quarta-feira, 3 de julho de 2013

GRANDES GRAVADORAS SABOTARAM A MPB

O CANTOR BREGA DANIEL COPIOU A FÓRMULA DE USAR CALIGRAFIA COMO LOGOTIPO DA FASE COMERCIAL DA CANTORA SIMONE.

Por Alexandre Figueiredo

As grandes gravadoras sabotaram a Música Popular Brasileira e capitalizaram em torno do descontentamento acerca do próprio comercialismo que a mesma indústria impôs à MPB autêntica. Em outras palavras, a indústria fonográfica sabotou a MPB, pasteurizando-a para depois destrui-la promovendo a sua desmoralização.

Hoje se confunde o ódio com a fase pasteurizada com o ódio generalizado a tudo o que representar qualidade musical na MPB autêntica. Se nas vésperas da ascensão do Rock Brasil as críticas se direcionaram tão somente aos excessos acadêmico-comerciais dos artistas da MPB autêntica, tanto veteranos quanto os novatos, hoje até a Bossa Nova recebe pedradas de nossa intelligentzia.

Os únicos poupados são os nomes de parte da MPB autêntica que ainda não fizeram sucesso estrondoso ou que possuem alguma relação, direta ou indireta, com a geleia geral do Tropicalismo e do pós-Tropicalismo (inclusive Jovem Guarda e sambalanço), ou com o mainstream televisivo dos anos 70 e 80.

No entanto, a metralhadora giratória da intelectualidade dominante de hoje transformou em "tradição" uma postura circunstancial, a de criticar a MPB na sua fase menos inspirada. Criou-se um círculo vicioso em que, para certos figurões de nossa intelectualidade, tornou-se pecado fazer música brasileira de qualidade, porque ela é "complicada", "academicista" e "impopular".

A intelligentzia de hoje tenta então definir como "música de qualidade" os ídolos da música brega tidos como "expressão de gente simples". Mil pretextos são criados: "poesia simples", "belezas ocultas", "sentimento do povo" e outras aparentes justificativas atribuídas a esta música comercial brasileira (comercial com C maiúsculo como condiz ao brega) produzida nos últimos 50 anos.

Uma das desculpas é que o brega seria a "salvação" para quem não suporta mais a mesmice da MPB. Falam assim como se o brega fosse um "movimento de guerrilha" que se tornou "genial" apenas porque foi vaiado, e sabemos que, para a intelectualidade dominante de hoje, ser vaiado é quase um diploma de "reconhecimento artístico" às avessas, uma visão que é bastante equivocada.

Vendo o andar da carruagem cafona, nota-se que o brega nunca foi injustiçado para valer, e hoje, de veteranos como Odair José até ritmos derivados como o "funk carioca", nunca a música brega foi tão defendida pela grande mídia e pela "boa sociedade". A imagem de "injustiçado" foi fabricada porue certos apologistas superestimaram a campanha que algumas dezenas de críticos faziam contra os ídolos bregas.

O brega sempre foi comercial, foi o hit-parade brasileiro no seu berço de ouro. Sua música é que, de tão medíocre, não sobrevive muito na grande mídia, mas ela nunca boicotou o brega, suspendendo a divulgação de seus ídolos mais pela pressão de quem odeia brega do que pela vontade dos executivos midiáticos.

A indústria fonográfica, depois que pasteurizou a MPB autêntica, tentou requintar o brega, nos anos 80. E o mesmo establishment da MPB cortejava os bregas, e sempre "ensinou" aos bregas as mesmas regras da MPB pasteurizada que depois se tornaram dominantes.

Há o conhecido episódio da contribuição de Lincoln Olivetti e Robson Jorge na pasteurização da MPB, na posterior colaboração de Michael Sullivan e Paulo Massadas na glamourização do brega e na fase comercial de Roberto Carlos, amestrado pela Rede Globo, traçando a ponte entre o brega e a MPB. Juntos, os quatro músicos compuseram "Amor Perfeito", gravada nos anos 80 pelo cantor capixaba.

GRANDE MÍDIA E GRANDES GRAVADORAS QUERIAM "CENA DA MPB" COM NEO-BREGAS

Nos anos 90, a indústria fonográfica, com o apoio da grande mídia, quiseram "lapidar" a imagem dos ídolos neo-bregas que faziam sucesso no começo da referida década, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Belo, Ivete Sangalo e outros, dando um banho de loja e de técnica.

Usam-se os mesmos clichês da fase pasteurizada da MPB. O breganejo Daniel se inspirou na Simone em sua fase comercial para usar uma caligrafia como logotipo. Há as "homenagens" tendenciosas em programas de TV, duetos diversos, seja entre bregas e bregas ou entre bregas e medalhões da MPB. Além disso, as temáticas amorosas, nas mãos dos bregas, ficam mais melosas e piegas ainda.

A intenção é fazê-los parecer, artificialmente, à imagem e semelhança dos medalhões da MPB que fizeram êxodo das grandes gravadoras, indo para selos fonográficos de porte médio. Todo um aparato de pretensa sofisticação foi feito para fazer a geração neo-brega parecer "MPB de verdade".

Só que isso se deu com os burros n'água, afinal eles não tinham a criatividade natural reconhecida nos artistas de MPB. Gravavam covers de MPB, selecionadas entre os clássicos mais conhecidos, para camuflar o fraco repertório autoral que nem com a intervenção de outros arranjadores conseguiu melhorar. Vale lembrar que, na música brega, quase nunca o cantor é arranjador das músicas que interpreta.

A grande mídia, vendo esse fracasso, tenta manter a publicidade desses ídolos, que só são "artistas renomados" para os veículos das Organizações Globo, Grupo Abril, Grupo Folha e o que vier na carona. Se as músicas não conseguem fazer sucesso, a grande mídia tenta inventar factoides. Mas o pedantismo em torno da MPB, mesmo assim, continua, vide Thiaguinho gravando cover de Luciana Mello.

A grande mídia e as grandes gravadoras querem que se crie uma "cena de MPB" com ídolos neo-bregas, para dar uma falsa impressão de sofisticação. Mas isso nem de longe estimula nossa cultura, porque mantém o contraste entre o apelo popular e a falta de espontaneidade, já que essa "sofisticação", além de falsa, é tendenciosa e nada acrescenta senão o atendimento aos interesses comerciais dos envolvidos.

Portanto, isso está mais para "MPB de mentirinha" do que para "verdadeira MPB". E é um processo asséptico, higienista e diluidor, que cria uma "música brasileira" limpinha através da música brega cujos cantores e músicos não possuem uma postura crítica em relação ao mundo em que vivem, sendo mais marionetes do mercado e da grande mídia.

No fim, a música brega, mesmo a mais "arrumadinha", não deixa marca alguma na MPB. Só rende dinheiro com seu comercialismo explícito. Enquanto isso, as pessoas que "não têm preconceito" com o brega possuem um violento preconceito contra a MPB autêntica, que de fato está fora da mídia.

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