sábado, 29 de junho de 2013

"FUNK OSTENTAÇÃO" E DIRIGISMO IDEOLÓGICO DA 'INTELLIGENTZIA'

MC DEDÉ, GUI E BIO G3 - "Funk ostentação" também tem seus "lelekes".

Por Alexandre Figueiredo

O "funk ostentação" virou o tecnobrega da vez, no proselitismo ideológico que uma parcela da intelectualidade surgida nos porões acadêmicos do PSDB tenta fazer nas esquerdas médias, aquelas parcelas das esquerdas progressistas de posicionamento crítico menos firme.

Esse proselitismo tem uns oito anos. Veio em 2005, quando as esquerdas médias adotaram a choradeira pró-bregalização que os barões da grande mídia difundiram para prolongar a hegemonia brega que havia nos anos 90.

Era a época da biografia dramatizada Os Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira, e do documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, ambos patrocinados (o segundo, em caráter de divulgação) pela Globo Filmes. Era a época em que as esquerdas eram "convidadas" a aceitar até mesmo figuras direitistas como Odair José e Waldick Soriano.

Época de promover supostos coitadinhos vindos da breguice mais comercial, sobretudo empurrando às esquerdas a aceitação de nomes que estavam "de férias" no mainstream, começando pelos antigos ídolos cafonas "redescobertos" por Paulo César Araújo. Atualmente, nomes como Leandro Lehart, Luís Caldas e o grupo Raça Negra fazem parte do cardápio desse dirigismo ideológico.

No "prato principal", esse dirigismo no entanto tenta empurrar estilos "mais difíceis" do brega-popularesco. "Não é preciso gostar, mas tem que aceitar", é a norma dessa "ditabranda do mau gosto" que tenta frear o ímpeto contestatório das esquerdas aos problemas da cultura popular. E os proselitistas fazem isso sob uma generosa "gorjeta" da Fundação Ford, de George Soros etc.

Assim, em 2005 foi empurrado para a apreciação esquerdista o "funk carioca", que já estava sofrendo uma ampla campanha apologética feita em conjunto pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha. Toda a choradeira discursiva conhecida foi pregada sobretudo através de um lobby em que jornalistas patrocinados pela Globo ou vindos da Folha se aproveitavam para cooptar as esquerdas médias.

Em 2009, ocorreu com o tecnobrega do Pará, com a mesma choradeira que, no seu discurso, enfatizava o dado mentiroso de que o ritmo brega-popularesco (como no caso do "funk" quatro anos antes) era "discriminado pela grande mídia". A mesma grande mídia que mergulhava no mais entusiasmado apoio a esses estilos.

"ABRAÇO DA MÍDIA"

O que causa um choque na intelectualidade progressista é que a defesa desses ritmos brega-popularescos acaba se tornando mais entusiasmada na mídia direitista, enquanto antigos "queridinhos" passam a se envolver em surtos de algum reacionarismo.

Foi o caso, por exemplo, de Zezé di Camargo militando no "movimento" Cansei - não bastasse ele ter votado no ruralista Ronaldo Caiado para deputado federal - e, mais recentemente, de Joelma da Banda Calypso adotar uma posição homofóbica tão condenada pelos ativistas sociais.

Mas no que diz aos "ritmos do momento", o "funk carioca" já mostrou sua clara associação com o direitismo midiático, que vem desde 1990. E, naquele 2005, até mesmo o Casseta & Planeta, às vésperas do surto demotucano, havia criado os personagens MC Ferrow & MC Deu Mal para promover a "superioridade" dos astros do "funk" às custas de dois funqueiros fictícios atrapalhados.

Quatro anos depois, o tecnobrega causava choque nas esquerdas médias quando a revista Veja, que condenava tudo que era de interesse público, se derreteu por Gaby Amarantos, naquela mesma edição cuja capa "confrontava" duas frases de Dilma Rousseff, e que geraram várias paródias na mídia esquerdista.

Mais recentemente, o "funk ostentação", que é a resposta ao "funk carioca" por intérpretes paulistas, que adaptaram o estilo com elementos do gangsta rap norte-americano, também demonstrou que agrada, e muito, a grande mídia, com o total apoio dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e até mesmo do suplemento Veja São Paulo, feita no "olho do furacão" da reacionária revista.

"FUNK OSTENTAÇÃO" TEM PERFIL CONFUSO

O "funk ostentação" tenta reciclar o "funk carioca" feito no Rio de Janeiro com um discurso bem menos sutil e cada vez mais contraditório. Há uma grande diferença na pregação ideológica da cena paulistana em relação à carioca, que é bastante tendenciosa e hipócrita, mas bem articulada e com alguma "distribuição" retórica conforme o contexto.

Assim, o "funk" do Rio de Janeiro possui "variantes" enfatizadas no discurso de defesa conforme o contexto em que quer se inserir. Se o contexto envolve, por exemplo, times de futebol, há uma ênfase no "funk" mais comercial e suas "popozudas". Se o contexto é turístico, entram os DJs "de nome", tipo DJ Marlboro. Se é mais família, entra o "funk melody". Se é educacional, entra o "funk de raiz".

Já o "funk ostentação" não deixa isso claro. Seu discurso não consegue dissolver suas próprias contradições de acordo com o contexto. Sua temática é materialista, em exaltação aos bens de consumo mais caros, ao luxo e à extravagância, mas o ritmo tenta adotar uma retórica de "realidade das periferias" dentro de um pseudo-ativismo tendencioso e confuso.

Ou seja, em vez de jogar "popozudas" para o contexto do Carnaval e do futebol, lançar funqueiros "bacaninhas" para as salas de jantar das "boas famílias" e botar funqueiros "indignados" para fazer sua choradeira nas escolas públicas, tudo isso é misturado sem um claro contexto. O funqueiro que diz que é o máximo ter carro importado é o mesmo que jura ser "porta-voz" do protesto das periferias.

O grande problema, para as esquerdas médias, é que com essa situação, será muito mais fácil, mais do que nos casos do "funk" de  2005 e no tecnobrega de 2009, o "funk ostentação" receber o abraço mais apertado e caloroso dos barões da grande mídia.

E, a qualquer momento, eles entrarão no Caldeirão do Huck abraçado a Luciano Huck, amigo de Mr. Catra, de Aécio Neves e Eike Batista. Enquanto se repete o discurso choroso de uma inexistente "discriminação da grande mídia", o "funk ostentação" será "o caldeirão" nas festas dos barões da grande mídia e seus astros.

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