sábado, 6 de julho de 2013

A INTELECTUALIDADE CULTURAL E A VERGONHOSA DEFESA DO "MAU GOSTO"


Por Alexandre Figueiredo

"Pimenta nos olhos dos outros é refresco", diz o ditado popular. Adaptado para nossa intelectualidade, isso se estende para "baixarias na vida dos pobres é cidadania". A apologia ao "mau gosto", que domina a ótica dos cientistas sociais mais "badalados" no Brasil e contagiou até mesmo um desembargador federal, tornou-se uma febre que domina as elites pensantes no país.

Pior: eles insistem em parecer "libertários", se envaidecem com a "polêmica" que provocam, e acham que o "mau gosto" é uma causa nobre que representaria, na visão deles, a emancipação corajosa do povo pobre. Corrompendo a visão sociológica de "aceitação do outro", a intelectualidade dominante no nosso país acredita que o povo só é "melhor" naquilo que ele tem de ruim.

São valores associados a aberrações de ordem sociológica, causadas pela ignorância causada por uma escolaridade precária e pela ausência de referenciais morais, culturais e de outra natureza que contribuíssem para a melhoria de vida das classes pobres.

Assim, do machismo à criminalidade, valores duvidosos, que se realçam com uma pseudo-cultura patrocinada pelos barões da grande mídia, promovem no povo pobre o estímulo à apreciação mórbida do grotesco, do pitoresco, do piegas, do aberrante e também do atraso cultural e da falta de contextos relacionada ao brega e ao cafona.

A intelectualidade dominante tenta desconversar, dizendo que "não existe critérios para alta ou baixa cultura", jogando os problemas culturais para debaixo do tapete. Para pessoas oficialmente endeusadas como Paulo César Araújo e companhia, o Brasil da cafonice é um "outro paraíso", no qual não existem conflitos sócio-econômicos sérios.

Até mesmo a associação à grande mídia eles tentam desconversar. Num momento, dizem que as "periferias" invalidam a grande mídia. Em outro, dizem que a grande mídia é que se "apropriou" dos tais "sucessos do povão". Sem demonstrar uma visão coerente, a intelectualidade de um país que tem Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras tenta persuadir com teses sem fundamento.

Para essa intelectualidade, não existem "proibidões", nem "vulgaridade feminina", nem "valores morais baixos". Até mesmo um mendigo idoso embriagado e tolo diverte esses intelectuais tão "queridos" e influentes. Os "valores baixos" são considerados por nossa intelligentzia como "julgamentos de valor preconceituosos". Logo eles que, ditos "sem preconceitos", são muito mais preconceituosos.

Acham até mesmo que não existe machismo nas mulheres-objetos "populares" ou, se existe, "já está sendo superado". Acham que elas são "feministas" só porque brigam com seus namorados. Tentam creditar o "mau gosto" como uma visão "positiva" de coisas "elevadas" que nós, supostamente, "não" conseguimos entender.

Até mesmo a pedofilia, quando ocorre nas periferias, é vista pela intelectualidade de forma bastante positiva, como se isso fosse a "iniciação sexual" das meninas pobres, algo "popularmente aceito" e que "merece" a aceitação de todos. Pouco importa se há gravidez precoce, gestantes adolescentes abandonadas pelos namorados etc, são "coisas saudáveis" porque são "a realidade das periferias".

A intelectualidade dominante age assim porque, na prática, põe todos seus preconceitos e neuroses secretos na imagem das periferias. As periferias são o depósito de lixo de seu inconsciente. Tais intelectuais tentam parecer "puros" e "socialmente generosos" quando jogam seus preconceitos no lombo das periferias.

É como se dissessem: "é a felicidade do outro, não me culpem". Urubologicamente, defendem o "mau gosto" como um depositário de valores sociais negativos, retrógrados ou ultrapassados que, para o entender dessas elites pensantes, se "reciclaria" simbolicamente sobre a capa do "popular", do "pobre" e da "periferia". Pretextos com três P.

Só que isso não faz tais intelectuais mais generosos socialmente. Pelo contrário, o espetáculo deles de defender o brega-popularesco de forma "bela" e "cidadã" cai por terra, porque a glamourização da pobreza não as limpa de seus pecados elitistas. Antes jogasse suas sujeiras por debaixo de seus tapetes, enquanto exibem, cinicamente, um falso ativismo de retórica pretensamente sociológica.

Sua vergonhosa defesa do "mau gosto" - com o direito ao refrão "não é preciso gostar, mas é preciso aceitar" - só faz dessa intelectualidade dita "sem preconceitos" muito mais preconceituosa e elitista do que eles mesmos poderiam admitir, se isso fosse o caso.

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