quarta-feira, 26 de junho de 2013

O GRANDE ABISMO DA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A MPB se encontra hoje semi-árida e quase estéril, diante do abismo entre dois extremos. Um é uma MPB autêntica, relativamente sofisticada e pós-tropicalista, marcado sobretudo pelo ecletismo, mas pouco eficiente no diálogo com o grande público. Outro é a breguice hegemônica que atinge facilmente o grande público mas seu compromisso com o fortalecimento da cultura é nulo e inútil.

Esse abismo não é bem resolvido pela intelectualidade, que geralmente prefere ouvir a MPB eclética em casa, enquanto cria todo um repertório ideológico, sofisticado mas de argumentação confusa, para defender a breguice hegemônica que toma conta das rádios e TVs.

Não há um meio-termo entre o apelo popular e a qualidade artística, e isso não se resolve quando a mídia tenta "arrumar" a imagem de ídolos bregas, tentando fazê-los à imagem e semelhança dos medalhões da MPB autêntica.

Isso se deve porque, a exemplo do que vimos com a geração de ídolos do "pagode romântico" e do "sertanejo" dos anos 90, eles não se tornaram mais criativos quando passaram a fazer um arremedo de MPB. Pelo contrário, levaram às últimas consequências tudo aquilo que tornava a MPB insuportável na virada dos anos 70 para os 80. O "apelo popular" era o único diferencial, mas não fazia diferença na essência.

Afinal, nota-se que esses nomes só gravavam covers de MPB que se alternavam com canções bregas ou com arremedos de algum "som MPB" que os ídolos neo-bregas dos anos 90 ouviam vagamente, como a soul music brasileira e a música caipira. Nada que deixe marca na música brasileira, apesar do marketing forte em torno desses intérpretes.

Até agora a grande mídia e a intelectualidade apostam nesse suposto meio-termo entre brega e MPB. Um meio-termo inútil, porque não acrescenta coisa alguma na nossa cultura musical. O que há é apenas um desfile de artistas de MPB autêntica e de Rock Brasil adotando uma atitude paternalista com os bregas, em duetos tendenciosos ou covers oportunistas.

Essa inutilidade se reforça quando, por trás da "sincera homenagem" que um ídolo do "pagode romântico", do "sertanejo" ou de qualquer outro estilo, faz à MPB existe algum palpite ou macete dado por um produtor de TV, um arranjo musical feito por outrem, entre outras intervenções de terceiros que reduzem ainda mais a hipótese já duvidosa de criatividade e sofisticação atribuídas aos neo-bregas veteranos.

Tudo é feito por outros, desde a música que um ídolo "pagodeiro romântico" ou um "sertanejo" deverão gravar, até mesmo os arranjos musicais usados. O ídolo neo-brega parece comandar o "espetáculo", mas na prática ele se reduz a um mero crooner de um trabalho de outros arranjadores e produtores.

O resultado é um trabalho burocrático, forçado, por mais que seja feito diante de muitos sorrisos e muitos aplausos das plateias. Não é um trabalho criativo, e além disso as regravações de clássicos da MPB, em vez de levar os fãs de brega-popularesco a ouvir mais a MPB, os desestimula justamente a isso, satisfeitos em ver a canção de MPB na versão - que lhes soa "definitiva" - do ídolo neo-brega da ocasião.

Portanto, não houve a qualidade artística esperada, porque tudo soa forçado e muito técnico. Ídolos neo-bregas veteranos acabam soando como calouros de reality show, parece que estão interpretando uma música pela primeira vez. E, como expressão artística, o fracasso é certo, apesar do aparente sucesso comercial que isso possa causar, porque se torna uma performance oca, superficial e tendenciosa.

Não há como esperar que o abismo que separa a MPB mais renomada e o brega mais "coitadinho" se resolva tão somente juntando forçadamente uns e outros. O que se precisa é de uma MPB autêntica que fale com o povo, sem se tornar escrava da mídia e do mercado, unindo qualidade artística e apelo popular, para assim poder atingir o público de forma verdadeira, honesta e criativa.

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