domingo, 30 de junho de 2013

OS PROTESTOS DE RUAS E AS PRESSÕES PELA PARTIDARIZAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, as esquerdas médias tiveram um surto não menos intenso do que a grande mídia direitista teve. Se esta, em primeiro momento, tentou associar os movimentos populares aos atos de vandalismo, como se tudo fosse a mesma desordem, as esquerdas médias tentam promover o corporativismo e defender a partidarização dos protestos de ruas.

Existe uma grande diferença entre o direito de exibir bandeiras de partidos políticos, sindicatos e entidades de classes, o que faz parte do jogo democrático, e o direito de partidarizar os protestos de ruas. O corporativismo do Partido dos Trabalhadores quer dar a impressão de que foi o responsável pela realização dos protestos de ruas que acontecem nas cidades brasileiras.

Se o PT foi mesmo "responsável", só de forma negativa. A independência das manifestações faz com que Globo e PT fiquem desnorteados, na medida em que nenhum dos dois consegue ter um controle social nos movimentos. E aí a corporação midiática e o partido do Governo Federal tentam, numa "guerra fria" mixuruca, trocar acusações de que a independência ideológica seria uma "manipulação".

Há uma tese esquisita nas esquerdas que é que a independência ideológica do movimento seria "uma forma de autoritarismo", isso quando não apontam a influência da Rede Globo como manipuladora dessa independência.

De acordo com essa tese, a independência expressaria uma "repressão às bandeiras partidárias", o que sugeriria, neste discurso, que os "independentes" estariam fazendo uma mobilização social para combater os movimentos sociais. Uma visão tola e surreal, diga-se de passagem.

Na verdade, essa parte influente das esquerdas - sobretudo o PT - estaria sendo influenciada pela psicologia do terror das Organizações Globo, Folha, Estadão e Veja. Talvez os corporativistas de esquerda estejam vendo Jornal Nacional demais.

A independência ideológica não envolve somente partidos. Envolve instituições diversas. Além disso, a tolerância e a receptividade é que permitem essa independência, e não o contrário. Nos protestos pacíficos, o que se vê são médicos se unindo com ativistas LGBT por causas solidárias, e um desfile de diversas bandeiras institucionais, partidárias, sindicais etc.

O risco da partidarização dos protestos de rua, sobretudo a apropriação dos mesmos pelo PT, é que em vez da desejada união dos diversos segmentos populares em prol de mudanças fundamentais para nosso país, tenhamos uma "torre de babel" partidária, em que partidos de esquerda tentam disputar quem é que controla mais os protestos de ruas.

Não se pode considerar "autoritários" os manifestantes que levam o interesse público acima de bandeiras partidárias. Eles não negam a pluralidade partidária, essa pluralidade é que é ameaçada quando se defende a "saudável" e "democrática" partidarização dos protestos populares, uma improvisada e precipitada campanha eleitoral para 2014.

Isso tanto é verdade que, se Dilma Rousseff é duramente criticada, assim como o ex-presidente Lula, a Rede Globo, o pastor homofóbico (mas, dizem, de passado "suspeito" para a causa) Marcos Feliciano (ou Marco Feliciano, para incrementar a busca no Google) e nomes como Arnaldo Jabor e Bóris Casoy também são duramente criticados.

Não há um tom ideológico delimitado nos protestos, e isso é natural. As causas defendidas estão muito acima dos interesses partidários. Isso não é autoritarismo nem os manifestantes, pensando assim, estariam sendo "teleguiados" pela grande mídia ou pelo grande capital.

Além disso, por que as esquerdas têm esse temor à independência ideológica dos protestos? Esse medo não é expresso quando, ao defenderem o "funk carioca", defendem uma causa claramente ligada às Organizações Globo e cujo maior propagandista, Hermano Vianna, é explicitamente ligado a Fernando Henrique Cardoso.

Da mesma forma, aceitam exaltar figuras como Paulo César Araújo - outro surgido das profundezas da intelectualidade cultural tucana - com uma naturalidade que não existe quando o assunto é a independência ideológica dos protestos.

Ver direitismo em manifestantes realmente independentes, enquanto não vê direitismo em antigos conservadores como Waldick Soriano e Odair José é uma grande incoerência. Ver direitismo nos protestos acima de qualquer matiz ideológica e dar ouvidos a um MC Leonardo apadrinhado por um membro do Instituto Millenium é uma grande incoerência.

Portanto, até mesmo as esquerdas precisam ter uma postura autocrítica. Ter autocrítica não é ruim. O pior é defender a partidarização dos protestos de ruas, sob o pretexto da "verdadeira democracia progressista", para no fim da festa só restar partidos de esquerda brigando entre si.

Esse discurso esquerdista da partidarização dos protestos acaba causando mais gargalhadas na direita mais reacionária. Ela se alimenta dos erros e excessos cometidos pelas esquerdas.

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