domingo, 28 de julho de 2013

MITO DA "BAIXA CULTURA" É INVENÇÃO DAS ELITES

ETNOCENTRISMO CRUEL: PARA A INTELECTUALIDADE DOMINANTE, A PEDOFILIA NOS "BAILES FUNK" É VALOR "POSITIVO", POR VER NELES A "INICIAÇÃO SEXUAL" DAS JOVENS DAS PERIFERIAS.

Por Alexandre Figueiredo

O grande problema que envolve o conceito de "baixa cultura" não está simplesmente na recusa da cultura das classes populares, mas também na aceitação acrítica e aleatória de tudo que esteja, em tese, associado ao contexto do "popular" e do "pobre", por mais falso que seja.

A intelectualidade dominante cria impasses para si mesma, porque, a título de supostamente reconhecer o valor da cultura popular, prefere defender a "cultura de massa" originária do brega e ramificada em vários derivados - incluindo a "moderna" axé-music e o "polêmico" "funk carioca" - do que a melhoria cultural das classes populares.

Quando se consideram essa necessidade de melhorias, elas sempre acabam associadas mais a um assistencialismo das elites do que a natural melhoria das classes populares. Não são as classes populares que podem melhorar, por si mesmas, seus referenciais culturais, mas é o apoio paternalista de cientistas sociais e críticos culturais que, com os valores etnocêntricos desta gente "sem preconceitos", que faz o povo pobre "melhorar" na forma e não no conteúdo.

PARA INTELECTUALIDADE, DEGRADAÇÃO CULTURAL DAS PERIFERIAS É "VALOR POSITIVO"

Afinal, somos tomados de uma onda de relativismo ético que faz com que a defesa da moralidade verdadeira - que não deve ser confundida com moralismo - se limite às elites "esclarecidas". Quando a imoralidade acontece nas periferias, a intelectualidade dominante consente, julgando serem "valores positivos", "valores do outro" que "devem ser respeitados".

A pedofilia, por exemplo. Se ela se expressa num rapagão de classe abastada e nível universitário, que fotografa meninas de 13 anos de trajes íntimos e poses sensuais, a intelectualidade dominante considera um crime. Mas quando a pedofilia acontece num "baile funk", com o rapagão transando com uma garota tambem de 13 anos em pleno evento, isso é um "valor saudável", porque a menina exerce sua "iniciação sexual" com sua "liberdade (?!) do corpo".

Se há degradação sócio-cultural nas populações pobres, ela é consequência de décadas de problemas de ordem econômica, educacional, cultural e política. Passamos por 21 anos de ditadura militar, cujos efeitos ainda se refletem hoje. Afinal, se desenvolveram oligarquias e elites não só de políticos, latifundiários, jornalistas e juristas, mas também de intelectuais, tecnocratas e "jovens empreendedores" que aprenderam os valores autoritários e corruptos deixados pelos "anos de chumbo".

PERSUASÃO PUBLICITÁRIA

A "baixa cultura" não é para ser aceita, é para ser questionada, analisada. Se a rejeição cega é ruim, a aceitação cega é pior ainda. Afinal, o chamado "gosto popular", um mito alimentado por intelectuais badalados pela grande mídia, na verdade é um processo de manipulação feita pelos estereótipos trabalhados pelo poder midiático.

É o conhecido processo da publicidade. Afinal, a "cultura" brega-popularesca, como toda mercadoria, é lançada sob uma campanha persuasiva, que apela para o povo pobre consumir seus valores e símbolos. Criam-se estereótipos relacionados ao "pobre" e ao "popular", dentro de aspectos que transformem o povo pobre numa plateia a mais passiva e inofensiva possível, além de impulsionada para o consumismo até mesmo acima de suas condições econômicas.

Vende-se um ídolo brega-popularesco, um veículo da mídia popularesca, como se vende um carro. O povo não precisa, mas é induzido a "precisar", a "desejar". O tal "mau gosto" é construído nisso, nesses estereótipos. Portanto, não há como considerar esse "mau gosto" como espontâneo nem muito menos entendê-lo como meio "libertário" de expressão popular.

O "mau gosto" é um subproduto da publicidade, do poder midiático. Ele não surge como ameaça ao poderio midiático, apenas "tira férias" da grande mídia, até para evitar a superexposição de certos modismos. O retorno desses modismos popularescos, respaldado pela maquiagem "etnográfica" de cientistas sociais, jornalistas culturais e até documentaristas, não significa que ele se configura numa força antagônica ao mesmo poder midiático que o promoveu e continua lhe apoiando.

A construção dessa "baixa cultura" é uma maneira de transformar o povo pobre numa multidão inofensiva e tentar confundir a opinião pública através da falsa analogia com tempos de moralismo rigoroso. Em outros tempos, o povo pobre produzia cultura de qualidade, tinha valores sólidos e produzia conhecimentos, mas que apenas escapava a valores aristocráticos que conduziam a sociedade de então.

Portanto, não há como creditar o brega-popularesco como uma "cultura popular" supostamente incompreendida pelas elites moralistas. É outra coisa. Não é uma cultura orgânica, vinda das classes populares, mas uma "cultura" midiática, muitas vezes patrocinada pelo latifúndio, feita para transformar o povo pobre num estereótipo de si mesmo, reduzido a enriquecer o mercado e fortalecer o poder midiático, que usam o rótulo "popular" como mimetismo para suas manobras intrigantes.

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