quarta-feira, 17 de julho de 2013

E A HERANÇA "CULTURAL" DA REDE GLOBO?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade teleguiada pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo, mas jura com lágrimas derramando que é "progressista", deu o tom da manobra. Quando se discute o poder midiático em todo o país, a questão que surge é se os valores "culturais" resultantes desse poder serão a herança que seremos obrigados a assumir.

Evidentemente, não vamos assumir essa herança. Mas a intelectualidade em geral, sejam antropólogos, sociólogos e até mesmo cineastas de documentários, partem para choradeiras que cheiram a uma certa "urubologia". "Vocês não tem que gostar ou não de algo, mas se é isso que o povo gosta e sabe fazer, não há como discutir", dizem esses intelectuais, meio "urubologicamente".

Esses intelectuais tentam nos fazer crer que a supremacia do "mau gosto" no gosto popular nada tem a ver com o poder midiático. Conversa para boi dormir. Ela tem, e muito. E, em se tratando de poder midiático, que envolve campanhas publicitárias e outros mecanismos, não há como falar em "gosto popular" se ele mesmo é resultante do conhecido processo de persuasão midiática.

Quando chamei a música brega-popularesca de Música de Cabresto Brasileira, num contraponto ao uso banalizado do termo Música Popular Brasileira - cinicamente acrescido de um P maiúsculo, a pretexto do "popular" mas no fundo significando "porcaria" - , eu chamei a atenção de que a breguice dominante é expressão da mídia oligárquica que controla o povo pobre em vários cantos do país.

Desde o primeiro grande ídolo cafona, Orlando Dias - das músicas "Tenho Ciúme de Tudo" e "Perdoa Pelo Bem Que Te Quero" - , apadrinhado pelo mega-empresário Abraham Medina (ou Abraão Medina, pai do Roberto Medina que organiza o Rock In Rio), até a funqueira MC Anitta, o brega sempre se valeu de uma campanha publicitária que manipulava os gostos das pessoas.

O brega é uma ideologia que faz com que o povo pobre se torne vulnerável à manipulação de desejos, crenças e hábitos que, na verdade, não são seus. O povo pobre deixa de ter consciência real de sua regionalidade, ao mesmo tempo em que assimila as influências "de fora" não de maneira espontânea, mas através de estereótipos lançados pela grande mídia.

Entende-se grande mídia não apenas a mídia nacional, com escritórios na Avenida Paulista, mas também as mídias regionais, que podem parecer "nanicas" para o antropólogo ou jornalista cultural que vivem em São Paulo, mas exercem seu poder na grande mídia nas regiões em que atuam. Para um executivo novaiorquino, até a revista Veja parece "nanica" para seu nível de compreensão.

Há rádios ligadas a poderosos grupos oligárquicos, os mesmos que promovem o terror dos conflitos do campo no interior do país, mas que investem em ritmos "populares" que são glamourizados por cineastas e cientistas sociais em teses de correto discurso e metodologia científicos, mas de conteúdo ideológico digno das campanhas publicitárias que misturam verdades, meias-verdades e mentiras.

Do contrário que Ronaldo Lemos e Oona Castro insistiam em dizer, o tecnobrega era ligado à grande mídia desde sua raiz. O ritmo paraense foi abertamente apoiado pela família Mayorana, a mais poderosa do Pará, dona de uma grande corporação midiática que é ligada às Organizações Globo.

Da mesma forma, a axé-music nada seria se não fosse o apoio da TV Bahia (hoje administrada pelos herdeiros de Antônio Carlos Magalhães) e por FMs que surgiram como satélites do "carlismo" baiano e que revelaram barões da mídia local como os Cristóvão Ferreira (pai e filho), o ruralista Marcos Medrado, o espanhol Pedro Irujo e o demagogo "dono das esquerdas" Mário Kertèsz.

Isso sem falar que a "música sertaneja" que tentou seduzir as esquerdas médias através do dramalhão Os Dois Filhos de Francisco - que fez as esquerdas se esquecerem que Zezé di Camargo & Luciano são eleitores "de carteirinha" de Ronaldo Caiado - é abertamente, e podemos dizer de forma escancarada, patrocinada pelo poder latifundiário.

O brega-popularesco trabalha o povo pobre de forma caricata. Pode ser o "sertanejo" mais comportado ou o "funk" mais escandaloso. O povo é reduzido a um estereótipo, estranhamente conformado com sua inferioridade social e aparentemente satisfeito com as promessas paliativas de crescimento econômico.

A intelectualidade que defende essa "cultura" tentou vincular seus pontos de vista à Era Lula ou a uma causa pela mídia independente - apesar de uma postura hesitante quanto à necessidade de regulação midiática - , mas sua ligação não só com o contexto político-intelectual influenciado por Fernando Henrique Cardoso mas também ligada à Globo e Folha de São Paulo são evidentes.

A Rede Globo, sobretudo. Foi ela que, através das novelas, manipulou o inconsciente coletivo. E que, tomando gosto pela coisa, foi requintar a "cultura" brega com Michael Sullivan, promover o fanatismo futebolista com Galvão Bueno e mandar Fausto Silva e Luciano Huck lançar gírias que se tornaram supostamente "de uso universal".

Mesmo as tão alardeadas pregações ideológicas de William Bonner, Miriam Leitão, Arnaldo Jabor, William Waack, Cristiana Lobo, Carlos Alberto Sardenberg e outros são fichinha perto do que o Domingão do Faustão e o Caldeirão do Huck fazem para promoverem um simulacro de "cultura popular" que alimenta o mercado oligárquico de rádios FM e da imprensa policialesca regionais.

Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, ambos conhecidos "coronéis" político-midiáticos, promoveram a farra das concessões de FM nos anos 80 que, na década seguinte, propiciou a ascensão de tendências "populares" que os cientistas sociais, cineastas e jornalistas culturais tentam a todo custo dizer que são "expressões espontâneas das comunidades pobres".

Conversa para boi dormir. Naquela época, ACM e Sarney também fizeram acordos com Mário Garnero e Roberto Marinho e, juntos, fizeram uma manobra política que fez ACM ganhar a TV Bahia e a Rádio Iemanjá FM - que ganhou o nome de fantasia "Globo FM", dedicada ao "gagá contemporâneo" (hit-parade para adultos) - , tirando a Globo dos rivais Joaci Góes e Nilo Coelho.

Nem mesmo a manobra de Góes e Coelho darem "nova" orientação para a Rádio Aratu 96 FM (que antes seguia a linha da 98 FM carioca), transformando-a numa suposta - e grotescamente caricata - "rádio rock", nos mesmos moldes da 89 FM, conseguiu reverter a situação. A "rádio rock" fracassou e foi entregue a Edir Macedo, enquanto a TV Aratu hoje é afiliada do SBT.

Ver que a intelectualidade dominante, que arranca aplausos de plateias desavisadas e estabelece ainda um privilégio de visibilidade, ignora a politicagem que está por trás da "cultura das periferias" que tanto defendem, é algo estarrecedor.

Eles, na sua reputação, em vez de promover a crítica cultural, questionando as relações de dominação e deturpação de valores sócio-culturais através do entretenimento midiático, preferem evitar debater o "mau gosto" e mirar sua "crítica cultural" para uma esculhambação muito mal-disfarçada a artistas de consagrada vocação artística e um ativismo realmente esquerdista, como Chico Buarque.

Graças a essa intelectualidade, a Rede Globo se fortaleceu na pregação de que o brega-popularesco é uma "cultura" supostamente verdadeira, já que a grande corporação midiática fazia seus mimetismos ideológicos vendendo sua ideologia como se fosse "imparcial", sejam as notícias veiculadas por William Bonner, sejam os bregas cortejados por Fausto Silva ou os funqueiros de Luciano Huck.

Criou-se até um debate desnecessário que acabou causando constrangimento nas próprias esquerdas médias. Debatia-se o "mau gosto" como se fosse a "única felicidade" de um povo pobre, sem que se admitisse que esse "mau gosto" era fruto de uma engenhosa manipulação midiática que distorcia desejos, anseios, perspectivas e criava um povo pobre caricato e estereotipado.

E o que a intelectualidade fazia? Jogava a sujeira debaixo do tapete. Nos valores machistas, por exemplo, se a "mulher-objeto" era uma modelo de elite ou uma atriz de filmes publicitários, a intelectualidade ralhava com rigor. Mas se era uma "mulher-fruta" do "funk" ou uma antiga "musa" da banheira do Gugu Liberato, o discurso mudava e havia quem atribuísse a estas certo "feminismo".

E que intelectualidade é essa que ainda se encoraja a dizer que os valores que defende não têm a ver com o poderio midiático? Cheios de dedos, eles não sabem dizer que a relação dos valores brega-popularescos com a grande mídia é resultante de uma suposta invasão popular nos cenários midiáticos ou se resulta de uma também suposta apropriação oportunista da grande mídia.

Na verdade, bregas e barões da mídia são parceiros desde o começo do "espetáculo". O vergonhoso desfecho de campanhas pró-bregas não fez seus ídolos se reabilitarem artisticamente de forma segura, não criou valores culturais sólidos, apenas foi um artifício para tentar fazer os meros sucessos midiáticos serem levados a sérios, e a sérios até demais.

Portanto, fica uma grande lacuna. Afinal, até agora não vieram alternativas sólidas que eliminassem a hegemonia brega-popularesca e que resolvessem a crise da MPB com tendências, mentes e ideias novas que combinassem, com equilíbrio, apelo popular com qualidade artístico-cultural.

Da mesma maneira, também não vieram personalidades que pudessem juntar apelo popular com valores sócio-culturais edificantes, em vez de expressar a demagógica ideia, tão "cara" para a intelectualidade de hoje, de que os valores sociais, culturais e morais retrógrados, quando associados às classes populares, são tidos como "libertários" e "saudáveis".

Portanto, resta discutir esse poder midiático, em vez de dissimular os problemas. Só porque, em tese, algum fenômeno é associado ao "pobre" e ao "popular", não quer dizer que ele realmente seja uma expressão natural das populações pobres. Vendo aspectos estereotipados, caricatos e grotescos, não há como associar a isso a espontaneidade orgânica das populações pobres.

Esse é o problema. Mas a própria intelectualidade é expressão dessa herança "cultural" das Organizações Globo, sobretudo a Rede Globo. Ela mesma formada por antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas e jornalistas culturais que aprenderam as coisas através do que Fernando Henrique Cardoso, Otávio Frias Filho e, sobretudo, o "doutor" Roberto Marinho lhes ensinaram.

Jogar os problemas do "mau gosto" debaixo do tapete e desmentir essa herança do poder midiático não resolve. Seria melhor a intelectualidade pró-brega correr para a Academia Brasileira de Letras e chorar nos ombros de Merval Pereira, em vez de tentar provar um esquerdismo que não existe.

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