terça-feira, 4 de junho de 2013

INTELECTUALIDADE, "CULTURA DE MASSA" E ELITISMO

FORA DO EIXO "NAMORA" A "MÁFIA DO DENDÊ" - Exemplo da "boa esquerda" que garante o sono dos barões da grande mídia.

Por Alexandre Figueiredo

Há um sério equívoco nas esquerdas em ter o "coração mole" para certas tendências. Existem as esquerdas sérias, que na sua rede de relações sociais incluem as chamadas "esquerdas médias", de pensamento mais "flexível" (leia-se menos contestatório ao establishment midiático).

Por sua vez, as esquerdas médias acabam acolhendo um pensamento de centro-direita relacionado à cultura popular, criando uma noção de "diversidade cultural" que está mais próxima da de "livre mercado" na Economia neoliberal e de "liberdade de expressão" na imprensa mais reacionária.

O que faz a diferença é que o discurso cultural de centro-direita tenta ser inserido nas esquerdas com uma eficácia que, infelizmente, se observa em muitos analistas. Afinal, o discurso gira em torno da palavra "popular" e, em vez de ser adotado o habitual mau humor de jornalistas políticos, economistas e executivos, tenta-se uma abordagem "positiva" da "realidade" das periferias.

O "popular" acaba sendo um depositário "positivo" de tudo de ruim que aparece na sociedade mais instruída. São aspectos socialmente negativos que, jogados no contexto midiático das "periferias", são considerados "qualidades positivas", para os quais nós até não somos obrigados a gostar ou não gostar, mas somos "aconselhados" a respeitar e não questionar.

E por que esse discurso, claramente neoliberal, está sendo difundido de forma aparentemente bem sucedida na agenda temática do pensamento progressista, mesmo observando que, na "cultura popular" apreciada oficialmente, nota-se uma clara degradação sócio-cultural que em nenhum momento ameaça os interesses dos chefões da grande mídia, muito pelo contrário?

FORMAÇÃO ELITISTA

Cineastas, antropólogos, historiadores, sociólogos, músicos, atores, jornalistas culturais, entre outras personalidades, tentam criar um verniz "progressista" na defesa de "expressões" ligadas ao brega-popularesco, desde o brega "de raiz" de Waldick Soriano e Odair José até o "funk carioca" que agora cria um derivado paulista chamado "funk ostentação" ao lado do "funk bonitinho" de MC Naldo e MC Anitta.

O discurso, embora confuso e contraditório, é tão sofisticado e persuasivo que aparentemente cria-se um consenso na opinião pública de esquerda que investe até mesmo num "dirigismo cultural" que já determina o que deve ser apreciado sob o rótulo de "vanguarda cultural".

O "funk carioca" é o carro-chefe dessa choradeira discursiva de fazer o Merval Pereira ficar babando, incapaz ele de influir tanto na opinião da sociedade. Mas nossa intelligentzia também investe seu dirigismo "aconselhando-nos" a apreciar, agora sob o rótulo de "vanguarda", nomes da retaguarda musical como Luiz Caldas, Raça Negra, Leandro Lehart, Odair José e o que vier a reboque.

Eles juram que é "liberdade", mas está claro que se trata de um dirigismo cultural, uma forma maoísta de adotar um discurso neoliberal, já que, como havia prevenido o jornalista Ricardo Alexandre no seu livro Dias de Luta, é um discurso de esquerda defendendo ideias de direita.

E se isso faz um efeito aparentemente satisfatório, é porque o próprio background da intelectualidade que difunde esse discurso pró-brega nada tem de progressista. Eles só se tornaram "progressistas" depois que o operário Lula tornou-se presidente, mas sua herança ideológica é claramente influenciada por Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e outros "gurus" do pensamento neoliberal.

A defesa do brega-popularesco, do brega "de raiz" ao "funk", passando por outros estilos também marcados pela mediocrização artístico-cultural - junto a tendências fora da música, como as chamadas "popozudas" e a imprensa policialesca - se dá, claramente, por uma simbiose entre o pensamento neoliberal de FHC e a banalização das ideias pós-tropicalistas de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Os dois tropicalistas, convertidos num "esquemão" que é chamado pelo jornalista Álvaro Pereira Júnior de "establishment caetânico" e pelo também jornalista Cláudio Júlio Tognoli de "máfia do dendê", distorceram o debate da "geleia geral" - a junção de tudo que há de bom ou ruim na cultura para promover um debate crítico da sociedade contemporânea - reduzindo-a na exposição gratuita e acrítica de "tudo de tudo".

O pós-tropicalismo, da maneira que foi feito por esse "esquemão", reduz a "geleia geral" a uma mera apreciação passiva da "cultura de massa", numa dicotomia de "bom gosto" e "mau gosto" sem conflitos. Caetano virou claramente neoliberal, mas um Gilberto Gil que foi capaz de fazer "Punk da Periferia" (espécie de "Aquarela do Brasil" dos emos) também não está longe disso, apesar da aparente posição "progressista".

Junte-se a isso com a Teoria da Dependência de FHC, que pregava um relativo "desenvolvimento sócio-econômico" que não ameacasse a hierarquia geopolítica das grandes potências industriais, e temos uma cultura "transbrasileira" com um nível de brasilidade caricato e um método subserviente de assimilar as influências estrangeiras do pop contemporâneo.

A "BOA ESQUERDA" QUE A DIREITA GOSTA

Vários desses intelectuais assumidamente usam a mídia direitista como "canal" para suas ideias, como Hermano Vianna, nas Organizações Globo, Ronaldo Lemos, na Globo News e no Estadão, as generosas inserções de Paulo César Araújo como entrevistado na mídia reacionária e a surpreendente generosidade da revista Veja em acolher tudo que é brega, até funqueiros e tecnobregas.

Outros, porém, tentam "vender o peixe" na mídia esquerdista, de uma forma até menos tranquila do que na mídia direitista. Para defender o "funk carioca", por exemplo, uma "panela" de intelectuais, de músicos a antropólogos, de cineastas documentaristas a jornalistas culturais, sabe do grande risco que é produzir tensões na opinião pública com suas posturas apologéticas.

Se fosse num Caldeirão do Huck, no Domingão do Faustão, ou nos corredores do Instituto Millenium, a tensão era inexistente. A apologia do "funk carioca" que certos pretensos progressistas fazem já foi feita "n" vezes pela Folha de São Paulo, já na sua fase histericamente tucana. O neocon Lobão fala mal de tudo e de todos, mas se consola com a defesa apaixonada ao "funk carioca", com a mesma choradeira de sempre.

A intelectualidade dominante está em boa parte associada ao Coletivo Fora do Eixo, uma rede de instituições e pessoas ligadas a produções culturais, ONGs, promoção de eventos, pesquisas acadêmicas etc, que se pressupõe ser a "boa esquerda" a servir de "modelo" para a sociedade.

No entanto, o Coletivo Fora do Eixo se comporta como sendo o "Instituto Millenium" do ativismo social, inclusive cortejando com dois cineastas ligados ao "imil", como Duda Galvão, responsável por um documentário sobre a queridinha da direita, a cubana Yoani Sanchez, e José Padilha, que "redescobriu" e apadrinhou o dito "funk de raiz" de MC Leonardo e companhia.

Pior. O FdE demonstra ter as mesmas ideias das chamadas "novas mídias digitais" e do "novo mercado" cultural brasileiro baseado em princípios de "informalidade econômica" e "tecnocracia administrativa" originários da teoria do "negócio aberto" do empresário e dublê de ativista social George Soros, um dos astros do Fórum Econômico Mundial.

ELITISMO

Mas, independente dessa associação soturna da intelectualidade pseudo-esquerdista, a própria formação de classe média dessa intelectualidade "de esquerda" - mas que, vez por outra, esculhamba as "patrulhas" culturais esquerdistas, numa "urubologia" estranha a sua aparente postura - envolve uma educação elitista que a faz ver as classes populares de forma "gentilmente" paternalista.

Paciência. A documentarista tal tem que pagar diaristas para fazer a faxina da casa, numa relação hierárquica não muito diferente que as diaristas têm das socialites, por exemplo. O jornalista cultural tal tem empregadas domésticas em sua casa e paga salários para elas. E eles sofrem o mesmo temor elitista que as classes dominantes possuem em relação às classes populares.

Há um medo, até mesmo nessa intelectualidade, que o povo pobre faça passeatas por conta própria, exigindo reforma agrária, regulação da mídia, melhores condições de vida, e, acima de tudo, melhor cultura. Há um medo elitista até da empregada doméstica se identificar com a aparência negra ou índia de gente como Itamar Assumpção e Jackson do Pandeiro e furtar aqueles raros CDs que só a intelligentzia possui em suas coleções. Parece paranoia, mas esse medo existe, sim.

A formação social é conservadora. Gente que viu televisão durante a ditadura militar e, na infância, aprendeu valores próprios do "milagre brasileiro", apenas suavemente diluídos e dissimulados por um tardio aprendizado do que pensam as esquerdas nas faculdades e entidades sindicais ou ativistas nos anos 80.

No entanto, essa intelectualidade que defende brega, "funk carioca" e impõe um status "vanguardista" a nomes como Leandro Lehart, Luís Caldas e até Michael Sullivan (!) aprendeu uma concepção de "cultura popular" e "diversidade cultural" com o pensamento que Fernando Henrique Cardoso difundiu nas faculdades, a princípio meramente econômico, mas depois adaptado às demais áreas do conhecimento.

É esse background que envergonha a nossa intelligentzia. "É um absurdo, eu nunca tive vínculo com a linha de pensamento de FHC", costumam dizer esses intelectuais. Mas seguir as lições está muito acima de dizer se gostam ou não gostam dos mestres.

Afinal, eles mesmos que adoram dizer que "gostem ou não gostem, o 'funk' e o brega têm valor" deveriam reconhecer que, gostando ou não gostando de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama, George Soros e outros "gurus" do neoliberalismo ideológico, esses intelectuais desenvolveram sua linha de pensamento exatamente nessas figuras. A prática diz muito mais do que mil teorias que tentem desmenti-las.

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