domingo, 7 de julho de 2013

INTELECTUAIS E BARÕES DA MÍDIA NA CIRANDA DO BREGA


Por Alexandre Figueiredo

Este blogue há um bom tempo alerta para a tendência de intelectuais dominantes defenderem a visão cultural do establishment da grande mídia, nos últimos 10 anos. Eles tentam renegar a herança da grande mídia e do neoliberalismo intelectual, mas os valores que eles difundem expressam claramente essa herança.

Recentemente, um jornalista que polemizou comigo num fórum de um portal de notícias havia tentado fazer uma analogia à breguice dominante - no caso ligada ao "funk carioca" - e a eleição de Lula para presidente da República. Grande incoerência. Essa visão que tenta promover a "cultura de massa" brega-popularesca, de natureza conformista e inócua, a uma "rebelião socialista" carece de qualquer tipo de fundamento.

Lula havia sido eleito por um sistema eclético de alianças entre forças relativamente progressistas e a direita "fisiológica" (que havia rompido com o grupo político do PSDB-DEM-PPS) moderadamente conservadora. Pode ser que Lula tenha seus defeitos, mas reconhece-se que ele era bastante inteligente e sagaz, sua eleição tinha muito pouco a ver com o "pobre que chegou lá". Outras qualidades o possibilitaram para isso.

No brega-popularesco, os intérpretes fazem sucesso dentro de um esquema que une jabaculê radiofônico e um engenhoso esquema de publicidade, mas seus ídolos são geralmente ingênuos, submissos e dotados de uma fraca criatividade, e mesmo quando se tornam veteranos são manipulados pelos "ventos" do mercado, mas nunca se evoluem com espontaneidade.

E se percebermos que o "funk carioca" é um ritmo que leva até as últimas consequências toda a mediocrização e imbecilização sócio-cultural promovidas pela "cultura" brega, dentro de seu som que é um amontoado de ruídos e balbuciações e "falações" grosseiras, não há como comparar Lula, com sua bagagem de leituras, vivências e um ativismo sócio-político e sindical, com um funqueiro que só diz baixarias.

A falsa analogia indica que mesmo parte de nossa intelectualidade, seja ela fragilmente progressista (as esquerdas médias), seja ela falsamente progressista (os centro-direitistas infiltrados nas esquerdas), possui uma visão elitista e explicitamente paternalista em relação ao povo pobre, um elitismo que persiste por mais que tais pessoas tentem desvincular-se do que eles entendem como "preconceito" e "elitismo".

AUTOPRECONCEITO

A intelectualidade dominante e seus seguidores juram que "não tem preconceitos" em relação à cultura popular. No entanto, sua visão é altamente preconceituosa, na medida em que não sabem a diferença entre folclore e "cultura de massa", um problema que possui claras raízes sociológicas profundas, que o falso esquerdismo de ocasião não consegue esconder.

Quem prevalece nas visões "desesperadas" sobre a "cultura das periferias" são pessoas de classes abastadas, tidas como "entendedoras" da cultura popular, que, quando relativamente mais velhas (nascidas geralmente entre 1959 e 1976), assistiram à televisão durante a ditadura militar e conheceram os paradigmas da cultura popular transmitidos pela grande mídia no contexto de um país maquiado pelo "milagre brasileiro".

Quando mais jovens, essa visão se torna ainda mais radical, com o agravante de que as gerações mais jovens não vivenciaram os tempos em que, em vez de um Mr. Catra, as periferias geravam pessoas como Jackson do Pandeiro e Cartola, de grandiosíssima criatividade artística e os agrestes, em vez de Calcinha Preta, tinham Luiz Gonzaga e Marinês e Seu Conjunto.

Se são intelectuais, sejam antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas documentaristas e jornalistas culturais, a coisa se complica porque, além da influência da TV dos tempos da ditadura, entre o "positivismo" do "milagre" e as imposições do AI-5, existe a formação ideológica das universidades nos tempos em que havia a supremacia das ideias de Fernando Henrique Cardoso.

Hoje esse pessoal todo renega qualquer vínculo com a Rede Globo, a Folha de São Paulo e o sociólogo que foi presidente da República. Há todo um medo de assumir tais vínculos, um pavor neurótico até, devido à péssima reputação que mídia e política direitistas têm hoje na sociedade.

No entanto, fica aquela coisa de discípulos renegando seus mestres, mas assumindo as lições dos mesmos. Só que essa não representa a ruptura real com o antigo vínculo, antes fosse a reafirmação de um vínculo que não existe formalmente, mas cuja praxe compensa, e muito, a suposta ruptura declarada pelo discípulo.

O que se observa é que gente como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e outros possuem uma formação ideológica claramente vinculada com as ideias de Fernando Henrique Cardoso e com os barões da mídia ligados sobretudo às Organizações Globo e Folha de São Paulo.

Isso é claro. A intelectualidade dominante pensa a cultura popular de maneira mercadológica e midiática, como se sua submissão aos interesses econômicos e midiáticos, ligados ao comércio e à visibilidade entre o grande público, fossem meros "detalhes acidentais".

Essa postura cria falhas grosseiras, como não ver diferença entre um grupo criado por um escritório empresarial, como ocorre no "forró eletrônico", na axé-music e até no "funk carioca", e um artista surgido espontaneamente com sua arte socialmente fundamentada. A própria intelectualidade foi criada no cativeiro midiático, o que lhe dá a impressão de que a mídia é o mundo, sem perceber metade das engrenagens do circulo midiático-mercadológico ocultas pelo rótulo de "popular".

As falhas se baseiam numa ideia "pronta" das elites intelectuais que combinam seus preconceitos de classe com alguma formação politicamente correta trabalhada por um "esquerdismo de ocasião" e algum pragmatismo aparentemente ativista. Essa combinação faz com que eles aceitem tudo que venha sob o rótulo de "pobre" e "popular", vendo a supremacia do "mau gosto" como se fosse uma "causa nobre".

Mas não dá para escapar: tais visões, por mais que hajam alegações do mais "apaixonado" ativismo social, são ligadas a uma visão neoliberal e midiática da cultura popular. Não é o brega-popularesco que foi apropriado pela grande mídia e pelo mercado, mas ele foi gerado dentro dele.

O cativeiro midiático que produziu o brega-popularesco é o mesmo que produziu a intelectualidade que o defende. São pessoas presas na bolha de plástico da mídia e do mercado, que pensam que o mundo gira naturalmente em torno deles, como se nada fosse mercadológico nem midiático. 

Mas a "cultura de massa" se insere em contextos de classes, de poderio midiático, problemática que só mesmo a formação Globo-Folha-FHC de parte da opinião pública dita "progressista" tenta desesperadamente ignorar.

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