segunda-feira, 15 de julho de 2013

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA NÃO PODERIA SER DE ESQUERDA. POR RAZÕES HISTÓRICAS

 
Por Alexandre Figueiredo

Um aspecto que devemos ressaltar é que, quando floresce alguma movimentação de pessoas com interesses em comum, ela não surge no calor da ocasião, mas sua ação é planejada ou floresce dentro de um contexto histórico-social anterior.

No caso da intelectualidade dominante de hoje, que defende a bregalização da cultura popular e a supremacia do "mau gosto" nas classes populares, ela não poderia em momento algum ser vinculada às esquerdas político-acadêmicas.

Essa intelectualidade, evidentemente, se autoproclama "de esquerda" porque se ascendeu na coincidência histórica do governo de Luís Inácio Lula da Silva e pela necessidade de obter verbas estatais para seus projetos de pesquisa ou para eventos diversos. Mas nem por isso essa intelectualidade, que ainda se autocelebra "libertária", pode ser realmente alinhada às esquerdas.

É só observar que o contexto histórico de formação desses intelectuais é bem anterior ao governo Lula. Remete aos anos 90, entre a Era Collor e o auge dos dois governos do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, como contextos de florescimento ideológico desses intelectuais.

São antropólogos, sociólogos, cineastas documentaristas, historiadores, jornalistas culturais e outros, que estabeleceram sua linha de pensamento a partir do contexto cultural do neoliberalismo de FHC e de fatos como o surgimento da Globo Filmes e a Lei Rouanet, lançada na Era Collor e idealizada por um discípulo de FHC.

Alguns desses intelectuais já haviam se ascendido nesse período e até um pouco antes. Vejamos:

1) Hermano Vianna havia lançado uma tese de mestrado (que virou livro) sobre o "funk carioca" em 1987. E olha que o ritmo, naquela época, ainda não havia rompido com a estética artística de James Brown e Afrika Bambataa, que se deu a partir de 1990. Mesmo assim, Hermano sinalizava um pano de fundo neoliberal: orientado por Gilberto Velho, ligado à Ruth Cardoso e FHC, patrocinado pela Fundação Ford, órgão da CIA.

2) Milton Moura e Roberto Albergaria, professores da UFBA, se tornaram mais célebres dentro de um contexto cultural e midiático dominado pelo populismo de caráter conservador de Antônio Carlos Magalhães, na Bahia. O artigo "Esses pagodes inpertinentes..." de Milton Moura, publicado na revista Textos de Cultura e Comunicação em 1996, é um dos textos pioneiros na apologia à "cultura do mau gosto" do brega-popularesco, feito inspirado pelo sucesso do É O Tchan.

3) Paulo César Araújo havia desenvolvido a tese de mestrado sobre a música brega dos anos 70, que também gerou livro, durante o auge do governo FHC (lembremos que o então presidente exercia forte influência nos círculos acadêmicos de então). Tudo indicava que PC Araújo seria o intelectual símbolo do governo José Serra, se este tivesse sido eleito. Também há fortes indícios de que a tese dos bregas, feita para a Unirio, teria sido financiada pela Fundação Ford, órgão da CIA.

4) Pedro Alexandre Sanches, formado na Escola de Comunicação e Artes da USP, se projetou a partir dos anos 90 como jornalista da Folha de São Paulo. O que indica que ele se lançou como jornalista cultural sob o signo do famigerado Projeto Folha, que dava um verniz "moderno" para o conservador periódico dos Frias. Ele ainda era "funcionário-colega" de Otávio Frias Filho quando, nas suas primeiras investidas em prol do brega, entrevistou a funqueira Tati Quebra-Barraco.

E$sses intelectuais se formaram durante a Era FHC e passaram a estabelecer seus pensamentos ideológicos durante essa época. Não poderiam ser vinculados ao esquerdismo que mal havia começado a se ascender (e mal, mediante as limitações conhecidas do PT, por exemplo) na política, porque suas linhas de pensamento são bem anteriores.

Mesmo protegidos pelos pretextos do "popular" e do "pobre", esses intelectuais nem de longe podem ser considerados progressistas e libertários. O que eles defendem é um padrão de "cultura popular" veiculado pela mídia oligárquica, e de todo o mercado a ela associado. Isso fica claro em suas abordagens, por mais que eles tentem desmentir seus vínculos neoliberais.

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