segunda-feira, 8 de julho de 2013

MC DALESTE E OS PROBLEMAS DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

O assassinato do funqueiro paulistano MC Daleste, durante uma apresentação em Campinas, nos põe a pensar sobre a situação do "funk carioca" e as questões referentes aos valores morais da periferia. A acomodação intelectual que faz com que nossas elites "pensantes" tentem ser complacentes com os problemas sociais vividos nas comunidades pobres é um fator a não ser desprezado com isso.

Daniel Pellegrine, nome de batismo do MC Daleste, tinha 20 anos e começava a se apresentar num festival de festa julina em Campinas, no interior paulista, quando misteriosamente foi baleado na barriga, caindo em seguida. Agonizante, ele não pôde ser socorrido a tempo, morrendo ali no palco.

MC Daleste é um dos representantes do chamado "funk ostentação", tendência do "funk carioca" considerada "queridinha" da intelectualidade dominante e que exporta elementos ideológicos do gangsta rap. Sem a distribuição de contextos sociológicos do "funk carioca" - onde "proibidões", "funks" mais comerciais, outros "de raiz" e o "melody", mais família, são distribuídos para diferentes públicos - , o "funk ostentação" quer ser, de uma só vez, "raiz", comercial e "proibidão".

É evidente que a tragédia de Daleste é lamentável, até pela dor que causa a amigos e familiares. E, portanto, como toda tragédia causada pela violência, não pode e nem deve ficar impune, precisando uma cautelosa investigação criminal, com a mais rigorosa garantia de proteção e sigilo a testemunhas.

No entanto, isso é uma consequência das temáticas próprias do "proibidão" funqueiro. Afinal, as letras muitas vezes são provocações entre gangues, afrontas à polícia, ou abordagens pornográficas levadas às últimas consequências. Isso cria um clima de animosidade e rivalidades que gera consequências criminais.

Por causa dessa "fronteira" entre "proibidões" e "funks cidadãos" ou "alegres", o mercado acaba se dividindo no acolhimento do "funk". De um lado, o crime organizado banca e sustenta os "proibidões", muitas vezes criando "cenas" vinculadas a facções criminais. De outro, o "funk legalizado" que é bancado pela grande mídia, sobretudo as Organizações Globo, e pelo mercado empresarial associado.

SOCIEDADE MIDIATIZADA

Em ambos os casos, a intelectualidade dominante tenta criar mitos que contradizem a verdadeira realidade, bem longe da "realidade das periferias" que seus "pensadores" pregam. Tentam desmentir ou 'relativizar' a existência de "proibidões", achando que a denominação é "preconceituosa" para uma vertente dita "radical" do "funk carioca". E tentam desmentir a participação midiática das vertentes "alegre" e "de raiz" do mesmo ritmo.

Na sociedade midiatizada em que vivemos, questões de "gosto popular" ou de "realidade das periferias" são na verdade discutíveis e duvidosas. Afinal, as periferias, há décadas, vivem uma "realidade" construída por anos de crise na Educação, de miséria, violência, impunidade e, sobretudo, ditadura midiática. A própria noção de "povo" e "cultura popular" oficial não está imune a essa visão meramente midiatizada e mercantilista.

O povo pobre é transformado diariamente pela mídia e pelo mercado como estereótipos e caricaturas nas quais a intelectualidade dominante, em vez de contestar, procura reafirmar e respaldar. Os cientistas sociais, documentaristas, jornalistas culturais mais badalados insistem em promover a apologia à miséria, enquanto classificam como "elitistas" e "preconceituosas" quaisquer tentativas de questionamento dos problemas associados às classes populares.

Pior: as elites intelectuais só reconhecem a possibilidade de melhorar a vida dos pobres depois que estes expressam suas piores qualidades, como uma forma mal-disfarçada da intelligentzia de se autopromover às custas de um suposto assistencialismo acadêmico-ativista.

Primeiro o povo pobre exprime sua ignorância e seu grotesco e depois as elites intelectuais, com um apoio paternalista explícito, mas nunca assumido, lhes "ensinam" uma "cultura melhor" que nunca é própria das periferias, às quais são sempre associadas aos piores valores sócio-culturais, à tirania do "mau gosto", do grotesco, do piegas, do pitoresco e do violento.

Portanto, por trás da tragédia e dos baixos (sem aspas) valores do "funk carioca", existem problemas que vão desde conflitos de classes até a ditadura midiática. O próprio "funk carioca" é mais um subproduto da ditadura midiática e dos problemas de ordem sócio-educativos e econômicos. Portanto, o "funk" pertence muito mais às classes dominantes que oprimem o povo do que ao próprio povo pobre que o consome.

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