quinta-feira, 27 de junho de 2013

ENCONTRO COM FÁTIMA BERNARDES VIROU REDUTO DE NEO-BREGAS


Por Alexandre Figueiredo

Era esperado que o programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, se tornaria mais cedo ou mais tarde voltado para o popularesco. Nas últimas edições, a jornalista e apresentadora passou a receber a geração de cantores neo-bregas que fez muito sucesso nos anos 80.

Nomes como Alexandre Pires (agora de volta ao Só Pra Contrariar), Chitãozinho & Xororó e Ivete Sangalo, que antes adotavam o Domingão do Faustão como prioridade para sua promoção comercial, mudaram de estratégia.

Eles não deixaram de comparecer ao programa de Fausto Silva, mas como este anda priorizando os pós-bregas mais comerciais (tipo Michel Teló e MC Anitta), eles tiveram que arrumar outro reduto, encontrando no programa da srª. William Bonner o espaço exato.

A geração neo-brega, diferente dos pós-bregas de hoje - que enfatizam plateias mais jovens e usam o pop estrangeiro atual como fórmula para seus sucessos - , faziam um crossover entre a música brega dos anos 70 e a fase pasteurizada da MPB do final dos anos 70 e do decorrer dos anos 80.

Os ídolos neo-bregas, que começaram fazendo discos explicitamente mais bregas - é só ver os primeiros discos do Só Pra Contrariar e de Zezé di Camargo & Luciano, por exemplo - e só em última hora, de forma tendenciosa, passaram a emular a MPB que era tocada nas rádios FM e era a mesma MPB que era motivo de críticas de boa parte da opinião pública.

Com uma produção mais estéril, entre covers de MPB com arranjos "corretos" mas burocráticos e um fraco repertório autoral que nem de longe justificava tanto cartaz desses ídolos na mídia, eles tentavam prolongar o sucesso comercial sob o apoio da grande mídia mais conservadora, como Rede Globo, Folha de São Paulo e a revista Caras.

Sem poderem conquistar o primeiro time da MPB, uma vez que não possuem talento natural para isso - até porque dependem de outros arranjadores, músicos e produtores para "embelezar" seus repertórios - , os ídolos neo-bregas já haviam se desgastado quando investiram exageradamente em DVDs e CDs ao vivo que só revisitavam o mesmo repertório.

Juntando a intenção de recuperar o sucesso perdido dos neo-bregas com a necessidade do programa de Fátima Bernardes ficar "mais popular" - dentro daquilo que a Rede Globo acha que é "popular" - , faz sentido o novo apelo da geração 90 da música brega em aparecer nas manhãs de segunda a sexta.

Evidentemente, isso não vai fazer diferença alguma na carreira deles que, mesmo veteranos, estão muito longe de superar a reputação baixa na mediocridade cultural dominante. Até porque, se eles tentam se vincular à MPB, é justamente ao que houve de pior nessa sigla nos anos 80.

Outro aspecto é que os cantores de "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music que emplacaram na Era Collor e foram apadrinhados pela Rede Globo há muito viviam um revival não-assumido, com seus discos ao vivo lançados um atrás do outro, com as eternas regravações de seus sucessos alternados com covers oportunistas.

Não será a mediocridade ainda mais gritante de gerações mais recentes, como as do "sertanejo universitário", que fará os neo-bregas dos anos 90 melhores. Mas num país que começa a superar o seu marasmo, através dos protestos populares, querer que a MPB se revitalize através dos neo-bregas é querer que a vida política reconquiste a transparência com o fisiologismo do PMDB.

Enquanto isso, o público infanto-juvenil que se dispõe de um aparelho que toque DVDs preferirá ver desenhos de Bob Esponja, Transformers e outros enquanto Fátima Bernardes fala com seus convidados, no consolo de não ter mais TV Globinho há um bom tempo.

E, por vezes, Fátima Bernardes se serve do couvert artístico dos neo-bregas que insistem em manter a trilha sonora de um tipo de país que começa a perder sua razão de ser.

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