domingo, 21 de julho de 2013

A BAIXA AUTOESTIMA CONTAMINA O BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Os anos 90 foram a década perdida no Brasil. Isso porque foi nessa época que os valores duvidosos introduzidos no establishment do entretenimento que os EUA viviam nos anos 80 (oficialmente a década perdida de lá) foram introduzidos em nosso país.

Com promessas de melhor tecnologia, maior visibilidade de famosos em geral e até acadêmicos, e de algum benefício "pragmático" na vida de qualquer um, passou-se a se contentar com pouco, aceitando facilmente qualquer degradação ou deturpação de conceitos, ideias e propostas para o mínimo do medíocre, mesmo que esteja longe até de atender as necessidades mais básicas.

E qualquer degradação tinha sua desculpa. "É para atrair mais público", "É para organizar melhor", "É porque o povo entende isso melhor", entre outras coisas. Fora aquela desculpa esfarrapada que muito se ouve: "Sei que não é uma maravilha, mas é melhor do que nada".

Essa postura se torna bem pior do que no pré-1964. Mesmo nos primeiros anos da ditadura militar, lutava-se por melhores condições de vida. Hoje recomeçam os protestos de ruas, mas são apenas o começo de um despertar que ainda não é completo, é um começo de tentativa de superação dos problemas, mas que não trouxe resultados plenos e concretos, embora isso seja questão de tempo.

Mas foram cerca de 50 anos de degradação de todos os sentidos. Na ordem política, econômica, cultural, institucional. Da mobilidade urbana ao radialismo rock, da problemática das mulheres pobres à mediocridade intelectual na Academia Brasileira de Letras. Parecia que o Brasil se degradava em doses homeopáticas, mas de 1964 para cá o país regrediu em dimensões buñuel-kafkianas.

Na música brasileira, temos um quadro pior. A respeitável e admirável Música Popular Brasileira de 1965-1968 é hoje depreciada, mesmo de forma "científica" em monografias e documentários, seja pela glorificação da mediocrização cultural do brega e seus derivados (inclusive o "funk"), seja pela esculhambação gratuita de nomes de indiscutível talento como Chico Buarque e Edu Lobo.

E hoje a situação é pior, porque mesmo os ritmos populares autênticos, como sambas, baiões, modinhas e outros agora são discriminados em prol de uma "cultura de massa" que até combina apelo popular com sucesso comercial, mas possuem valor artístico-cultural bastante duvidosos, por mais que a intelectualidade insista em relativizá-los.

O grande público, que antes era receptivo até a um sofisticado Edu Lobo, hoje está muito mal acostumado com as mesmices brega-popularescas que só produzem hits instantâneos, mas são desprovidos de qualquer responsabilidade sócio-cultural e artística, porque não produzem conhecimentos, só produzem refrões a serem consumidos pelo "povão".

A perda de autoestima é clara. Muitos não querem mais cultura brasileira, mas tão somente um hit-parade a competir com os EUA, com a desvantagem de que nosso "ritipareide" é a imitação do grande país imperialista.

Em vez de desejarmos um novo Jackson do Pandeiro, temos um Márcio Victor do Psirico. Em vez de querermos um novo Sidney Miller, temos um Michel Teló. Em vez de procurarmos um novo Agostinho dos Santos, encontramos um Thiaguinho. E em vez de esperarmos por uma nova Sílvia Telles, vem logo uma MC Anitta.

MC Anitta é o paradigma do hit-parade radicalmente assumido no Brasil. E que elimina qualquer contexto para as pregações intelectualoides que, em seus delírios ideológicos travestidos de "ciências humanas", tentam glamourizar os fenômenos de massa com falsas alusões a movimentos libertários ou expressões artísticas de vanguarda.

Observando o sucesso da funqueira em cada passo, nota-se todo o marketing bem calculado em factoides, demonstrações de falsa modéstia e até mesmo a solteirice forçada (para não dizer falsa) típica das musas popularescas. Pode parecer uma campanha engenhosa e certeira, mas com certeza nada para nos fazer esquecer de Silvinha Telles morta no auge da carreira, aos 32 anos, em 1966.

Mas não é só no aspecto musical. De repente, o Brasil abriu mão de querer realmente o melhor. Se quer o "melhor", mas apenas em sentido "pragmático" de atender apenas a necessidades imediatistas. Nada que represente real qualidade de vida, mas apenas algo que possibilite a sobrevivência humana e o atendimento apenas a necessidades instintivas, nem sempre prioritárias ou vantajosas.

Daí a herança dos anos 90 da ditadura midiática, do direitismo político, do neoliberalismo econômico. Só que muitos desses "frutos" são defendidos como se não tivessem a ver com esse contexto sócio-político de tecnocratas, políticos ainda autoritários e executivos de mídia que, trancados nos seus escritórios, acham que detém os segredos e os desejos das classes populares dentro de seus ternos.

Não se quer cultura, mas apenas "cultura pop", igualzinho ao que acontece nos EUA. Pouco importa a produção de conhecimentos e valores sociais sólidos, o que se defende é o consumismo puro, travestido de "cultura das periferias".

Mesmo entre parte da opinião pública esclarecida, o poder midiático, político, tecnocrático e econômico manipulou seus desejos, suas ideias e perspectivas. De repente, aquelas pessoas que tinham algum senso questionativo mais ácido passam a amaciar seu senso crítico, aceitando o "estabelecido" porque "os tempos são outros".

Portanto, não há como escapar. O Brasil que tem MC Anitta como a "maior revelação" da música é o país que tem Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras, Joaquim Barbosa de mãos dadas com a Globo, Jaime Lerner ainda pregando modelos ditatoriais de mobilidade urbana, Geraldo Alckmin governando São Paulo como se fosse um tirano medieval (ele é ligado a Opus Dei).

Este é ainda um país anterior aos protestos de ruas, que mostra intelectuais preferindo defender o jabaculê como futuro da cultura popular, enquanto membros do Judiciário defendem a "legalidade" da ditadura midiática. É um país marcado pela baixa autoestima, de preferir macaquear os EUA - como MC Anitta imitando Britney Spears e cia. - do que ser o próprio Brasil da justiça social e qualidade devida.

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