sexta-feira, 26 de julho de 2013

"FUNK CARIOCA" E O PARASITISMO SOBRE O ESTADO



TALVEZ O JUIZ JOAQUIM BARBOSA TIVESSE "MAIOR IMUNIDADE" NA OPINIÃO PÚBLICA SE TIVESSE SIDO UM FUNQUEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco, sob o pretexto de defender a "natural (sic) expressão das periferias", sempre encontra pretextos para pedir, das autoridades, o título de "movimento cultural" como forma de atrair verbas públicas num mercado que já é cheio de investimentos privados. O "funk carioca" é um caso ilustrativo disso.

Se autopromovendo às custas da tragédia que abateu o MC Daleste, durante uma apresentação no interior paulista, o lobby do "funk carioca", agora enfatizado na cena paulistana do "funk ostentação", agora tenta arrancar da Prefeitura de São Paulo o status de "movimento cultural" nos moldes do que foi feito com a cena carioca na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), em 2009.

Forçando a barra no pretensiosismo, os funqueiros confundem necessidade de obter segurança para seus eventos e pedir o fim da violência policial com a glamourização do ritmo, que é apenas um mero pop dançante e comercial.

Embora, da parte do prefeito Fernando Haddad, haja a boa intenção de criar um local para "bailes funk" que não cause incômodos à vizinhança, o movimento "Território Funk" exagera no engajamento social, postura que é ainda mais forçada no "funk ostentação" do que no próprio "funk" do Rio de Janeiro, que, pelo menos, sabia separar contextos diferentes para seu pretensiosismo.

No "funk ostentação", as diferenças entre "proibidão" (que exalta a violência), "funk comercial" (mais alegre e com ênfase nas "popozudas") e "funk de raiz" (que adota um arremedo de protesto social) não são muito nítidas. Além disso, os funqueiros tentam garantir sustento estatal nos "bailes funk", através do apelo para o "reconhecimento cultural".

Da mesma forma que o "funk carioca" não precisa forçar a barra nesse suposto engajamento político-social, já que é apenas um ritmo dançante sem maiores compromissos, também não precisa forçar a barra para pedir "reconhecimento", porque o ritmo já conta com um forte lobby na mídia, na política, no mercado e até nos meios acadêmicos.

O "funk carioca" possui uma aparente "imunidade" na opinião pública - apesar das duras críticas que recebe da sociedade, inclusive de muita gente da periferia - de tal forma que imaginamos até se os juízes do Poder Judiciário, como Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e Roberto Gurgel, não poderiam gravar discos de "funk" para "melhorar" um pouco suas imagens para a tão badalada intelligentzia?

Enquanto o "funk carioca" vende uma falsa imagem de "movimento de pobre", cujo conteúdo ideológico, no fundo, apela mais para a glamourização da pobreza do que para pedir melhorias sociais autênticas, seu mercado demonstra ser um dos mais rentáveis do país, comandado por empresários-DJs muitíssimo ricos, que há anos não veem mais a cor da pobreza em suas vidas.

Além disso, a "livre expressão" na verdade é um rigor estético que escraviza os jovens pobres, que não podem aprender a cantar, compor, tocar instrumentos. Eles são prisioneiros da sua própria ignorância, da sua própria pobreza, e enquanto vendem a falsa imagem de "artistas de protesto", enriquecem os bolsos dos DJs que os apadrinham e mandam por trás.

O "funk carioca" cria um arremedo de protesto que só ganha o apoio da intelectualidade porque esta, trancada em seus escritórios e colegiados, precisa disfarçar sua formação elitista por algum tipo de paternalismo, e o apoio ao "funk" é uma forma eficaz das elites disfarçarem seus graves preconceitos sociais.

O "funk" estabelece esse discurso "social" há mais de dez anos e até agora a população pobre não melhorou com o "funk". Seus DJs ficaram mais ricos, se apresentam até para turistas gringos cobrando ingressos mais caros do que muito medalhão do rock, e no entanto até eles, mesmo sendo empresários poderosos, gracejam de tão esnobes quando alguém diz que eles estão muito ricos.

O povo pobre quer ouvir outras coisas. Quer assumir a herança cultural dos antepassados, com seus sambas, maxixes, lundus, jongos etc, mas o "funk" não deixa. As favelas viraram reféns do "funkocentrismo", da supremacia do "funk carioca" como medida de todas as coisas.

A situação é tão séria que agora os funqueiros estão transformando a tragédia de MC Daleste em marketing. Estão menos preocupados em pedir justiça para o crime contra ele do que em pedir "reconhecimento" para o "funk". Querem se autopromover às custas do jovem morto, forçando mais a barra num engajamento que o "funk", mero entretenimento, não tem.

E, para piorar, essa obsessão do "funk ostentação" em obter títulos de "movimento cultural", a exemplo do que ocorreu com o tecnobrega e o "funk" no Rio de Janeiro, é apenas uma manobra parasita para se obter verbas estatais para alimentar o mercado, de forma que não se mexa nas fortunas exorbitantes dos empresários-DJs de "funk" (ou, no caso do tecnobrega, nos de "aparelhagens").

Dessa forma, enquanto o Estado financia e patrocina eventos de "funk" e tecnobrega - ou de outro ritmo brega-popularesco que vier - , as fortunas dos empresários que controlam os "artistas" desses ritmos repousam em seus cofres para o deleite de seus projetos pessoais, como compra de apartamentos de luxo, viagens para o exterior, aquisição de latifúndios etc..

E, com a glamourização política do "funk" e do tecnobrega, tais ritmos se apoiam numa falsa perenidade que só tem serventia para o mercado, mas não para a sociedade. Até porque, com essa "cultura de massa" que só produz sucessos radiofônicos e fetiches midiáticos, não há a verdadeira valorização do conhecimento, tudo é tendencioso, falso e postiço.

Daí que não dá para dar reconhecimento cultural a pretensas expressões que, em boa parte, expressam o interesse empresarial na domesticação das classes populares. E essa domesticação, assim como a apologia à pobreza, tem o "funk carioca" como exemplo mais típico.

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