sábado, 15 de junho de 2013

A INTELECTUALIDADE E SUA TESE DE EMANCIPAÇÃO "CONTROLADA" DOS POBRES

OS 'LELEKES' DA VIDA REAL - Nada a ver com a versão glamourizada do povo pobre na "cultura popular" midiática.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante, aquela que defende o brega-popularesco, tenta parecer "progressista" e desvincular-se, o máximo possível, dos vínculos ideológicos com o neoliberalismo, tentando "vender o peixe" nas esquerdas em geral, sobretudo as médias.

Tentam lançar a tese de que se deve defender a "hegemonia do mau gosto" do brega-popularesco, a pretextos diversos, de que "gera empregos", "é o que o povo sabe fazer", "o povo gosta e é mais feliz", entre outras coisas. O "popular" virou desculpa para que a intelectualidade se compadeça com a degradação sócio-cultural do país.

De cineastas a jornalistas culturais, passando por antropólogos, sociólogos, historiadores e músicos, muita gente defende sobretudo o "funk carioca" por ver nele uma visão supostamente generosa do que essa elite "pensante" entende como "cultura popular".

Pois de nada adianta a recusa em assumir a herança ideológica de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e outros, que na prática se reflete nessa intelectualidade dita "de esquerda", mas que adota uma perspectiva folclórica digna de qualquer grande executivo da Rede Globo e da Folha de São Paulo.

Afinal, observando bem, dá para perceber que eles realmente estão com a herança ideológica desses ideólogos do neoliberalismo, por mais que tentem creditar a breguice dominante a uma suposta "rebelião popular", com o "mau gosto" transformado em "causa nobre", chegando a fazer comparações sem fundamento entre o sucesso do "funk carioca" e a eleição de Lula para a Presidência da República, há uns dez anos atrás.

Isso porque, quando gente como Hermano Vianna, Ronaldo Lemos, Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Denise Garcia, Milton Moura, entre tantos outros, fazem a defesa da cafonice porque acham que o "mau gosto" fará a "revolução social" no Brasil, eles na verdade se inspiram, explicitamente, na Teoria da Dependência de FHC e na tese do "fim da História" de Fukuyama.

A Teoria da Dependência de FHC se baseia numa visão de desenvolvimento sócio-econômico relativo, que permita uma relativa prosperidade social sem ameaçar a estrutura hierárquica da geopolítica neoliberal, mantendo a supremacia dos países ricos até mesmo sobre os chamados "emergentes".

Já o "fim da História" pressupõe que a humanidade "encerrou" seu processo de mobilização social e que a sociedade tecnocrática e neoliberal tornou-se o "mais alto" estágio de evolução humana planetária. Em outras palavras, o neoliberalismo fez a humanidade atingir uma suposta perfeição e que agora o que cabe aos homens é ganhar dinheiro e consumir os bens que a pós-modernidade permite usufruir.

Junte-se a tese de um desenvolvimento sócio-econômico subordinado e relativo com a visão de que não é mais necessário lutar por justiça social, e adaptemos ao âmbito cultural. Verá uma visão que hoje sustenta ideologicamente toda a breguice de valores artísticos e sócio-culturais retrógrados que predomina nos meios de comunicação e é atribuída equivocadamente à "criatividade autossustentável das periferias".

A MPB acabou, sua história se encerrou, agora o futuro será brega, "brega pop", "performático pós-moderno" etc. Puro Francis Fukuyama. A cultura popular é "transbrasileira", deixando de ser nacionalista "demais" (sic) e assimilando as influências estrangeiras ditadas pelas fontes seguras da grande mídia. Mais Fernando Henrique Cardoso do que isso, impossível, apesar do rótulo "esquerdista" difundido por nossa intelligentzia.

O próprio "brega de raiz" (Waldick Soriano, Paulo Sérgio, Odair José etc) se baseou exatamente nos mesmos princípios lançados pelo ministro Roberto Campos na economia da ditadura militar: matéria-prima obsoleta, desenvolvimento precário e subordinado. O brega se valeu pelas "matérias-primas" obsoletas, seja na estética musical, seja no visual e no comportamento.

Portanto, a intelectualidade dominante não quer a emancipação do povo pobre. Quer que o povo pobre fique nas favelas, que as prostitutas não aprendam outros trabalhos, que os velhos pobres morram bêbados, que a música brasileira permaneça no "mau gosto".

Ou, quando muito, as "melhorias" tenham que acontecer sob a sombra do paternalismo das elites "esclarecidas", quando o "mau gosto", aprovado pelas elites, passa a ser cosmetizado como um meio de consagrar a glamourização da pobreza exaltada pelo apoio ao brega e seus derivados.

Esse é o problema de boa parte dessa intelectualidade que domina a opinião pública e quer estender sua influência no pensamento de esquerda. É essa visão paternalista sobre a cultura popular, que prefere que se mantenha a degradação sócio-cultural a pretexto de que isso "deixa o povo feliz", do que questionar os problemas e exigir melhorias reais.

Preferem o "livre mercado" da falsa diversidade cultural da midiocracia, que gera uma "paz social" que tanto conforta os intelectuais, do que questionar problemas que certamente dariam luz a crises e despertariam tensões e problemas que as "queridas elites pensantes" tentam esconder por debaixo do tapete.

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