terça-feira, 18 de junho de 2013

ESQUERDAS MÉDIAS NÃO CONSEGUEM CONTROLAR PROTESTOS DE RUA


Por Alexandre Figueiredo

Em 2011, tudo reinava na aparente paz no Brasil. Enquanto havia as chamadas "primaveras" no Oriente Médio e as "ocupações" nos EUA e na Europa, as esquerdas médias no Brasil sonhavam com a espetacularização do ativismo social, em que o entretenimento supostamente "provocativo" estava acima até mesmo de qualquer desejo de melhorias sociais.

Parecia que era ontem. As esquerdas médias, que tentavam reduzir o ímpeto das forças progressistas enquanto namoravam escondido a grande mídia, sonhavam em ver o Brasil reduzido às "marchas" de "vadias", "maconheiros" e drag queens estereotipadas - o único paradigma que as esquerdas médias tinham de homoafetivos - ou de "bailes funk" ao ar livre, sobretudo um Rio Parada Funk.

Essas esquerdas, que preferem apoiar um direitista cabisbaixo como o falecido Waldick Soriano a um esquerdista de cabeça erguida como Chico Buarque, que recebem mesada da Fundação Ford e de George Soros e que dizem "odiar/detestar" a grande mídia enquanto fazem amor com a Folha de São Paulo e a Rede Globo, tiveram seu sonho quebrado nos últimos dias.

Parafraseando o Casseta & Planeta - cujo membro Marcelo Madureira integra o Instituto Millenium mas cai de amores nos então queridinhos das esquerdas médias, a Banda Calypso (que "decepcionaram" com o surto homofóbico da "convertida" Joelma) - , as esquerdas médias (inclusive o Coletivo Fora do Eixo) não são ovo, mas ficaram chocadas com o impacto dos protestos de ruas por todo o país.

Pois esses protestos não colocavam o espetáculo acima das reivindicações, não eram as fraudes pseudo-ativistas sonhadas pelas esquerdas médias, mas genuínos protestos de rua em que até mesmo o corporativismo esquerdista era quebrado, porque eram pessoas progressistas sem medo de criticar Dilma Rousseff, Fernando Haddad e outros membros dos partidos de esquerda.

Também não era uma manifestação de tucanos contra a presidenta, até porque a Juventude do PSDB havia mandado um comunicado pedindo para seus membros não comparecerem aos protestos de rua em curso. E, além do mais, a presença humana nas ruas foi uma amostra de que nada substitui a iniciativa própria do ser humano, através do contato social e da presença pessoal nos ambientes reais de manifestação.

Isso também frustrou, neste sentido, mais uma obsessão das esquerdas médias, que era a de coisificar o ativismo social, transformando as novas mídias digitais não em instrumento ou - segundo a Teoria da Comunicação - em "canais" de manifestação social, mas em sujeitos.

Afinal, segundo os gurus dessas esquerdas médias (domadas por gente originária das centro-direitas dissidentes do tucanato político-acadêmico), como Ronaldo Lemos, Rosenthal Calmon Alves e quejandos, as novas mídias, e não os seres humanos, é que têm o potencial transformador da sociedade, as causas é que têm que se subordinar às novas tecnologias, dentro de um processo em que a visibilidade tem mais valor do que o conteúdo das ideias e causas apresentadas.

Pois o que ocorre é o contrário. As novas mídias tiveram apenas um papel menor de espaços de divulgação de protestos. Enquanto as esquerdas médias sonhavam em ver as novas mídias como protagonistas de movimentos ativistas, enquanto seres humanos eram apenas "cobaias" dos avanços tecnológicos, a realidade reduziu as novas mídias a "murais" modernos que convidavam pessoas para os protestos de ruas.

A domesticação do ativismo social, a espetacularização dos protestos de ruas, a redução da rebeldia a mera provocação como fim em si mesma, tudo isso foi derrubado quando vemos que os jovens brasileiros foram às ruas sem qualquer "receituário" ideológico.

Independente se são LGBT ou heteros, se fumam, "cheiram" ou bebem ou se são religiosos, eles romperam também o corporativismo partidário, numa manifestação cujas proporções não se via há 45 anos, época em que os protestos gigantescos quase puseram xeque-mate na ditadura militar.

O controle ideológico das esquerdas médias viu até mesmo alguns totens e cenários associados serem alvos de protestos juvenis. O jornalista Caco Barcellos, da Rede Globo, que segue uma linha ideológica afim a das esquerdas médias (transitando entre um ativismo social pragmático e "moderado" e uma defesa da domesticação cultural do brega-popularesco sob o rótulo de "cultura das periferias"), foi bastante vaiado e proibido de fazer cobertura dos protestos.

Já a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), que havia sido cenário do pseudo-ativismo do "funk carioca" - cujos chefões das equipes de som, ao lado de seus seguidores, armaram o factoide do "patrimônio cultural" através do fisiologismo político-partidário com parlamentares - , foi invadida por jovens revoltados, mesmo alguns extremistas que chegaram ao ponto de cometer vandalismo dentro da "casa".

Podem ser atitudes extremas, radicais, talvez não muito positivas, mas que simbolizam a indignação popular contra o desprezo que os parlamentares, em sua maioria, têm em relação ao interesse público. Para eles, empresários estão em primeiro lugar, tecnocratas em segundo, o povo é que aguente sacrifícios e espere receber alguns paliativos.

A mídia estrangeira deu ampla cobertura para os protestos. E, pelo jeito, eles devem continuar, uma vez que a repercussão se torna bastante positiva, em que pesem reações como um Arnaldo Jabor perdendo a cabeça contra os estudantes, um Luciano Huck tentando "apoiar" o movimento e o presidente da ALERJ, Paulo Melo, tentando argumentar que a invasão à casa legislativa "nada tinha a ver" com os protestos.

Uma coisa é certa. A pressão juvenil existe e está começando. O marasmo que o Brasil sofreu, primeiro com a ditadura militar, depois com a ditadura midiática-mercadológica dos anos 90, chegou ao seu ponto de saturação, e o país dificilmente será o mesmo que antes.

Ainda bem. Já pensou se as "primaveras" e "ocupações" se reduzirem ao exterior? Periga do estado palestino ser criado, desenvolvido e tirar o Brasil do grupo dos países emergentes, vindo a se tornar, em vez de BRICs, PRICs. Mas, felizmente, o Brasil não é só futebol e brega-popularesco. O Brasil também é o protesto vivo e atuante de seu povo.

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