torno do falecimento do funqueiro MC Daleste, que não pedem apenas a condenação do criminoso que o matou, mas acima de tudo o "reconhecimento" do "funk" como uma "cultura séria".

No meio do caminho, vemos a cantora de "funk melody" - versão "família" do ritmo - MC Anitta lançar sucessivos factoides para promover seu sucesso no mais escancarado estilo do hit-parade norte-americano mais comercial, enquanto esperamos se algum intelectual "bacaninha" tentará promovê-la, em delírios discursivos, como ícone "pós-moderno-concretista-libertário-tropicalista".

O "funk carioca" não precisava disso. Ele é um mero ritmo dançante, um pop comercial feito para mero entretenimento, mas apela para o excesso de pretensão, querendo se passar por "arte séria" e "ativismo verdadeiro" cujo discurso chega mesmo a se tornar chato de tão choroso e repetitivo.

Embora esse pretensiosismo do "funk" parecer "libertário" e "artístico" consiga seduzir setores influentes da opinião pública, principalmente atendendo a uma necessidade de elites abastadas disfarçarem seus preconceitos de classe com um demagógico paternalismo com as classes populares, postura expressa pela defesa do "funk", o discurso pouco traz de resultados realmente positivos.

Pelo contrário, o "funk carioca" acaba sucumbindo a uma má reputação devido a esse mesmo pretensiosismo, a essa obsessão em ser visto como "arte e cultura sérias", uma postura que, mesmo em contextos diferentes, fez o rock progressivo cair no ridículo da chacota pública.

PROGRESSIVO

Evidentemente, há uma distância de anos-luz entre a linguagem musical do rock progressivo e a do "funk carioca". E, pessoalmente, eu gosto bastante de rock progressivo. Mas deve-se admitir que o progressivo sucumbiu a excessos e a um pretensiosismo que fez o estilo perder espaço na mídia e no mercado, abrindo o caminho para a simplicidade do punk rock (que também gosto bastante).

O pretensiosismo do rock progressivo em competir com a música erudita e com a fase mais sofisticada do jazz (sobretudo a safra 1950-1961) fez com que suas músicas fossem mais longas, sua linguagem ficasse mais complicada e as audições se tornassem bem mais tediosas.

Um caso ilustrativo envolve o Brasil. O músico suíço Patrick Moraz, que havia sido tecladista do Yes, observava uma banda de músicos brasileiros que ainda se decidia se fazia rock básico da linha Rolling Stones ou rock progressivo nos moldes do Yes.

Este grupo, o Vímana, foi integrado por músicos hoje conhecidos: Richard Davis Court, o Ritchie, vocalista e flautista, Lulu Santos, guitarrista, o baixista Fernando Gama (depois integrante do Boca Livre), o tecladista Luiz Paulo Simas (autor da vinheta "plim-plim" da Rede Globo) e um pós-adolescente chamado João Luiz Woenderbag Filho, conhecido como Lobão, na bateria.

Moraz gostou do talento da banda, que pouco antes de preparar o primeiro LP, de 1977, decidiu encerrar as atividades e virar banda de apoio do músico suíço. Foi um grande erro. Moraz parecia um tirano na imposição de rigor nos ensaios e no aprendizado instrumental, sendo as sessões de estúdio mais uma escola de música com metodologia militar.

Nessa época, o punk rock já havia experimentado o auge, e o pós-punk começava a agitar o underground dos EUA e Reino Unido. E o rock progressivo havia se desgastado muito, e ainda cobrava ingressos caros, e a juventude não queria passar longos anos aprendendo acordes musicais complicados nem pagar muito para ver uma banda fazer um concerto entediante.

Nesse contexto, os ex-músicos do Vímana se irritavam profundamente quando tinham que apostar numa sonoridade datada, enquanto conheciam novidades como a fase "alemã" de David Bowie, os Talking Heads e a new wave novaiorquina. Aos poucos, os músicos abandonaram Patrick Moraz (Lobão ainda lhe tirou a esposa) e este, desolado, preferiu apostar sozinho em seu som.

O OUTRO LADO DO PRETENSIOSISMO

Já no outro lado, o "funk carioca" também padece de seu pretensiosismo, não bastasse o rigor extremo de sua sonoridade, num processo inverso do rock progressivo, mas de um nível autoritário que os defensores do ritmo brega-popularesco têm muito medo de admitir, e até de cogitar.

Ironicamente, o "funk carioca" tem o mesmo apoio entusiasmado do mesmo Lobão que havia tirado a mulher do Patrick Moraz e largado o progressivo de vez. Um Lobão voltado à direita para fazer companhia um tanto incômoda à intelectualidade pseudo-progressista que tenta nos fazer esquecer de que foi formada por ideias neoliberais.

Seu rigor estético e seu purismo sonoro são aspectos que quase ninguém observa no "funk". Mas existem. O "funk carioca" se baseia na rígida estrutura do DJ e do MC, só "evoluiu" de uma batida mecânica (som de bateria eletrônica que mais parecia um "pum" robotizado) para o "tamborzão" (som eletrônico que imita batuques de umbanda) para atender a demandas turísticas.

Só o "funk melody" permite alguma "melodia", e mesmo assim dentro dos limites de uma combinação sonora entre música brega - da linha Odair José e Amado Batista - e os modismos europeus de pop dançante, sobretudo lançados no esquemão mafioso do mercado italiano.

No "funk", é proibido haver instrumentos musicais, o que contraria, e muito, o ritmo original do qual pegou o nome. Pois o funk autêntico, funk sem aspas, era marcado por uma forte ênfase nos arranjos, com ênfase na "cozinha" rítima de baixo elétrico e bateria e dos arranjos orquestrais de apoio. Nomes como Earth Wind & Fire, Barry White e o pioneiro James Brown são ilustrativos do gênero.

No Brasil, nomes como Tim Maia, Cassiano, Hyldon, Banda Black Rio e Sandra de Sá são associados ao funk autêntico, que fez muito sucesso no Brasil de 1970 a 1983. Além deles, nomes como Jorge Ben Jor, Wilson Simonal e a própria Banda Black Rio experimentavam fusões do funk autêntico com o samba carioca.

Já o "funk carioca", conhecido também como "batidão" e "pancadão", surgiu em 1990 deturpando as influências do funk eletrônico de Afrika Bambattaa (que fundia elementos de Kraftwerk, James Brown e hip-hop dos anos 80 num único som) e preferindo a estética do miami bass que havia feito sucesso com o 2-Live Crew, no final da década anterior, e que inspirou o "funk" até no esquema mafioso.

Com isso, o "funk carioca" não apostou em bons cantores e músicos mas num som qualquer nota com MCs sem qualquer tipo de talento vocal. Os primeiros sucessos parodiavam o andamento melódico das cantigas de roda - houve um que se baseou em "Atirei o Pau no Gato" - e essa fase risível hoje é chamada de "funk de raiz" e tida como vertente de "protesto".

O próprio jornalista musical Ricardo Alexandre havia escrito que o "funk carioca" foi loteado pelos "donos do movimento", os chamados empresários-DJs que faziam sucesso e promoveram essa fase, rebaixando a estética artística para facilitar o sucesso comercial.

E aí, depois de tantos modismos, desde 2003 o "funk carioca" tenta ser levado a sério, até demais da conta. A choradeira de intelectuais simpatizantes tenta evitar discussões sobre o "gosto popular", mesmo num país onde o gosto popular é manipulado pela ditadura midiática.

São tantas desculpas, tanto apelo, tudo para evitar que o "funk carioca" seja criticado pelos seus naturais defeitos. Mas preservar o "mau gosto" como se fosse causa "libertária" não resolve, e tudo o que o "funk" fez com essa campanha "socializante" foi tão somente glamourizar a miséria e tornar o povo pobre prisioneiro dos valores duvidosos e dos estereótipos trabalhados pelo "funk carioca".

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