quinta-feira, 20 de junho de 2013

O "BOM PRECONCEITO" EM FAVOR DO "MAU GOSTO"

NA CRACOLÂNDIA, EXISTE POBRE E GENTE DO POVO. SERÁ QUE A INTELECTUALIDADE ACHA QUE O POVO DAÍ É FELIZ?

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante e seus seguidores se dizem "sem preconceitos", "contra o elitismo" e tentam dar a impressão de que representam a fina flor do pensamento progressista da cultura popular. No entanto, mostram sérios preconceitos sociais que nenhuma argumentação engenhosa consegue esconder por completo.

Em vários fóruns de Internet, em especial aqueles que se dedicam ao "funk carioca" e outros aspectos da degradação sócio-cultural brasileira, como a vulgaridade feminina, é estarrecedora a defesa das pessoas para que tudo fique como está, ou seja, que primeiro apoiemos essa degradação, fingindo que ela não existe, para depois as elites intelectuais "salvarem" o "mau gosto" através de sua cosmética pós-moderna.

Quando se fala, por exemplo, da vulgaridade das mulheres-objeto relacionada ao "funk carioca" ou a outras "boazudas", a reação da intelligentzia é assustadora. Mesmo mulheres tentam atribuir a esse processo um feminismo que não existe, como se o machismo estivesse na mente de quem critica essas mulheres que nada tem a dizer e só vivem de mostrar seus corpos.

Mesmo o suposto ativismo das "boazudas", ou atitudes bastante tendenciosas como posar ao lado de travestis estereotipados, é vinculado à sua imagem "sensual", assim como outros contextos como fazer trocadilho com outros fatos e situações, sem falar da associação com o futebol ou trocadilhos com carros e até com detalhes como o fato da empresa do falecido Steve Jobs se chamar Apple ("maçã", em inglês).

Mas isso pouco importa para os ativistas de ocasião, porque essas pessoas usam como escudo o pretexto do "popular" e do "pobre" que permite qualquer baixaria. "É o que o povo gosta, é o que o povo sabe fazer", diz orgulhosa a elite intelectual influente.

PRECONCEITO ÀS AVESSAS

Mesmo as mulheres que se inserem nessa linha de pensamento pró-brega insistem em dizer que as "boazudas" são "feministas". No Diário do Centro do Mundo, uma internauta escreveu, em defesa do programa "Esquenta", que as "popozudas" acusadas de serem indignas de virarem capa de Cláudia e Marie Claire eram "contrárias" à estética machista das revistas.

Tudo bem que revistas como essas criam uma manipulação ideológica que faz da mulher emancipada sujeita à subordinação a seu marido, transformando-a numa mera serviçal da satisfação masculina. Mas nem por isso as chamadas "popozudas" estão imunes ao machismo, muito pelo contrário, elas são muito mais ligadas ideologicamente ao desejo masculino do que se imagina.

Afinal, se a emancipada imaginada pelos editores e editoras de Cláudia e Marie Claire tem que se subordinar a seus maridos, por outro lado as mulheres vulgares idolatradas pelas periferias e tidas como "ideal de vida" para as jovens pobres que usam shortinho e deixam as pernas peludas, mesmo se passando por "emancipadas", também se submetem, de uma forma ou de outra, ao desejo masculino.

É um preconceito às avessas, um elitismo pelo sentido inverso. O que é relacionado ao mundo dos ricos é necessariamente ruim, e se seu equivalente é associado ao mundo dos pobres, então isso é visto de forma positiva por seus ideólogos e seguidores.

Se Gisele Bündchen faz papel de mulher-objeto em comercial de lingerie, ela é "ruim", está submetida a uma concepção ideológica que o machismo faz da mulher. Mas se a "mulher-fruta" faz exatamente a mesma coisa, a intelectualidade que "xingou" Gisele muda o discurso, dizendo que a "boazuda" foi "provocativa", "divertida", "brincou" com os estereótipos moralistas da sociedade etc.

A intelectualidade dominante tenta dar a falsa impressão de que "pobre" e "popular" são termos em que se permite tudo. Como se fosse um inferno visto como se fosse um paraíso, onde os valores de degradação sócio-cultural são encarados como se fossem um "outro sentido de moderno", glamourizados numa complacência intelectual que em nada contribui para melhorar a vida dos pobres.

Aí eu fico imaginando o caso dos redutos de consumo de crack, a perigosa droga que acaba rapidamente com a vida de uma pessoa. Será que a cracolância é um "paraíso"? Será que os consumidores de crack são "felizes", porque são "povo" e "pobres", porque é "isso que gostam e que sabem fazer"?

Será que os "ativistas" daquilo que entendem como "cultura popular" desejariam viver em cracolândias? E que projeto de melhoria defendem, se eles veem qualquer crítica à mediocrização sócio-cultural como "preconceito"? E que "feminismo" é esse que segue a cartilha de um machismo que as "popozudas" apenas fingem que odeiam, mas do qual se divertem com muito orgulho?

São apenas algumas das inúmeras questões acerca da complacência intelectual com o chamado "mau gosto popular". Orgulhosos de defender a "baixa cultura" como se fosse uma suposta rebelião popular, os intelectuais dominantes demonstram que, do contrário que dizem, são tomados de muitos preconceitos contra o povo pobre. São apenas "bons preconceitos", gentis, paternais, cordiais. Mas são, acima de tudo, preconceitos, expressões do mais escancarado elitismo social.

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