segunda-feira, 15 de julho de 2013

MÍDIA DISTORCE O SENTIDO DE "BANDA": E A CLASSE DOS MÚSICOS NÃO REAGE?

GRUPO VOCAL JAPONÊS É DEFINIDO ERRONEAMENTE COMO "BANDA" PELO CADERNO CULTURAL DE O GLOBO

Por Alexandre Figueiredo

Existe um cacoete no mainstream da opinião pública que é de deixar que qualquer aberração seja feita pela mídia, quando o contexto é aparentemente cultural. Não existe uma reação maciça e organizada, tal como ocorre no noticiário político quando este veicula visões distorcidas e interpretações incoerentes da realidade.

Ontem, o Segundo Caderno de O Globo publicou uma reportagem, de autoria de Cláudia Sarmento, intitulada "Apego aos CDs faz do Japão um bastião da resistência", e, num dos habituais cacoetes da mídia cultural, definiu o grupo vocal AKB48 como "banda". O grupo é considerado um maiores sucessos do pop japonês.

Vendo o AKB48, em vídeos difundidos em lojas de eletrodomésticos por todo o Brasil, nota-se que no grupo só existem garotas cantando e dançando. Não há uma única integrante instrumentista, e olha que, para ser considerada de fato uma banda, o grupo deveria ter, pelo menos, dois instrumentistas de performance regular.

Esse cacoete de chamar grupos vocais de "bandas", um vício que pega feito epidemia na grande mídia, é herança das FMs de pop dançante, que, tentando tomar emprestado jargões da cultura rock, define de forma generalizada os intérpretes musicais como "bandas", e não "cantores", como era a antiga praxe do pop convencional.

Mas um outro aspecto aparece para denunciar os vícios da grande mídia que vão muito além das "urubologias" políticas ou de erros de redação que os editores deixam passar pelo simples fato de não haver mais profissionais de revisão, o próprio repórter é o redator e o revisor, e o editor só fiscaliza quando o texto jornalístico foge dos limites ideológicos impostos pela linha editorial.

INGLÊS "SUPERAMERICANO"

Lembrando o inglês "superamericano" da linha "the book is on the table", do famoso comercial de um curso de inglês no ar hoje na televisão, o inglês dos jornalistas brasileiros não consegue ver as armadilhas que há em palavras em inglês que, em certas ocasiões, pode soar um cognato com palavras em português, mas em outras ocasiões, não.

É o caso do termo "band". Ele pode significar "banda", como por exemplo se refere aos Beatles, ao Nat King Cole Trio ou mesmo aos Sex Pistols ou até mesmo A-ha e Information Society, mais eletrônicos. Mas pode também significar "bando", no sentido de "grupo", não exatamente uma "banda".

É aí que entra a armadilha. Numa grande mídia incompetente que emprega profissionais que mal sabem a diferença entre "acento" e "assento", chama-se grupos com ou sem instrumentistas de "bandas", sem qualquer critério de discernimento, como quem confunde multidão com gado bovino.

E aí criam-se jargões derivados dessa fantasia de chamar grupos vocais de "bandas". Cantores viraram "músicos", mesmo sem saber sacodir uma caixinha de fósforo. Eles agora não cantam mais ao vivo, mas "tocam". O vocabulário se corrompe, enquanto as editorias culturais deixam passar.

E o pior é que o termo "banda" pode ser atribuído até mesmo a casos como grupos de dezenas de integrantes em que uma pessoa canta e outras dançam ou ficam de braços cruzados diante de uma canção mais lenta. Sem falar de grupos em que o cantor nem sequer canta, mas "vocaliza" ajudado pela tecnologia que robotiza a sua voz, disfarçando seu péssimo talento vocal.

E A CLASSE DOS MÚSICOS?

A classe dos músicos no Brasil, unida para pressionar contra a tirania de Wilson Sândoli, o "tirano" que presidia, desde a ditadura militar, a Ordem dos Músicos do Brasil e havia saído do poder alguns anos atrás, não consegue reagir quando, pela pressão irresponsável da grande mídia, cantores e dançarinos agora têm o mesmo peso ideológico que instrumentistas.

Não é difícil relatar o trabalho árduo que uma pessoa tem ao aprender um instrumento. E a dedicação se torna em vão, quando o músico agora é equiparado ideologicamente àquele "bacaninha" que só canta "um pouquinho" e só "rala" para dançar passos e malabarismos orientados por um coreógrafo.

Grande diferença. Mas numa sociedade midiatizada, televisionada, em que a música reduz-se a um mero gancho para um espetáculo visual ou para factoides marqueteiros, apesar de ser o "prato principal" de um setor de entretenimento, as pessoas perdem o discernimento das coisas.

A classe dos músicos não sabe o caminho perigoso, se consente em ver grupos como Pussycat Dolls e Backstreet Boys - ou novinhos como One Direction e Fifth Harmony - serem chamados de "bandas" ou aceitar que no Brasil tenha-se feito um grupo vocal empresariado por uma agência de modelos, chamado Mega Banda (?!).

No noticiário político, a opinião pública reage de forma maciça quando seus comentaristas tentam defender melhorias na economia brasileira através da desnacionalização da economia e pouco se cuidam se esse processo irá gerar grandes índices de desemprego. As cobranças contra essa abordagem improcedente do jornalismo político tornam-se muitas e fortes.

Mas quando a classe dos músicos é prejudicada por um mercado e uma mídia que, equiparando-os com meros cantores-dançarinos amestrados por empresários e produtores, na verdade desqualifica e deprecia o trabalho dos instrumentistas, não existe uma reação organizada e consistente.

Há quem ache que isso são "novos valores", ou que "não influem" em sua vida. Mas isso faz a diferença num mercado competitivo que envolve ainda questões delicadas de direitos autorais, de indústria cultural etc, que só começam a encontrar soluções agora com as primeiras medidas para diminuir o poder concentrado do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição).

Pois o sacrifício de um instrumentista não pode ser medido por um sacrifício de um dançarino. Se a dança é um processo válido, ela é um outro tipo de expressão. Um dançarino não vira "músico" porque faz performance ao som de uma música.

A pessoa que dança não executa essa música, por isso não é um músico, é um dançarino. E, se ele canta e dança apenas, também não é músico, mas apenas cantor-dançarino. E não há como chamar grupos que só tem cantores-dançarinos de "bandas", por conta dessas razões.

Por isso seria bom que os músicos lutassem contra essa irregularidade da imprensa, que parte de uma má interpretação do idioma inglês, que criou os termos boybands e girlbands para definir grupos (e não bandas) de garotos ou garotas.

Mas, para uma grande imprensa que tropeça no português - o Senhor Cloaca que o diga - , deslizar no inglês parece um erro menor. Só que, neste caso, o erro pode pôr abaixo anos e anos de treinamento de um instrumento musical, porque, segundo a visão caolha da grande imprensa, para "formar uma banda" basta cantar um pouquinho e estar disposto a dançar. Quanta burrice...


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