quarta-feira, 12 de junho de 2013

O INFERNO ASTRAL DO GRUPO ABRIL


Por Alexandre Figueiredo

Pela primeira vez na história da revista Veja, a reunião de pauta da revista Veja, uma rotina há 45 anos - embora nos últimos anos estando mais para um reacionário plano de guerra - , teve a intervenção da cúpula do Grupo Abril, empresa que edita o famoso semanário.

O presidente do Grupo Abril, Fábio Barbosa, e o presidente do Conselho Administrativo, Giancarlo Civita - um dos filhos e provável sucessor do poder de Roberto Civita, falecido há poucos dias - , comparaceram à reunião de pauta para discutir um outro problema: o corte de custos de toda a empresa.

A famosa corporação de 63 anos de existência, surgida a partir da primeira publicação brasileira de uma revista toda dedicada ao Pato Donald, está sofrendo uma grave crise que afeta seus periódicos severamente. A própria Veja, um dos carros-chefes de sua editora, anda acumulando pilhas de revistas encalhadas nas bancas de todo o país.

Há desde um plano de demissões em massa, desativação ou aluguel de edifícios - o Novo Edifício Abril é um deles - e a extinção de várias publicações da Editora Abril. Há rumores de que o fim da franquia da revista norte-americana Playboy, que a Abril edita desde 1975, é uma das possíveis medidas para conter os gastos. Mas é possível que publicações menores também sejam extintas ou fundidas.

A Editora Abril ainda não divulgou o que fará com os assinantes das revistas a serem extintas. Mas o grupo pretende extinguir ou descontinuar (no caso de franquias) pelo menos 12 publicações. Além da Playboy, a Abril faz franquia também com a argentina Caras e a norte-americana Cosmopolitan, editada aqui com o nome de fantasia Nova.

É provável que Caras, Nova, Veja e publicações tradicionais como Cláudia e Capricho sejam poupadas. Mas a "faxina" não será suave. A Abril poderá sofrer um dos maiores cortes no seu patrimônio e no seu quadro de funcionários, sendo um dos piores casos da grande crise que atinge a mídia comercial no Brasil e no restante do mundo.

Essa crise atinge, no Brasil, TVs como Record, Rede TV! e Bandeirantes, atinge também outros veículos midiáticos, como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, além dos demais veículos de imprensa escrita em todo o país. Nem a revista Caros Amigos escapou de demitir jornalistas. E Estadão e Folha, juntos, demitiram até mesmo colunistas alinhados com o pensamento conservador, como os carismáticos Nelson Motta e Danuza Leão.

Nem mesmo as tentativas de extensão de influência da Folha de São Paulo conseguiram dar certo. O programa TV Folha, da TV Cultura de São Paulo, possui audiência raquítica, enquanto que a "histórica" volta da "rádio rock" 89 FM sob o nome UOL 89 FM não emplacou e só fez a rádio ser ouvida por uma minoria de jovens fanáticos por grunge e poser metal.

Aliás, o rádio, sobretudo FM, amarga quedas nacionais de 15 a 20%, contrariando os dados oficiais do Ibope que supõem um crescimento fictício do setor. O chamado "Aemão de FM", que envolve retransmissões de rádio AM, programações esportivas e emissoras all news, é o que mais recebe surra em audiência, com FMs abatidas pela concorrência da Internet e das emissoras esportivas de TV paga.

Portanto, a grande mídia conservadora, sobretudo em São Paulo, sofre a mais aguda crise, consequência não somente da concorrência com a Internet - sobretudo portais de vídeo e blogues - , como pela postura reacionária e anacrônica de vários veículos.

Afinal, o medievalismo de Veja, a mentalidade "emo com raiva" da UOL 89 FM, o reacionarismo mofado da Folha de São Paulo e a inexpressividade das "popozudas" que ocupam o cardápio da Playboy nos últimos anos mostra que a supremacia da grande mídia está terminando, com a decadência que a mentalidade ultraconservadora de seus donos e gerentes mantinham e ainda mantém.

O Grupo Abril, por exemplo, não conseguiu se adaptar ao mercado televisivo, já querendo se livrar da franquia da MTV de qualquer jeito. Também não conseguiu se adaptar à Internet e ideologicamente defende ideias retrógradas que afastam o público. A decadência da Abril pode não ser o único caso, mas será o mais grave envolvendo uma grande corporação daquilo que antes se chamava de "quarto poder".

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