sexta-feira, 21 de junho de 2013

A "REBELDIA" NEOCON DO CAPITAL INICIAL

O CAPITAL INICIAL PARECE CANTAR PARA OS POUCOS DESOCUPADOS QUE PROVOCARAM DESORDENS NAS RUAS DO BRASIL.

Por Alexandre Figueiredo

Lembrando dos protestos populares a ocorrer no Brasil, e associando a diversos fatores, como a reação inicial de jornalistas ultraconservadores como Ricardo Setti, da Veja, e Arnaldo Jabor, fico imaginando o que é o reacionarismo gratuito, a catarse sem causa, como a de alguns desordeiros que tentam pôr a perder os protestos no país e que, pasmem, tem uma música inteirinha de seu agrado.

Muitos se assustaram com a reviravolta neocon de Lobão, que não perceberam que, em muitos casos, o Rock Brasil anda decepcionando muito. Titãs, Paralamas do Sucesso e remanescentes da Legião Urbana se vendendo para Mr. Catra e Banda Calypso para obter espaços de apresentações no interior, Camisa de Vênus trocando Marcelo Nova por ex-assessor de Ivete Sangalo, etc...

Só o chamado punk brasileiro há muito está acomodado e nossos veteranos já não têm mais o potencial contestatório de antes. Hoje seus "protestos" são muito vagos e genéricos, que a gente nem sabe para quem e do quê estão "protestando", mais parecendo protestos sobre nada e coisa nenhuma.

De alguma forma, aprenderam com a música "Surfista Calhorda", dos Replicantes - aquela banda "punk" de um Wander Wildner depois derretido pelo brega - , um dos primeiros sucessos a fazer protestos sobre ninguém ou sobre coisa nenhuma, de tão vagos que são.

E se até Inocentes e Garotos Podres, e, até mesmo, os Ratos do Porão - de um João Gordo hoje familiarizado com a breguice midiática - , já embarcam nessa fórmula dos "protestos sobre nada", então é algo para se preocupar neste país esquizofrênico e kafkiano que é o Brasil.

O Clemente virou o Gilberto Gil da vez, pois o antigo punk que peitava o tropicalista numa discussão em pleno programa de TV, hoje se derrete todo por uma Gaby Amarantos. E, se um dia o hoje "descolado" Clemente passar a cumprimentar com beijos a MC Anitta, é sinal de que os punks brasileiros acabaram ficando muito inocentes...

O Capital Inicial havia sido um dos derivados do Aborto Elétrico, lendário grupo brasiliense de punk rock cujos membros Renato Russo e André Pretorius já são falecidos. Dos principais músicos do grupo, só restaram os irmãos Lemos, Felipe e Flávio, que depois montaram o Capital Inicial com Loro Jones e uma garota, depois substituída por Dinho Ouro Preto.

Era legal eu ouvir o Capital Inicial na Fluminense FM, em 1984, e a versão demo de "Prova" é uma das melhores gravadas pela banda. O grupo, pela origem derivada do AE, era um grupo-irmão da Legião Urbana, grupo com o qual "rachou" o repertório original da lendária banda punk.

Assim, por exemplo, se "Música Urbana" passou a ser incluída no repertório da Legião Urbana, em versão acústica em ritmo de blues - a Fluminense FM havia feito uma versão mash up, em 1987, com a batida de "Close to Me" do The Cure - , o Capital Inicial havia gravado "Música Urbana 2", seu primeiro grande sucesso radiofônico.

Depois o Capital Inicial teve uma fase pop, com Bozo Barretti nos teclados, resultando em fracasso e no fim do grupo, depois do Capital tentar outro vocalista. Depois voltou à ativa, em 1999, mas em seguida Loro Jones saiu, descontente com os rumos da banda, que até retomou os arranjos roqueiros, num outro contexto, mas sua atitude acabou se tornando mais pop.

O Capital Inicial se despolitizou mas, em que pese um bem intencionado tributo ao Aborto Elétrico, está cada vez mais distante de suas origens brasilienses e mais próximo do cenário "pop-rock" de sua cidade adotiva, São Paulo, cuja cultura rock foi empastelada pela 89 FM e pela Bizz fase anos 90. E ainda é capaz de tocar nos mesmos eventos de axézeiros e breganejos que, obviamente, nada têm a ver com o Rock Brasil.

HISTERIA QUE REMETE AO GOLPISMO DE 1964

O que assusta é que a letra de "Saquear Brasília", um dos sucessos recentes do grupo, embora invista num "protesto raivoso e irônico", remete a uma histeria golpista que contradiz os protestos inteligentes do punk brasiliense que se opunham ao poder militar bem no "olho do furacão", a capital federal.

Sendo uma daquelas letras "de protesto" que a gente não sabe bem do que e de quem está protestando, "Saquear Brasília" aposta naquela histeria que, no calor da juventude, todo brasileiro acha "divertida", que é de pedir o fechamento do Congresso Nacional e estimular o vandalismo contra os parlamentares, a pretexto de protestar contra a corrupção política.

Alguns trechos da letra são ilustrativos: "É uma maravilha ser poderoso em Brasília! (...) / Eles mentem e não sentem nada / Eles mentem na sua cara / Nobre colega / Acha que a nação inteira / É surda e cega / Hipocrisia todo dia / Faz parte da mobília / Tragam os seus amigos / Tragam os seus pais / Tragam os seus filhos / E também as suas filhas / Pra saquear Brasília (...) / Vamos saquear Brasília!"

A carga de ironia excessiva anula o tom do protesto e mesmo coloca o sentido desse protesto bastante duvidoso. Uma "rebeldia" que a nada conduz, sem oferecer qualquer alternativa à situação de corrupção que acontece no país. Fica sendo um desabafo de mau gosto, cujo caráter mobilizador perde até mesmo para a "alienada" letra de O Rappa, "Vem Pra Rua", transformada acidentalmente no hino dos protestos juvenis.

As pessoas que querem o fechamento do Congresso Nacional para "combater" a corrupção (o que inclui atos de vandalismo contra quem comete atos de vandalismo contra os brasileiros) são aquelas que sempre votam nos mesmos corruptos, quando eles prometem embelezar praças, construir viadutos para seus eleitores, e ainda investem grana demais em eventos como a Copa do Mundo.

Pior: essas mesmas pessoas que pregam o fechamento do Congresso Nacional e todo tipo de desordem contra os políticos são aquelas que, se fossem eleitas para cargos políticos, estariam exatamente fazendo a mesma corrupção política que dizem condenar com surdo rancor. 

A "divertida" histeria de usar a catarse coletiva "contra a corrupção", a pretexto de um "saudável protesto juvenil" esconde uma solução golpista que, no contexto de mobilização neocon de parte de nossa sociedade, representa uma ameaça à democracia e um consentimento à própria corrupção que diz combater.

Tudo bem que a revolta popular faz com que certas pessoas cometam excessos, mas ver uma letra que, em vez de fazer um questionamento mais humano - como o próprio Renato Russo havia feito em "Que País é Este?" - , prega o vandalismo, torna-se um sério problema, porque a catarse, em vez de se voltar realmente contra os problemas do país, acaba fazendo o contrário.

É como se quisesse dizer "Vamos destruir o país porque tudo está perdido, mesmo". Como se Dinho cantasse para nós: "O país está perdido e o que resta para nós é provocar quebra-quebra e roubar quem e o que estiver à nossa frente". Quanta falta faz Renato Russo entre nós...

Foi justamente esse mesmo "estado de espírito" da letra de "Saquear Brasília" que, por volta de março de 1964, criou-se um clima de ódio "contra a corrupção" que resultou no golpe militar, o que em nada melhorou em nosso país, e só agravou a corrupção política e ao desrespeito à Constituição Federal que vemos constantemente em nossos dias.

Era exatamente o mesmo discurso que o misterioso sargento José Anselmo dos Santos, o "Cabo Anselmo", fez como "porta-voz" dos marinheiros revoltosos, criando um sentimento de histeria popular que, forjando uma acusação generalizada de corrupção política, abriu caminho para as "marchas com Deus" que incentivaram as Forças Armadas, já patrocinadas pela CIA, a derrubarem o presidente João Goulart.

Não por acaso, "Saquear Brasília" tem boa execução numa UOL 89 FM de proprietários de origem malufista e filiados ao DEM que apoia Geraldo Alckmin. E que, na sua então afiliada carioca Rádio Cidade, tentou criar uma juventude "roqueira" de extrema-direita, afastando os ventos progressistas deixados pela antiga Fluminense FM.

A verdadeira rebeldia contra a corrupção política seria criar passeatas, abaixo-assinados, usar a Lei pelo nosso favor. Como a juventude está fazendo, de forma pacífica, numa enérgica porém saudável pressão sócio-política, sem partir para a avacalhação gratuita que nada resolve para eliminar os problemas e vícios neste país.

"Saquear Brasília" não é um protesto real contra os erros políticos de nosso país. Mais parece uma letra que prega o vandalismo como solução para a corrupção. A letra só aquece os neurônios de jovens ainda pouco conscientes de seus instintos de rebeldia. No entanto, a "solução" da letra é bastante golpista, em que pese a "diversão" do que é proposto na letra.

Certa vez, Lobão, em trocadilho irônico, chamou o vocalista Dinho Ouro Preto de "Coita". Mas se o "grande lobo" já anda de mãos dadas com o irmão do desafeto Herbert Vianna, o antropólogo Hermano Vianna, na causa funqueira, o cantor do Capital Inicial acabou vestindo a camisa neocon de Lobão. "Saquear Brasília" é um verdadeiro manifesto do nada na terra do nunca.

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