sexta-feira, 12 de julho de 2013

A 'INTELLIGENTZIA' NÃO ENTENDE A CULTURA POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante, sabe-se aqui, neste blogue, prefere defender "com categoria" a hegemonia brega-popularesca achando que está defendendo o "novo folclore brasileiro". Dos bregas originais ao "funk carioca", é o mesmo discurso confuso mas sofisticado, que tenta obter um apoio aparentemente unânime da opinião pública.

No entanto, é uma intelectualidade que entende mais de "cultura de massa" do que de folclore. E, em dado momento, se contradiz ao dizer que o folclore é velho, passado e "não pertence mais" às classes populares. Como um patrimônio histórico e cultural das classes populares não pode pertencer às classes populares?  Como as classes populares não podem ser responsáveis por sua própria herança cultural?

Quem acompanha este blogue sabe que questionamos todo esse discurso que atribui ao povo pobre a "missão" de substituir seu patrimônio cultural original pela "cultura de massa" brega-popularesca, imposta por rádios e TVs regionais e respaldada pelas grandes redes de comunicação e pela grande imprensa.

Seguindo a cartilha pós-tropicalista, a geração de antropólogos, sociólogos, historiadores e jornalistas culturais que domina a mídia hoje em dia, teve sua formação cultural muito presa à televisão e ao rádio. Já escrevemos isso. Essa formação faz com que eles não vejam muita diferença entre a vida nas ruas e a construção da imagem das ruas no rádio e na TV.

Por isso a grande dificuldade deles, na sua formação "filtrada" pela televisão e pelo rádio do período da ditadura militar - que animava suas infâncias - e nas ideias de desenvolvimento econômico e social lançados por Fernando Henrique Cardoso, é compreender a cultura popular fora de seu âmbito midiático e mercadológico.

Ou seja, ou a intelectualidade dominante é bastante ingênua para ignorar a diferença entre cultura popular autêntica, de vínculos comunitários, e a "cultura de massa" brega-popularesca de vínculos midiáticos, decidida "de cima" pela grande mídia, apesar de lançar como ídolos e personalidades pessoas aparentemente oriundas das classes populares. Ou então a intelectualidade age por má-fé.

Em todo caso, a compreensão da cultura popular por gente que mal conseguia entender a cultura rock dos anos 80 acaba ignorando a fronteira entre o comercial e o artístico, criando uma visão em que o mercado é hostilizado no discurso mas defendido na prática.

Alguns intelectuais até agem por má-fé, afinal aquela concepção de brega como uma cultura supostamente "alternativa" e "independente" é carregada de conceitos herdados da teoria do "negócio aberto" do magnata George Soros, de uma mercantilização brutal das culturas independentes juntando conceitos de "livre iniciativa" e de precarização do trabalho, numa espécie de neoliberalismo "hardcore".

Mas, mesmo em quem nem ouviu falar de George Soros e ainda se assusta quando alguém fala que o "funk carioca" é patrocinado pela CIA comete o equívoco de achar que a "cultura de massas" brega-popularesca é a realidade das ruas. Não. É uma realidade construída pela grande mídia, em que o povo pobre se transforma em caricatura de si mesmo.

VISÃO ABSURDA: NÃO TEM DINHEIRO PARA COMPRAR UM SÍTIO, MAS TEM PARA TER TECNOLOGIA DE PONTA?

Isso envolve processos mercadológicos e discurso publicitário. Não pode ser algo orgânico ou "comunitário". Se parte das rádios comunitárias e dos serviços de auto-falantes está entregue à breguice cultural, é porque seus donos são ligados ao poder político e econômico regionais.

Mas aí a intelectualidade cria um discurso que dá a falsa impressão de que pobretões que não têm um tostão para comprar um sítio, mas têm dinheiro de sobra para comprar uma equipagem sonora com tecnologia de ponta. Visão absurda, mas é ela que faz a intelectualidade dominante de hoje e seu discurso populista de matizes neoliberais arrancar aplausos e virarem pretensas unanimidades públicas.

Evidentemente que a tecnologia de ponta usada por intérpretes de brega, tecnobrega, "funk carioca" e outros gêneros "populares" não vem de pobretões. A origem pobre do empresariado do entretenimento brega é superada, fato consumado. Esse empresariado, vindo da periferia ou não, hoje é bastante rico, já faz parte do poderio econômico e midiático.

Esses empresários também estabelecem alianças com a grande mídia regional ou com as mídias de pequeno porte mas controladas pelo poder dominante, o que na prática, também é grande mídia, apenas "miniaturizada".

Afinal, se o "coronel" que controla uma cidade do interior, ou mesmo uma região de cidades, exerce nas mesmas um poder férreo, por que os serviços de alto-falantes têm que ser independentes desse poder? Até para instalá-los precisa de autorização do "coronel". E as rádios de médio porte regionais, controladas por políticos e oligarcas, elas estariam também fora do poderio político? Evidentemente, não.

Se nas grandes capitais, nota-se que uma Beat 98 FM é controlada pelos filhos do "doutor" Roberto Marinho, e uma UOL 89 FM é controlada por um empresário e político ligado ao DEM e originário do grupo malufista da ARENA, não há como subestimar que a FM que lança um ritmo brega é ligada, de uma forma ou de outra, ao poder político e econômico dominante na região.

Isso já desfaz o mito de que o brega "vem das ruas", assim como seus derivados. Faz mais sentido dizer que eles vêm dos escritórios. Mas, coitados, os nossos intelectuais tão badalados parecem viver na bolha de plástico, por não entenderem a diferença entre cultura e entretenimento, arte e mercado, folclore e "cultura de massa". E ainda são aplaudidos por plateias lotadas. A televisão os deixou burros demais?

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