quinta-feira, 11 de julho de 2013

HÉLIO JAGUARIBE TAMBÉM INFLUENCIOU A INTELECTUALIDADE DOMINANTE DE HOJE


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende a bregalização do país e a supremacia do "mau gosto" na cultura popular tenta passar uma imagem de "libertária", "polêmica", "socialista", "provocativa" e "revolucionária". No entanto, como este blogue alerta há tempos, seu pano de fundo ideológico reside na ideologia neoliberal em suas diversas expressões.

De Paulo César Araújo a Alice Riff, passando por Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Milton Moura, Denise Garcia, Ronaldo Lemos e tantos outros, a intelectualidade dominante supostamente esquerdista claramente demonstra pontos de vista que encaixariam muito melhor em seminários organizados pelo Instituto Millenium. Isso não é julgamento de valor, é fato.

De Auguste Comte a Fernando Henrique Cardoso, o repertório neoliberal que está por trás dessa intelectualidade pseudo-libertária conta com mais um personagem: o sociólogo Hélio Jaguaribe, ex-integrante do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e um dos fundadores do PSDB, o mesmo partido de FHC, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves.

Hélio Jaguaribe é um dos pensadores do neoliberalismo brasileiro, ao lado de Roberto Campos e do próprio Fernando Henrique Cardoso. Lendo o livro Ideologia da Cultura Brasileira, de Carlos Guilherme Mota, este autor descreve um pouco do perfil do sociólogo definido como "a ideologia sem aspas".

Jaguaribe pregava a supremacia das classes médias - entendidas como socialmente solidárias às classes dominantes - na formação sócio-política do país, e lamentava que tais classes, assim como os dirigentes capitalistas, tivessem perdido a representação política no Estado Novo, por causa de políticas das quais Getúlio Vargas buscava obter o respaldo do proletariado.

O que surpreende na ideologia de Jaguaribe, que também chegou a ser ministro da Ciência e Tecnologia do governo de Fernando Collor, é a sua perspectiva radicalmente estrangeirista da cultura brasileira, acusando as raízes culturais brasileiras de "velhas" e "preconceituosas". Chega a dizer que a tradicional carência de cultura, no Brasil, é um "benefício".

Hélio Jaguaribe prega que cumpre ao Brasil, "apenas, preliminarmente, incorporar o que há de permanente no legado cultural do Ocidente e depois ter a capacidade de trabalhar sobre ele e estabelecer relações vivas entre a cultura ocidental e a realidade brasileira". Apesar de parecer uma argumentação equilibrada, ela se baseia no equívoco de Jaguaribe não admitir raízes culturais no país.

Escreve ele: "No plano da cultura, a falta de raízes a que aludi anteriormente provém desse fato (o país importar ideias da Europa). As velhas gerações não influenciam as novas,porque, estas, como o tinham feito aquelas, vão se abeberar, diretamente, no exterior".

Segundo Hélio Jaguaribe, o Brasil precisa se inspirar nos Estados Unidos e na Europa contemporânea para desenvolver suas novas "futuras possibilidades culturais". Em outras palavras, o sociólogo quer que o Brasil se evolua de fora, dentro de uma visão claramente neoliberal e entreguista, mas servida hoje para a opinião pública sob o sorvete multifacetado do pós-Tropicalismo e do brega.

É evidente que o Brasil pode e deve se dialogar com influências culturais estrangeiras, porque isso é, acima de tudo, um processo social salutar. Mas superestimar esse processo e renegar as raízes culturais brasileiras, longe de ser uma verdadeira defesa do diálogo cultural internacional, é transformá-lo numa subordinação à supremacia sócio-cultural do Brasil aos países ricos.

Essa ideia de que as "velhas gerações não influenciam as novas", nessa constatação dada num tom apologético por Jaguaribe, lembra muito um texto que li do dirigente funqueiro MC Leonardo quando negou o compromisso dos jovens pobres de assumir a herança cultural de seus antepassados. E que também remete à visão de Francis Fukuyama sobre o "fim da História".

Afinal, como Fukuyama pregava, a história da humanidade havia "cumprido o seu fim" e por isso havia encerrado seu ciclo, cabendo à espécie humana agora usufruir dos fenômenos institucionais, sócio-culturais e político-econômicos trazidos pelo neoliberalismo posterior à queda do Muro de Berlim e do Leste Europeu, tidos como "marcos" para o "fim da História" fukuyamiano.

Evidentemente, a tese do "fim da História" se deu uma década antes dos atentados nos EUA em 11 de setembro de 2001 e duas décadas antes das "primaveras árabes" e mesmo dos protestos populares que começam a ocorrer no Brasil, com uma autonomia que assustou até mesmo a intelectualidade "fora do eixo", que esperava a predominância do espetáculo sobre o ativismo social, que não ocorreu.

Quanto a Hélio Jaguaribe, sua passagem pelo ISEB (então um grupo de analistas sócio-políticos e econômicos que abrigava diversas correntes de pensamento) foi encerrada quando, lançando o livro O Nacionalismo na Realidade Brasileira, em 1958, defendeu, entre outras medidas neoliberais, a quebra do monopólio da Petrobrás na exploração de recursos petroquímicos no Brasil.

Isso causou uma controvérsia violenta, sobretudo entre Jaguaribe e o também sociólogo Alberto Guerreiro Ramos, membro da corrente marxista do ISEB. Com a polêmica, Jaguaribe saiu do instituto e Guerreiro Ramos também pulou fora, pouco depois.

Guerreiro era defensor do monopólio da Petrobras e, falecido em 1982, não pôde vivenciar a risível gestão do francês Henri Reichstul na empresa, quando ele ameaçou mudar o nome da abreviatura da Petróleo Brasileiro S/A para "Petrobrax", sob o pretexto de que isso a faria ficar "mais competitiva" no mercado internacional.

Para nossa festiva intelectualidade pró-brega e defensora do "mau gosto" como "causa libertária" (sic) do povo pobre, tanto faz haver Petrobras ou Petrobrax, desde que tenha dinheiro suficiente para financiar o establishment da MPB pós-tropicalista mais inócua e nas carreiras "populares" dos ídolos brega-popularescos, como se o "mau gosto" ficasse melhor com mais dinheiro no bolso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...