sexta-feira, 14 de junho de 2013

ESQUERDAS MÉDIAS NÃO QUEREM A SUPERAÇÃO DA POBREZA


Por Alexandre Figueiredo

Sair da pobreza é apenas ganhar mais dinheiro? A resposta é não. Em que pese o fato de que o dinheiro facilita a realização de muitos projetos e necessidades, sabe-se que não se financia a felicidade humana, mas se financiam as condições que possibilitem a satisfação de necessidades. O dinheiro, neste caso, é um meio e não um fim para isso.

As esquerdas médias, pela sua agenda temática e pelo melindre que possuem em não questionar os problemas que envolvem as classes populares, não querem que o povo supere de fato a sua pobreza. Querem apenas que haja uma pobreza melhor remunerada e dotada de proteção legal e institucional que mais minimizam a dor do que curam os verdadeiros problemas.

É o que se vê quando ativistas protestam contra o fim da campanha "Eu sou feliz sendo prostituta" ou quando eles chamam de "elitistas" aqueles que contestam a supremacia do "mau gosto" na chamada "cultura popular". A intelectualidade dominante estabelece a diretriz de um pensamento que é vendido sob o rótulo de "esquerda", mas é de um caráter neoliberal bastante paternalista e preconceituoso.

Não bastasse atribuir como se fossem "valores diferentes" os aspectos de degradação sócio-cultural das classes pobres, a intelectualidade acredita que basta chover dinheiro nas periferias para que elas tenham, por si só, qualidade de vida.

Esses intelectuais defendem como "feminismo" o circo machista das mulheres vulgares, tidas como "modelos de sucesso" para as jovens das periferias. Defendem formas estereotipadas e caricatas de cultura, de música, de comédia como se fosse "genuína cultura do povo", mas folclorizam até mesmo a ação paternalista da "imprensa popular", feita por gente de classe média que vê o povo pobre como um bando de idiotas.

Defendem o "mau gosto" como se fosse causa nobre, consentindo com a ideia preconceituosa de que o povo pobre "só é melhor" naquilo que ele tem de pior, ou seja, que o povo pobre seja culturalmente decadente e nós é que "devemos" jogar essa decadência por debaixo do tapete, como se essa decadência, que é fato, fosse vista equivocadamente como mero "juízo de valor".

Quando li, dias atrás que um grupo de ativistas negras protestou contra o fim da campanha "Eu sou feliz sendo prostituta", fiquei estarrecido. Talvez elas, por boa-fé, acham que a valorização da prostituição iria beneficiar as mulheres negras, apenas pelo fato delas serem maioria nessa "profissão", e que a campanha iria eliminar preconceitos sociais às mulheres pobres e negras.

Nada disso. A campanha não elimina tais preconceitos, apenas os reforça, na medida em que a prostituição, quando "institucionada" dessa forma, "prenderia" as mulheres pobres no comércio do corpo, o que nada tem a ver com valorização de pobres ou de negros. Antes fosse uma campanha que afirma como "permanente" uma situação que, na melhor das hipóteses, admite-se apenas como provisória.

Isso lembra 1904, quando a campanha pela vacinação obrigatória apoiada pelo médico Osvaldo Cruz, para erradicar doenças graves como a varíola, virou lei pelo Congresso Nacional, no Rio de Janeiro, então capital do país. O povo reagiu com fúria, com protestos violentos e confrontos com policiais, porque se recusava a receber os médicos das chamadas "brigadas sanitárias" que aplicariam as vacinas a domicílio.

Hoje aceita-se receber, se não esses vacinadores - hoje nós é que somos convocados para comparecer a postos de vacinação próximos de onde moramos - , pelo menos os funcionários que aplicam venenos para matar os mosquitos transmissores da dengue. Mas a postura das gerações atuais em recusar a superação da pobreza encontra seu atavismo correspondente à Revolta da Vacina em 1904.

Há uma corrente nas esquerdas médias que diz que "ser pobre é lindo". Não se mexe na cultura, não se mexe na música, não se mexe nas estruturas sociais que mostram um quadro de degradação social das classes populares. Premia-se a prostituição sindicalizando-a, presenteando as prostitutas com "rádio comunitária" tocando brega, enquanto elas ficam presas nos papéis que as elites determinam para elas.

Os segredos de "felicidade" trazidos pela ideologia brega difundida a partir de Paulo César Araújo revelam esse mito de que a pobreza é "linda", numa abordagem diferente, e bem pior, daquela que se atribuía aos "mais ideológicos" dos CPCs da UNE. Mulheres na prostituição, idosos no alcoolismo, jovens no comércio informal, será que tudo isso será resolvido por uma simples "injeção" de dinheiro?

A superação da pobreza não se dá pela simples injeção de dinheiro ou pela aceitação incondicional, mas acrítica, de tudo que ocorre atribuído ao povo pobre. O fim do preconceito não se dá quando se aceita a degradação sócio-cultural do povo pobre, a pretexto de sua aparente "felicidade".

Pelo contrário, essa aceitação dá margens aos piores preconceitos que as elites intelectuais tentam a todo custo esconder, e que nada trouxeram de melhorias para as classes populares. Uma coisa é ajudar o povo pobre a superar sua pobreza, outra coisa é contemplar essa pobreza como se fosse algo exótico e glamourizado.

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