quarta-feira, 10 de julho de 2013

FERNANDO AZEVEDO: A RAIZ DA 'INTELLIGENTZIA' CULTURAL DE HOJE


Por Alexandre Figueiredo

Que a intelectualidade brasileira foi quase sempre aristocrática, isso é verdade. Mas antigamente, em que pese alguma atitude senhorial e oligárquica, ou mesmo, em certos casos, um "moderno" elitismo urbano, tínhamos grandes intelectuais e pensadores, o que não impede de identificarmos em alguns deles as raízes da intelectualidade viciada dos nossos tempos.

Lendo A Ideologia da Cultura Brasileira, de Carlos Guilherme Mota, que comprei para entender melhor o histórico da ideologia da cultura brasileira - onde havia embates entre visões senhoriais e outras um pouco mais progressistas - feito até 1974, data original do livro (eu adquiri a edição de 1994), notei que a visão aristocrática, ou senhorial, de hoje, possui raízes ainda mais antigas.

Se não é difícil identificarmos, num Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e Ronaldo Lemos, a herança ideológica de Fernando Henrique Cardoso, Roberto Campos e até mesmo de estrangeiros como Francis Fukuyama, indo mais atrás dá para ver quais são as raízes desse pensamento "moderno" que julga "conhecer a fundo" o povo, mas o vê de forma aristocrática.

Deixemos os juramentos chorosos da intelligentzia atual, que juram não transmitir uma visão "elitista" e "glamourizada" das periferias, que juram defender uma "cultura popular mais realista", através de suas monografias, documentários e outros recursos discursivos feitos "no mais absoluto rigor científico" de compreensão do "outro".

Afinal, num dado momento ou em outro, esses intelectuais acabam mostrando seus preconceitos de classe, mesmo sob a capa da "total ausência de preconceitos". Sobretudo se percebermos a comparação deles a intelectuais mais antigos como Gilberto Freyre e o hoje pouco conhecido Fernando de Azevedo.

PAÍS "SEM CONFLITOS"

Evidentemente, Gilberto Freyre é um habilidoso escritor e seus livros possuem de fato uma narrativa envolvente e de leitura prazerosa. Mas seus argumentos exibem um país sem conflitos de classe, onde a casa grande e a senzala vivem numa fictícia harmonia, como se isso resolvesse os problemas das desigualdades sociais e raciais registradas pela História do Brasil.

É esse "país sem conflitos" que norteia, dentro do contexto politicamente correto de hoje, o discurso intelectual dominante. Em seu tempo, Freyre era considerado "progressista", demonstrando-se claramente conservador ao longo dos anos (a ditadura militar chegou a convidá-lo para sua equipe ministerial). Hoje também temos gente "progressista" defendendo a bregalização do país.

A bregalização segue a mesma lógica "casa grande e senzala", só que de forma piorada. Afinal, nos tempos de Freyre, a cultura popular não havia tido o controle extremo do mercado e da mídia que se tem hoje, mesmo quando havia poder oligárquico e a corrupção política e eleitoral nos tempos da República Velha.

Se no discurso de Freyre, senhores de engenho e escravos conviviam com relativa harmonia, hoje os latifundiários, o empresariado associado ao entretenimento e os barões da mídia, no discurso intelectual de hoje, também vivem na mais absoluta paz com a periferia.

É só ver a retórica da "cultura" brega. Uma periferia "feliz" - uma visão de periferia que não a compara com os quilombos, verdadeiras origens dos subúrbios de hoje, mas com as senzalas controladas pelo poder senhorial - onde prostitutas, alcoólatras e camelôs parecem "felizes" na sua "próspera" (?!) miséria onde eles "sabem se virar" de forma "re-criativa" e "autossuficiente".

Os conflitos são anulados. Não há conflitos de classes e isso torna-se claro tanto no discurso de Freyre como nos recentes discursos do "funk carioca" e do tecnobrega. Só no tecnobrega, por exemplo, a intelectualidade criou "dois Parás": um Pará real e sangrento, dos conflitos de terras e da tirania midiática, e o fantasioso "Pará-iso" das "aparelhagens" e da "pobretada próspera e feliz".

Talvez, no sentido de como o Tropicalismo resultou depois de 1973 - quando assinou seu ingresso definitivo ao mainstream e ao establishment, depois do "histórico" dueto de Caetano Veloso com Odair José - , Gilberto Freyre pode ser considerado um "pré-pós-tropicalista", numa brincadeira com as retóricas "neo", "pós", "meta", "pré" e outros trabalhados pelo establishment pós-tropicalista.

Sobre Gilberto Freyre, Carlos Guilherme Mota identifica os elementos ideológicos do escritor, que entram em perfeita consonância com o pensamento que vemos hoje em Vianna, Araújo, Sanches, Lemos e outros: "(...) o exótico passa a ocupar o lugar do antagônico, o futuro ganha o lugar do passado, o Exterior (mitificado) passa a ocupar o lugar do regional".

SABER ARISTOCRÁTICO

Mas o "grosso" da formação intelectual brasileira pode ter sido o hoje esquecido sociólogo Fernando de Azevedo, falecido em 1974, defensor de um "anti-capitalismo de elite" de matizes relativamente humanistas mas não-socialistas.

Tendo sido um dos fundadores da Universidade de São Paulo, Fernando de Azevedo acabou aliando a missão relativamente progressista da instituição e a herança elitista da mesma, já que ela juntou faculdades e escolas que haviam sido financiadas pelos grandes proprietários de terras paulistas.

A USP, sobretudo através da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, seu principal núcleo fundador, não se preocupava em mudar as relacões sociais de produção entre o povo e as elites, mas "qualificar e ilustrar" o povo dentro dos limites institucionais feitos para evitar a participação mais direta das classes populares no processo político-educacional.

Portanto, a "emancipação" do povo seria feita de forma dirigida pelas elites dominantes, mas o próprio fato de que alguns desses "pobres" eram de antigas oligarquias do café mostra aspectos ainda vivos da ideologia elitista paulista.

Hoje essa "emancipação", embora alardeada como a "mais pura valorização da cultura e das tradições (?!) culturais do nosso povo", é refletida no entretenimento brega-popularesco que trouxe para subúrbios e roças de nosso país uma forma distorcida e pasteurizada de "cultura popular" baseada em valores que de modo nenhum ameaçavam as oligarquias detentoras do poder político e econômico.

O pensamento de Fernando de Azevedo criou, assim, uma "tradição" no pensamento uspiano que só era rompido por correntes que não compactuaram com esse processo. Mesmo seus alunos como Florestan Fernandes e Antônio Cândido romperiam com essa visão, constituindo numa geração crítica que, paralelamente aos "liberais", disputaram a hegemonia de visão intelectual na USP e na universidade brasileira como um todo.

O relativo humanismo de intenções elitistas e expresso pelo saber aristocrático apenas era atualizado pela intelectualidade de hoje, que se apropriou do patrimônio cultural popular do passado, como se sambas, baiões, modinhas que enriqueciam as comunidades pobres no passado não mais lhes pertencessem.

Nesse sentido, o saber aristocrático é pior. Os baianos não podem ter afoxé, nem sambas, lundus e outros ritmos originais, mas a diluída e esquizofrênica axé-music e seus subprodutos, os risíveis "pagodão" e arrocha. Os nordestinos em geral não podem ter mais seus baiões, xaxados e maracatus, se contentando com a "colcha-de-retalhos" do "forró-brega" que mistura merengue, country e disco music.

No âmbito do comportamento, os subúrbios apenas devem se povoar de alcoólatras, contrabandistas, prostitutas e cafajestes, cuja imoralidade causa prazer na intelectualidade dominante de hoje, porque é a "moralidade do outro", positivamente exaltada, numa retórica que, de uma forma piorada, mistura ideias de Auguste Comte com Mário e Oswald de Andrade dentro de um verniz "progressista".

A "pedagogia elitista" de Fernando de Azevedo seria herdada pela intelectualidade que hoje exalta o "funk carioca", o tecnobrega e outros ritmos se dá na fórmula de que o povo pobre, ou pelo menos os ídolos que simbolicamente representam o "popular" e o "pobre", primeiro precisa expressar suas baixarias e seu grotesco para depois ser "ajudado" pelas elites a se "progredirem".

Primeiro as "popozudas" exibem suas poses grosseiras para depois serem convidadas a "homenagear" Marilyn Monroe e Leila Diniz. Os jornalistas "brucutus" da imprensa policialesca são depois promovidos a sub-Chacrinhas de um pseudo-tropicalismo caolho. E todo o comportamento caricato do povo pobre no brega é explorado como se fosse um suposto e falso neo-Tropicalismo.

Os ídolos musicais do brega brincam de "fazer MPB" gravando covers de seus clássicos e recorrendo a outros arranjadores para "embelezar" seus repertórios sofríveis, no esforço de imitarem medalhões consagrados ou nomes dos quais buscam algum vínculo tendencioso de imagem, como Renato Teixeira e Wilson Simonal.

Com isso, a intelectualidade dominante de hoje, tida como "sem preconceitos", expressa na verdade uma visão elitista cruel, piorando até mesmo os discretos elitismos de Gilberto Freyre e Fernando de Azevedo. Isso porque, para os intelectuais de hoje, a cultura popular do passado não pertence mais ao povo, proibido de ter a herança de seus próprios ancestrais.

Para a intelectualidade dominante, o povo pobre só tem como "seu" a "cultura de massa" veiculada, sob o rótulo de "popular" e "pobre", pela mídia oligárquica e por seu mercado de entretenimento associado.

Nesse processo ideológico, o povo pobre só poderá recuperar a sua cultura depois de fazer sucesso com tantas baixarias e grosserias, primeiro se comportando como bandos de patetas para depois, socorridos pela intelectualidade, parecerem "mais sofisticados".

Nesse processo, as elites é que reafirmam sua supremacia, nem que seja apenas através de expressões "singelas" como os documentários sobre "funk carioca". A intelectualidade dominante prega o "bom elitismo" exaltando os "bons selvagens" da sua visão etnocêntrica do povo pobre. "Sem preconceitos", os intelectuais badalados do Brasil se mostram bastante preconceituosos.

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