sábado, 20 de julho de 2013

O ESTRANHO CASO DE JOÃO GILBERTO E DANIEL DANTAS, O BANQUEIRO


Por Alexandre Figueiredo

38 anos depois do polêmico "elogio" do cineasta Glauber Rocha ao general Golbery do Couto e Silva, no auge da ditadura militar, outro figurão do triênio 1959-1961 se envolve com outra eminência parda do neoliberalismo sócio-político-econômico.

O músico de Bossa Nova João Gilberto, considerado o maior criador do gênero, se associou ao conterrâneo, o banqueiro baiano Daniel Dantas - do banco Opportunity, célebre com seus negócios ao lado de políticos do PSDB - , para um processo que João move contra a gravadora EMI (companhia inglesa que já se desfaz de seus negócios).

No processo, o dono do Opportunity adiantou um empréstimo ao violonista na ordem de R$ 10 milhões, sob a garantia de que Dantas teria direito a metade do dinheiro da indenização que a falida EMI (cujo espólio hoje é rateado por outras gravadoras; os Beatles, por exemplo, são da Universal Music) terá de pagar ao cantor.

O processo se deu porque a EMI, que se tornou responsável pelos três principais discos do cantor - Chega de saudade (1959), O amor, o sorriso e a flor (1960) e João Gilberto (1961) - havia lançado uma coletânea, O Mito, em 1988, na qual remasterizou os sucessos do cantor, que, exigente na qualidade acústica de sua música, não gostou do resultado.

Além de não ter gostado do som remasterizado, que descaraterizou a precisão acústica do som original - as técnicas de remasterização dos anos 80 ainda davam a um som lançado originalmente em vinil uma qualidade comparável à superficialidade de uma fita cassete - , João não gostou do fato de suas músicas serem lançadas em coletânea, definindo a atitude como uma mutilação de seu trabalho.

A partir de então, iniciou-se uma batalha jurídica que só tornou-se favorável ao cantor em 2012. As esperanças de que os discos gravados pelo antigo selo Odeon, da EMI, passem para a responsabilidade do cantor (e, mais tarde, de seus possíveis herdeiros, já que João hoje tem 82 anos), tornam-se grandes, em tempos de perda da supremacia do ECAD.

Há uma divergência de informações quanto ao valor que deve ser indenizado. Os advogados da EMI afirmam que o valor da indenização é de R$ 1,2 milhão. Os de João Gilberto garantem que o valor é na ordem de R$ 100 milhões. Além de passar metade do valor a ser indenizado a Daniel Dantas, o banqueiro também receberá de volta os R$ 10 milhões investidos no processo.

A empresa de Dantas, a P. I. Participações, irá cuidar das estratégias judiciais e comerciais relacionadas ao processo. Através dessa empresa, advogados atuarão nas ações e acompanharão o andamento do processo, que já se inicia na Justiça.

EMPRESAS E EMPRESAS

Enquanto o recluso e misterioso João Gilberto se envolve justamente com um banqueiro famoso por suas artimanhas político-empresariais, várias delas envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e relatadas por Amaury Ribeiro Jr. no livro Privataria Tucana, a "cultura do povão" se reduz, ela mesma, a um reles empreendimento empresarial.

Esse empreendimento, que envolve desde estilos musicais como o brega "de raiz" (Odair José, Amado Batista etc), o "funk carioca" e o forró-brega, até agenciamento de musas "boazudas", estabelece um paradigma duvidoso de cultura das classes populares, baseado na supremacia do "mau gosto" como única fórmula "viável" para a emancipação econômica das classes populares.

A cultura brasileira torna-se refém do mercado, e tudo que os intelectuais mais badalados fazem é defender a supremacia do "mau gosto" e exigir tão somente mais recursos financeiros para atividades culturais, sejam elas genuínas e bastardas.

Daí, vemos a Bossa Nova - verdadeira vítima de preconceitos partidos de uma intelectualidade "sem preconceitos" que prefere o brega - depender de um empresário conhecido por sua sonegação fiscal, suas politicagens e outras manobras, enquanto o povo pobre consome ídolos musicais que não passam de meras mercadorias de empresários do entretenimento e barões da grande mídia.

E o que dizer de músicos "sertanejos", funqueiros, axézeiros, grupos de forró-brega, estilos "regionais" como arrocha e tchê-music, cujos empresários, patrocinadores e divulgadores, de uma forma ou de outra, também são ligados a Daniel Dantas?

Talvez a intelectualidade pró-brega prefira, em vez de Dantas, gente mais "profissional" como George Soros e os executivos das diversas empresas estadunidenses que cercam a Fundação Ford (quem pensou que a instituição só era ligada a uma companhia automobilística, errou; inclui ela, sim, mas inclui outras corporações), capazes de forjar uma aparente "transparência" e "imparcialidade".

Em todo caso, fica o mistério que é realmente a figura reclusa de João Gilberto. Um artista impecável, sofisticado, admirável, mas uma personalidade difícil de entender. Dizer que João Gilberto se corrompeu é errôneo e simplório. Para recuperar sua propriedade intelectual, o inexplicável João tem razões pessoais de sobra para recorrer a Dantas. Mas, para nós, ele continua sendo difícil de entender.

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