quinta-feira, 20 de junho de 2013

INTELECTUAIS DE HOJE SÃO OS "GILBERTOS FREYRES" PÓS-TROPICALISTAS


Por Alexandre Figueiredo

Estou lendo o livro Ideologia da Cultura Brasileira, de Carlos Guilherme Mota, que conta o histórico da intelectualidade brasileira, entre 1933 e 1974, e seu processo de formação da ideologia da cultura brasileira em suas diversas correntes.

Evidentemente a publicação para em 1974, auge do período ditatorial e ponto de partida para uma mudança de orientação no pensamento neoliberal, flexibilizando paradigmas intelectuais antes ligados a pensadores como Eugênio Gudin, Roberto Campos e outros. 

Era a época de ascensão intelectual de Fernando Henrique Cardoso através das obras que ele havia lançado sobretudo de 1967 em diante, tempo em que o hoje ex-presidente da República havia desenvolvido um pensamento neoliberal que distanciou de um semi-esquerdismo das obras anteriores, na medida em que FHC passava a ser, também, patrocinado pela Fundação Ford.

Atualmente temos a supremacia de uma intelectualidade resultante desse cenário, numa fase evidentemente sem algum trabalho de estudo quesitonativo. O que se vê, em relação a ideólogos nascidos da fusão das ideias de FHC com o liberalismo pós-tropicalista que Caetano Veloso e Gilberto Gil, chegados de Londres, difundiram nos anos 70, é um endeusamento, uma tietagem que antes havia contagiado os próprios líderes pós-tropicalistas.

É evidente que nomes como Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e Pedro Alexandre Sanches e, em caráter regional, Eugênio Arantes Raggi, Milton Moura e Roberto Albergaria, se formaram exatamente nas ideias de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 90. O fator Lula, eleito em 2002, criou nesses intelectuais uma vergonha em assumir o antigo vínculo com FHC, mas ele continua existindo através da herança de ideias.

Na verdade, o que se nota é também a herança de um método de abordagem social que vem de tempos atrás, a partir de Gilberto Freyre. Notável escritor, ele foi autor do famoso livro Casa Grande & Senzala, que se baseia numa tese de que a aparente democracia racial no Brasil se deu sem sérios conflitos de classes, minimizando a influência das classes dominantes no condicionamento ideológico das classes populares, inferiorizadas pelas pressões de ordem sócio-econômica e política.

É justamente isso que orienta a intelectualidade dominante de hoje. Se Gilberto Freyre, um "moderno conservador", falava de uma formação das classes populares sem grandes conflitos com o poder dominante, subestimando as gritantes desigualdades sociais já percebidas, mesmo depois da Abolição, a intelectualidade de hoje faz o mesmo na chamada "cultura das periferias".

Da mesma forma que Freyre, a intelectualidade de hoje descreve uma "cultura de massa" supostamente desprovida de conflitos de classes, que, se admitidos pela retórica intelectual, são vistos como fatores menores e de fácil superação, como é o caso do poder midiático.

Sem dizer, por definitivo, se a associação de tendências popularescas com a grande mídia é fruto de uma suposta invasão popular na mídia - o "povo" invadindo a "mídia" - ou uma suposta apropriação da grande mídia - a "mídia" absorvendo as "periferias" - , a intelectualidade tenta dizer que o brega-popularesco não tem a ver com o poder midiático.

Esse discurso, engenhoso, sofisticado e persuasivo, no entanto é de argumentação confusa que só a memória curta comum no Brasil pode garantir. Até mesmo as concessões politiqueiras de rádio e TV por Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, dois oligarcas então no poder nos anos 80, são praticamente ignoradas pelo discurso intelectualoide vigente.

São essas concessões que criaram condições para essa hegemonia do "mau gosto" resultante, explicitamente, da distorção da cultura popular trabalhada pelos barões da mídia das capitais e pelos "coronéis" midiáticos do interior do país. Mas até mesmo o poderio deles, que mandam pistoleiros matarem agricultores, "desaparece" no discurso da intelectualidade dominante atual.

Criam-se "dois Brasis", um em que os conflitos de classes ocorrem, sobretudo de forma sangrenta, e outro em que o entretenimento das "periferias" acontece "na mais santa paz". O primeiro "Brasil" é descrito por analistas progressistas sérios, o segundo pela intelectualidade que defende a breguice ideológica hegemônica no lazer dos brasileiros.

Assim como Gilberto Freyre subestimou o Brasil coronelista que se formava depois da Guerra do Paraguai, através da "militarização" dos proprietários de terras, num país de incipiente formação das Forças Armadas, a intelectualidade de hoje ignora o coronelismo cultural que investe no brega-popularesco para domesticar e tentar anestesiar as classes populares.

No "maravilhoso" mundo do brega-popularesco, existem até mesmo a precarização de trabalho, as irregularidades na política de direitos autorais disfarçadas pelo ideal "positivo" do "copyleft", além de valores machistas, racistas e até mesmo ligados ao banditismo que alimentam ideologicamente as áreas pobres das roças e dos subúrbios brasileiros.

Isso sem falar do "povo feliz" exaltado pelos ideólogos do brega, com idosos o tempo todo se embriagando, as mulheres pobres a vida toda vendendo sexo com a prostituição, jovens pobres eternamente no comércio informal, no subemprego, na venda de produtos contrabandeados. E a intelectualidade achando que o povo pobre deveria permanecer assim, porque é "mais feliz".

Gilberto Freyre viveu num contexto em que a República Velha ainda influenciava ideologicamente a sociedade. A crise se notava nos anos 1910 e 1920, mas a herança ideológica ainda permanecia, de tal forma que aqueles que se frustraram com o triunfo da Revolução de 1930 feita por Getúlio Vargas se consolaram com a solidária revolta que sentiam pelo arbítrio do Estado Novo.

Se Gilberto Freyre era um "filho" da República Velha, os intelectuais de hoje são "filhos de FHC". Só que nossos intelectuais são um tanto ingratos com a herança de FHC, e vivem espalhando que "odeiam/detestam" todos os símbolos e ícones desse neoliberalismo ideológico: FHC, PSDB, Globo, Folha, Estadão etc.

Mas o problema não é "odiar/detestar", se a herança mantém o vínculo espiritual. A intelectualidade dominante de hoje não só mantém esse vínculo como mantém um compromisso histórico com as ideologias oligárquicas que disfarça os conflitos sociais existentes, e que no passado inspiraram as obras de gente como Gilberto Freyre. A intelligentzia de hoje é dotada de "Gilbertos Freyres" pós-tropicalistas.

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