quarta-feira, 19 de junho de 2013

OS "COROAS" E O ISOLAMENTO DOS ESCRITÓRIOS E DO STATUS PROFISSIONAL

CHARLES SAATCHI E ROBERTO JUSTUS - Empresários e publicitários que pararam no tempo e não cuidam de suas imagens pessoais.

Por Alexandre Figueiredo

A vida anda e hoje o sucesso profissional não é tudo na vida. No lazer, o papel ideológico do profissional bem sucedido não passa de uma mera simbologia, porque esse status não possui a menor serventia em situações que exigem diversão e entretenimento, e não uma amostra ou relato do que se faz no trabalho.

Semanas depois da separação do empresário e publicitário Roberto Justus e da apresentadora Ticiane Pinheiro, por divergências pessoais e pelo ciúme e sisudez dele, é a vez de outro empresário e publicitário se envolver numa crise conjugal, o inglês Charles Saatchi, também colecionador de obras de arte.

Saatchi é o segundo marido de Nigella Lawson, popular apresentadora de programas de culinária e muito conhecida mundialmente, tendo visitado o Brasil no mês passado. No último fim de semana, fotos davam indício de uma briga conjugal quando Saatchi tentava estrangular a esposa, que mostrava-se aflita e assustada, além de parecer naturalmente sufocada pelo marido.

O incidente teria sido "temperado" com informações, colhidas de representantes de Nigella, de que ela teria saído de casa, magoada com o acontecimento. O motivo mais provável teria sido uma crise de ciúmes de Charles Saatchi, até porque Nigella é conhecida por sua beleza deslumbrante, além de ser bastante carismática.

"Coroas" ricos às vezes perdem a cabeça com suas esposas ou namoradas mais jovens. Às vezes surge um Pimenta Neves com sua sede momentânea de sangue. E isso mostra o quanto o isolamento de escritórios e consultórios podem afetar os "elegantes" e "cavalheiros" senhores de idade, numa época em que eles são da mesma geração de gente bem mais jovial do que eles.

Roberto Justus tem 58 anos, a mesma idade dos integrantes vivos da banda inglesa The Clash e de brasileiros como o roqueiro Kid Vinil e o jornalista e radialista Luiz Antônio Mello (que idealizou a Rádio Fluminense FM). Charles Saatchi tem 70 anos, a mesma idade que vários músicos do rock de seu país, sobretudo a jovial dupla dos Rolling Stones, o "meninão" Mick Jagger e seu parceiro Keith Richards.

Isso nos põe a pensar, pois homens que passaram os anos 70 - no caso da geração de Saatchi - e os anos 80 - no caso da geração de Justus - isolados nos escritórios, consultórios e na sobrecarga dos trabalhos acadêmicos ou profissionais, acabam não só ficando parados no tempo, como deixam de conhecer a si mesmos, o que poderia evitar incidentes como o de Saatchi contra Nigella.

Até pouco tempo atrás, figuravam nas colunas sociais homens como o médico Almir Ghiaroni, que até começou sua carreira de romancista, mas sem a projeção e o carisma de médicos-escritores históricos como Pedro Nava e Moacir Scliar.

Ghiaroni deixou de frequentar o jet-set depois que as colunas sociais passaram a se tornar mais joviais, já que o oftalmologista carioca, casado com a belíssima ex-modelo Geórgia Woorthman, fazia um perfil de "coroa clássico", ainda preso a padrões de comportamento e vestuário dos anos 70, num claro contraste com a esposa, da mesma geração de atrizes como Alessandra Negrini e Maria Paula.

Quando viu que o colunismo social definitivamente deu por encerrados os tempos de Jacinto de Thormes, Ghiaroni se retirou dos holofotes, desistindo de aparecer naturalmente mais por razão de sua carreira literária. Pior é que Geórgia também seguiu o caminho do marido, ela que chegou a apresentar uma revista de variedades da extinta TV Manchete.

Houve também casos do empresário e diretor de elenco da Rede Record, Eduardo Menga, do ginecologista Malcolm Montgomery e do economista Walter Mundell, também símbolos da sisudez e da obsessão pela velha elegância setentista - de sapatos de verniz e paletós usados sem muito critério de situação - , gente que também não viu o tempo passar.

Todos eles contrastam com gente de sua própria geração, o outro lado dos "coroas" que, em contato permanente com a juventude e com a liberdade da vida, têm um comportamento bem mais arejado e não se acanham quando alguém mais jovem se chegasse a eles como se estivessem se dirigindo a um colega de escola.

A extrema racionalidade exigida pelas profissões liberais e por cargos executivos e empresariais causa problemas no comportamento, em relação ao prazer. A personalidade já não mede mais o cartão de ponto e transfere toda a seriedade profissional para os tempos livres, já não sabendo mais qual situação terão que usar ou não sapatos de verniz, que se reduzem a ser seus segundos pés, cujo brilho da graxa parece compensar a falta de brilho desses homens fora de seu prestígio profissional.

DE TÃO CHIQUES, ESSES HOMENS SE TORNAM BREGAS

Um exemplo típico disso é o mega-empresário francês François-Henri Pinault, marido da estonteante atriz Salma Hayek, que com apenas 51 anos possui uma aparência bastante envelhecida para sua idade (que contrasta violentamente com os 47 anos com aparência jovial da atriz) e um comportamento muito sisudo, até mesmo para a média de empresários de sua geração.

Não bastasse o comportamento sisudo e o semblante pesado de tão formalista de Pinault, ele ainda tem a obsessão por um vestuário exageradamente elegante, a ponto de, num dia de sol em Veneza, François foi usar terno, apenas sem gravata, para passear com a esposa e a filha Valentina.

A obsessão por um vestuário elegante demais, pelo rigor das normas de etiqueta e pela impressão errada de que todo evento de lazer parece uma festa de gala a exigir o máximo de formalismo, até mesmo em situações mais informais, faz com que os grandes profissionais "de sucesso" percam a percepção da vida que não é só black tie e red carpet. Esses homens, de chiques demais, tornam-se muito bregas.

Na melhor das hipóteses, a reação contra a mudança dos tempos se dá num dr. Ghiaroni se retirando do jet-set para ficar com aqueles do seu meio social que compreendam melhor seu comportamento sisudo e seu vestuário ultrapassado. Na pior delas, um Charles Saatchi sem saber dialogar com a mulher, perde a cabeça e briga com ela, ameaçando matá-la.

Saatchi disse que tudo foi "uma brincadeira". Isso quando viu que a Scotland Yard, que normalmente investiga crimes de algum nível de gravidade e projeção, decidiu investigá-lo. Evidentemente, não dá para comparar o provável crime de Saatchi com a ciumeira de Roberto Justus com Ticiane, mas em ambos os casos há a indelicadeza que o rigor das normas de etiqueta não conseguiram evitar.

Justus apenas teria ralhado com a jovem Ticiane diante das amigas. Uma atitude branda, se comparada com o colega inglês de profissão.Mas, em ambos os casos, a sobrecarga do trabalho empresarial, da racionalidade excessiva do comportamento que contagia o lazer, impede que tais homens parem para pensar sobre seus desejos, suas frustrações, suas alegrias, tristezas e tensões numa vida de status e estresse.

É assustador ver que um Charles Saatchi que tentou enforcar Nigella Lawson é apenas um ano mais novo que um Paul McCartney animadamente entrosado até com gente bem mais jovem como Dave Grohl, o guitarrista e cantor dos Foo Fighters com quem o ex-beatle tocou num tributo recente a Kurt Cobain, o finado parceiro de Grohl no Nirvana.

Da mesma forma, também é estarrecedor ver que um Serginho Groisman que, aos 63 anos, fala de igual para igual com gente com idade para ser sua neta, é mais velho que os Ghiaroni, Justus, Menga, Montgomery e Mundell que, só para ver uma comédia boba no cinema, usam terno e sapatos de verniz.

Cabelos brancos não são garantia de maturidade e a vida profissional de status, em cargos liberais ou de comando e liderança, não são garantia de sabedoria nem de desenvoltura na hora do lazer. Homens que ficam muito à vontade para descrever o sucesso de mensagens publicitárias, palestras de ginecologia ou conhecimentos sobre catarata e teorias do empreendedorismo, não raro ficam sem ter o que fazer na hora do tempo livre.

Acabam se isolando da diversão humana através de conversas pedantes com outras pessoas, seja nas reuniões no Iate Clube, seja nas festinhas de aniversário de algum filhinho ainda criança. Todos disputando, na prática, uma pretensa erudição às custas de informações e referenciais culturais colhidos às pressas pela imprensa lida na véspera ou pelos programas da TV paga.

O pior é que eles não só estabelecem conflitos de geração com suas jovens esposas. Daí o contraste entre o sisudo Charles Saatchi e o animado Mick Jagger. Ou um Roberto Justus, como cantor, bancando o Manolo Otero dos trópicos, enquanto Kid Vinil, mesmo com seu bigode de "paizão", sempre se manteve fiel ao astral juvenil do rock.

O tempo muda e os nossos senhores de idade não parecem com outros senhores de idade, que esbanjavam sabedoria e lucidez. Um Millôr Fernandes que prefaciou os livros de Almir Ghiaroni tinha também muita simpatia com a Legião Urbana. E, com suas piadas e seu humor cáustico e bonachão, Millôr falava sério através de suas mensagens cômicas.

Houve mais gente no passado que fazia fama respeitando seus cabelos brancos, sem compensar seus grisalhos e a falta de brilho próprios (nem tudo é sucesso profissional na vida, se não há espaço mental para o lazer).

Hoje os cabelos brancos se servem a uma estética da sisudez e tentam buscar o brilho perdido em sapatos de verniz bem engraxados. Mas que não impedem que Justus seja indelicado com Ticiane e Saatchi violento com Nigella. Em muitos casos, os cabelos brancos e grisalhos escondem uma gritante imaturidade.

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