segunda-feira, 24 de junho de 2013

INTELECTUAIS DA MODA NÃO SUPORTAM VER POBRE FAZENDO MPB DE VERDADE

COMO UM EXTRA-TERRESTRE - É assim que a intelectualidade etnocêntrica vê um pobre quando ele faz cultura de qualidade.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante de hoje prega a hegemonia do "mau gosto" na cultura popular. As classes mais abastadas é que se adaptem ao "mau gosto", o povo pobre é desaconselhado a melhorar sua cultura e superar a cafonice e o grotesco reinantes.

Isso é o que querem os intelectuais ditos "tarimbados", considerados "irretocáveis" e aparentemente imunes a qualquer questionamento que os desqualifique como pretensos formadores de opinião. Para eles, a degradação social é a única forma viável de "expressão" para a população pobre, e qualquer desejo de melhoria e superação da cafonice é vista como "higienismo" ou "elitismo".

Essa visão é tão evidente que a intelectualidade quer que primeiro sejamos obrigados a aceitar esse "mau gosto" e conformarmos a ver bregas e artistas de MPB aparecendo juntos nas fotos, os primeiros como "mascotes" dos segundos, tal qual indígenas posando ao lado dos grandes navegadores no século XVI.

Tenhamos que aceitar tudo isso, e esperar que a intelligentzia "ensine" aos bregas fórmulas acessíveis da MPB pasteurizada, tida como a "consagração" e a "salvação" da carreira dos ídolos bregas. Ou então, promover um apresentador policialesco a um "novo Chacrinha" de ocasião, ou uma "boazuda" sendo "orientada" a imitar algum ícone da sensualidade clássica, seja Marilyn Monroe ou Leila Diniz.

Fora dessa "melhoria cultural" orientada e sustentada pelas elites intelectuais e pelo mercado e mídia dominantes, não existe chance de emancipação sócio-cultural do povo pobre, que já sofre em tomar como sua uma pseudo-cultura pasteurizada, domesticada, estereotipada e caricata, que se distancia, na essência, das tradicionais expressões genuínas da cultura popular brasileira.

O povo pobre é obrigado a apreciar, hoje, falsos sambas, falsas músicas caipiras, um "forró eletrônico" sem pé e nem cabeça que mistura tão somente country music, disco music e ritmos caribenhos, sem expressar qualquer regionalidade nordestina. E as favelas das cidades urbanas são praticamente reféns da imbecilização cultural do "funk carioca" e seu poderoso lobby de intelectuais, celebridades e políticos.

Refém de uma pseudo-cultura midiática, oficialmente tida como "popular", as classes populares não podem ter a liberdade artística de outrora. Hoje a chamada "cultura popular" - cinicamente defendida pela intelectualidade sob rótulos pretensiosos como "verdadeira cultura popular" ou "cultura com P maiúsculo" - é praticamente controlada pela grande mídia e pelas chamadas empresas de entretenimento (casas noturnas, agências de famosos, gravadoras etc).

ELITES "ISOLAM" OU "PASTEURIZAM" O ARTISTA DAS CLASSES POPULARES

Quando surge alguém, nas classes populares, fazendo alguma cultura de qualidade, as elites vão logo correndo para cortejá-lo de forma paternalista e devolvê-los ao "gosto popular" sob a tutela e a promoção da grande mídia, sem romper com o contexto popularesco dominante.

Foi o caso de Seu Jorge, o artista popular de talento refinado que havia cantado o tema da novela da Rede Globo, Salve Jorge. De origem humilde, Seu Jorge tinha muito conhecimento de sambalanço, experimentado desde os tempos em que ele era vocalista do grupo Farofa Carioca, nos anos 90.

Já com considerável carreira solo, ele custou a atingir o grande público devido às manobras da grande mídia, que dificultam o acesso do grande público à MPB autêntica - que, quando muito, aparece no "gosto popular" de maneira secundária - , e nessa época Seu Jorge chegou até mesmo a gravar um disco com versões de músicas de David Bowie, aprovadas depois pelo próprio roqueiro inglês.

Seu Jorge só começou a ser liberado para o sucesso popular quando foi jogado para um dueto com o ídolo do sambrega Alexandre Pires, na música tendenciosamente intitulada "Eu Sou o Samba" (homônima ao clássico de Zé Kéti), quando o sambrega ou o "pagode romântico" descobriu, tardiamente, a mina de ouro do sambalanço a partir dos tributos a Wilson Simonal, uma das influências de Seu Jorge.

Outra cantora popular, Mart'nália, filha do sambista Martinho da Vila, um dos mestres do gênero, também foi vítima do apadrinhamento das elites e da grande mídia. A cantora, cujo estilo é bem próximo da veterana Elza Soares, só tornou-se acessível ao "gosto popular" depois que passou a ser "adotada" por celebridades televisivas e aparecer em trilhas sonoras de novelas da Globo.

Foi por esse apadrinhamento que as elites intelectuais passaram a entender o artista popular brasileiro como um "extraterrestre" que precisa ser retirado do convívio popular e só ser devolvido a ele depois de um "tratamento midiático", num contexto em que o normal é que os baiões nordestinos sejam feitos primordialmente por elites juvenis residentes na Zona Sul de Curitiba ou Porto Alegre.

Fora essa condição do artista popular "domado" pela grande mídia, a postura da "boa sociedade" e dos "renomados" intelectuais é do elitismo mais doentio, do mais cruel preconceito que parte de uma elite dita "sem qualquer tipo de preconceito".

Um exemplo. Se as favelas cariocas passam a fazer, novamente, o samba como se era feito pelo menos até cerca de 1965 (época em que surgiram artistas como Paulinho da Viola e Martinho da Viola, mestres remanescentes do gênero), as elites intelectuais de hoje, preconceituosamente "sem preconceitos", classificam o processo como "elitismo", "saudosismo" ou, pasmem, "higienismo social".

O mesmo ocorre com a música nordestina. Se um pobre do interior de Pernambuco faz um baião como Luiz Gonzaga ou um maracatu como Jackson do Pandeiro, é considerado "elitista" e "academicista". "Missões" como fazer o som desses artistas, hoje, só são atribuídas oficialmente para rapazes de classes abastadas que vivem nas capitais do Sul e Sudeste.

Segundo a intelectualidade, pobre quando quer fazer música nordestina é "aconselhado" a fazer uma sonoridade mais "moderna, atual e urbana", dentro de um pastiche gosmento que mistura country, disco music e ritmos caribenhos, quando muito com o som do acordeon herdado da canção gaúcha. Ou seja, uma música nordestina que nada tem de nordestino. Mas a intelectualidade dá um jeito, definindo esse som sem pé nem cabeça como "linguagem universal"...

Até a palavra "pop" tornou-se uma desculpa para permitir a degradação sócio-cultural defendida pela intelectualidade. Pop é, nos EUA, um paradigma de canção comercial sem qualquer vínculo com valores artísticos e sócio-culturais, mas no Brasil é encarado como um termo "mágico" supostamente atribuído a uma rebeldia dotada de uma mensagem "acessível" e um apelo "popular".

Isso quer dizer que a intelectualidade dominante não quer que o povo pobre faça MPB. Quer que faça "pop brasileiro", o que é uma diferença enorme, para menos. Afinal, o que os intelectuais querem é que o povo pobre seja domesticado por uma música comercial e medíocre, enquanto o rico patrimônio cultural é usurpado pelas elites "especializadas" para seu usufruto privativo. Para nossa intelligentzia, o povo é somente um detalhe.

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