quinta-feira, 13 de junho de 2013

INTELECTUALIDADE DOMINANTE INSISTE EM FOLCLORIZAR O "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante, apavorada com as manifestações de repúdio ao "funk carioca", insiste no já repetitivo discurso apologético ao gênero, mantendo os mesmos clichês de "preconceito" ou "expressão das periferias", a mesma choradeira que já começa a cansar a paciência dos leitores.

No excelente blogue Diário do Centro do Mundo, no entanto, um texto sobre a medida de proibição de "bailes funk" nas ruas e em locais públicos como postos de gasolina, publicado dias atrás e feito pela colaboradora Alice Riff, destoa da boa análise da "cultura de massa" para fazer um discurso apelativo para a aqeitação condescendente ao gênero que faz os jovens das favelas ficarem reféns de sua própria pobreza.

Pelas informações que colhi no Google, Alice Riff, que é cineasta, é ligada ao Coletivo Fora do Eixo, espécie de "Instituto Millenium" do ativismo social e que adota uma visão neoliberal de "cultura popular" dentro dos moldes do "negócio aberto" de George Soros, além de ter apoiado, "na surdina", a blogueira cubana Yoani Sanchez, queridinha dos barões da grande mídia.

Riff, aparentemente, questiona o rigor das medidas de proibição dos "bailes funk" e da poluição sonora envolvendo o gênero em eventos a céu aberto nas ruas, durante a noite e a madrugada. Mas, por entre seus parágrafos, a cineasta faz uma propaganda subentendida do "funk ostentação", espécie de variante paulista do "funk carioca" que importou temas de riqueza e poder típicos do gangsta rap norte-americano.

Reforçando o discurso "folclorizador" de um mero ritmo dançante comercial que é o "funk", Alice tenta fazer os típicos argumentos clichês que envolvem o gênero, como neste exemplo: "Depois de proibir os bailes, chegou a vez de São Paulo vetar o som alto nos carros — e a vítima é a cultura popular".

Não, não é a cultura popular a vítima da repressão policial. A cultura popular já é vítima do "funk carioca", porque hoje cultura popular perdeu seus laços sociais, perdeu seus vínculos comunitários, hoje as comunidades estão "unidas" e "vinculadas" ao poder midiático. Se o "funk" faz sucesso nas periferias, foi por uma decisão "de cima", principalmente pelo poder da grande mídia.

Não dá para falar em questão de gosto ou não, porque, dentro do contexto do poder midiático, o gosto popular é construído artificialmente pela persuasão midiática. Gosta-se de "funk", de tecnobrega, "sertanejo" etc porque a mídia cria uma campanha para isso, associando a mediocrização sócio-cultural a um mito de prosperidade e espontaneidade que não existem. "Gosta-se" de tudo isso como se gosta de um sabão em pó da marca X, por exemplo.

Será preciso dizer um milhão de vezes que esse discurso "socializante" do "funk carioca", defendido em uma retórica chorosa e apelativa pela intelectualidade dominante, foi construído pelas Organizações Globo e pela Folha de São Paulo? Até mesmo a mentirosa ideia de "marginalizado pela mídia" atribuída ao "funk" foi também construída por esses veículos do poder midiático.

Paciência. Boa parte dessa intelectualidade "progressista" era vinculada, nos anos 90, às leituras da Folha de São Paulo e à audiência da Rede Globo. Se hoje seus cineastas, acadêmicos e jornalistas se envergonham desse passado, paciência. O que é estranho é gente ligada a uma visão neoliberal da cultura achar que faz socialismo apoiando "funk carioca", tecnobrega, É O Tchan, Leandro Lehart, Waldick Soriano etc.

 Talvez, para a intelectualidade, manter a poluição sonora do "funk carioca" nas ruas e locais públicos possa resolver todos os seus problemas, que são a reação da sociedade contra a mediocrização cultural manifesta por esse ritmo. A cultura popular é que é prejudicada, e prejudicada em dobro, uma vez que ela, além de ser refém do "funk", é refém do paternalismo de intelectuais, artistas e ativistas que defendem o ritmo.

REVISTA VEJA FEZ COBERTURA POSITIVA SOBRE O "FUNK OSTENTAÇÃO"

A revista Veja, na sua publicação regional Veja São Paulo - produzida no "olho do furacão", que é a cidade-sede da revista-mãe - , fez uma reportagem bastante elogiosa em fevereiro passado para promover o "funk ostentação", cujo destaque são sucessos como "As Minas do Kit", de MC Nego Blue, e "Bonde da Juju", de Backdi e Bio G3.

Se quando tenta fazer protesto, o "funk" comete sérios equívocos - como é o caso de "Rap da Felicidade" e "Rap das Armas", gravados pelos cariocas MC Cidinho e MC Doca - , que resultam numa apologia à pobreza, no "funk ostentação" a situação piora quando o narcisismo do gangsta rap é importado para reforçar o já latente narcisismo dos funqueiros em geral.

Afinal, trata-se apenas de uma exaltação da riqueza e do poder material, assim como existe, nas letras das "musas" funqueiras, valores associados às mulheres interesseiras. O "funk" só quer consumo, só quer mercado, não está aí para a cidadania nem para a regulação midiática, embora se beneficie por essa blindagem intelectual que promove toda a choradeira em favor do ritmo.

Veja geralmente condena tudo e todos e investe na desmoralização dos movimentos sociais. E por que então apoia o "funk carioca"? Porque o "funk" segue as regras do mercado, da livre iniciativa econômica, não é um ritmo que apavore o poder midiático, que se alimenta até mesmo de sua postura "polêmica", alternando coberturas policiais com a choradeira intelectual que conhecemos.

Portanto, o "funk" não é demonizado. Ele mesmo envolve valores que vão da glamourização da pobreza à "carnavalização" do machismo. O discurso "libertário" que a intelectualidade faz ao gênero é tendencioso e falso, e soa demasiado marqueteiro para promover um mero ritmo dançante e comercial, e só carrega o ritmo de toda uma retórica "cabeça", pseudo-ativista e pretensiosa que não chega ao lugar algum.

Se o "funk carioca" não tivesse essa carga toda de pretenso movimento social nem esse discurso pretensamente ativista, talvez teria menos problemas. Só que o discurso intelectualoide aumenta ainda mais o poder do "funk" e promove a arrogância dos funqueiros.

Se não tivesse esse discurso "ativista", o "funk carioca" talvez estivesse mais feliz nos espaços que são próprios a ele. A retórica "ativista" e as pretensões de "movimento social" só estragam o "funk", tornando-o hegemônico, aumentando sua poluição sonora e empurrando o gênero para outras reservas de mercado, sufocando as demais manifestações de fato culturais.

O discurso intelectualoide em defesa do "funk carioca" é que está vitimando drasticamente a cultura popular.

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