segunda-feira, 17 de junho de 2013

A INTELECTUALIDADE DOMINANTE E SEU EXCLUSIVISMO


Por Alexandre Figueiredo

Por que a intelectualidade dominante defende tanto o brega? Por que ela desenvolve toda uma retórica sofisticada, incluindo documentários e monografias, se baseando em técnicas de narrativa inspiradas no New Jorunalism e na História das Mentalidades, para defender, mesmo com argumentos surreais, toda a mediocrização sócio-cultural que atinge as classes populares?

Há todo um julgamento de valor "positivo", um "alegre" dirigismo cultural que agora determina o que a vanguarda esquerdista agora é obrigada a aceitar e até curtir: Raça Negra, Leandro Lehart, Odair José, Luiz Caldas o dito "funk de raiz" ou alguma funqueira na terceira divisão do sucesso comercial. Dirigismo ideológico de deixar a burocracia stalinista de queixo caído.

E por que essa paranoia toda, dita sob o pretexto de "romper os preconceitos"? É muito mais fácil recomendar música de qualidade duvidosa para plateias mais instruídas, difícil e ensinar boa música para as populações pobres, não é mesmo? Mas para quê tudo isso, se a grande mídia já oferece espaço suficiente até mesmo para essas "sobras" do establishment brega e neo-brega que apenas tiraram férias das rádios?

Isso se dá porque a intelectualidade dominante, sejam as esquerdas médias - um tanto condescendentes com as artimanhas midiáticas sobre a "cultura popular" - , sejam as pseudo-esquerdas (aquelas que aprenderam a pensar a cultura com Fernando Henrique Cardoso há 20 anos atrás, mas hoje juram que nada têm a ver com o tucanato), detém uma postura exclusivista em relação à bagagem cultural que possuem.

Afinal, somente eles é que, hoje em dia, detém os segredos e valores da cultura brasileira de verdade, desde o folclore popular anterior ao advento da indústria fonográfica até as aventuras pós-Bossa Nova e, sobretudo, pós-Tropicália, da MPB mais sofisticada e menos badalada.

Somente esses intelectuais, que envolvem críticos culturais, antropólogos, sociólogos, músicos, cineastas, historiadores etc, detém o privilégio da real compreensão da cultura popular, devido à farta formação acadêmica e livresca que possuem. E, detendo esse privilégio, gozam do poder que esse privilégio lhes oferece sobre a opinião pública.

Portanto, não há diferença entre um Alexandre Garcia que "sabe muito" e um Paulo César Araújo que "sabe muito". Ou entre uma Miriam Leitão que "entrevistou muita gente" e um Pedro Alexandre Sanches que "entrevistou muita gente". Ou entre uma Danuza Leão que implica com empregadas domésticas e uma Bia Abramo que implica com empregadas de enfermagem.

Nos dois casos - a imprensa política e a imprensa cultural - há toda uma preocupação de profissionais da grande mídia (outros mais enrustidos, falsamente "esquerdistas" ou "anti-mídia") de se julgarem os "senhores" da opinião pública. Com todos os preconceitos expressos mesmo sob o pretexto de "romper os preconceitos".

Afinal, a nossa intelligentzia, de formação usp-tucana (sim, tucana) e globo-folhista, detém para si os conhecimentos que possuem sobre cultura, música, comportamento etc. São eles que conhecem a fundo as lutas feministas do mundo, os movimentos sociais que ecoam no Brasil, as lutas guerrilheiras, os movimentos de trabalhadores rurais, os mártires históricos e a música de qualidade do nosso país e do mundo afora.

O problema é que eles, que se dizem "contra" o elitismo, o paternalismo e a idealização da cultura popular, agem com posturas bem mais elitistas, paternalistas e idealizadoras do que imaginam, pois, apesar de se dizerem "sem preconceitos", são muitíssimo preconceituosos.

Na música brasileira, eles detém seu exclusivismo de agora serem eles os conhecedores maiores da cultura popular que nem o povo pobre conhece mais. Afinal, as populações pobres hoje são escravizadas pelo poder de rádios e TVs controladas por grupos oligárquicos. O rádio, sobretudo, controlado sobretudo por políticos e "coronéis".

Mas a própria intelectualidade dominante faz vista grossa de tudo isso e atribui o sucesso dessas rádios a "humildes" programadores ou gerentes artísticos, equivocadamente tratados como se fossem pequenos guevaristas-zapatistas das periferias. Na verdade, esses trabalhadores estão muito mais para capatazes eletrônicos do latifúndio midiático do que de qualquer força guevarista, zapatista ou bolivariana.

O exclusivismo da intelectualidade os faz se envaidecerem de serem eles que conhecem a nata da música brasileira, de Cartola a Quinteto Violado, de Sílvia Telles a Itamar Assumpção, de Sérgio Ricardo a Banda Black Rio, de Jackson do Pandeiro a Vânia Bastos. Mesmo quando algum deles é enfiado quase escondido em alguma trilha de novela da Globo, isso não rompe tal exclusividade.

Aí, para espantar a curiosidade popular em torno dessa rica música brasileira, ou mesmo da própria herança cultural popular, a intelectualidade dominante faz o maior malabarismo de argumentos, desculpas e alegações para "justificar" a hegemonia da breguice cultural que assola as classes populares sob a clara influência da ditadura midiática.

No malabarismo discursivo vale tudo, de dar cambalhotas retóricas até pôr cabelo em ovos fenomenológicos. Atribuir a tendências claramente medíocres, como "funk carioca", tecnobrega e o "pagodão" de tchans, rebolations e similares, referências sócio-culturais que os fãs desses ritmos "populares" nem têm ideia de sua existência.

Afinal, para o fã de tecnobrega, quem é o tal "Osvaldo de Andrade" que escreveu que ser canibal é bom? E quem é o tal de "Maicon Mac-não-sei-o-quê" de uma equipe de fórmula um que inventou o tal "panque" que haviam comparado com o "funk"? A feminista que os intelectuais compararam as funqueiras se chamava mesmo "Betty Frígida"?

Para os desavisados, é assim que os fãs desses "geniais" ritmos entendem Oswald de Andrade, Malcolm McLaren e Betty Friedan, inseridos em comparações "positivamente" etnocêntricas, em "bondosos" julgamentos de valor em torno da mediocrização cultural, que só é "genial" e "sofisticada" para o julgamento "cordialmente" elitista dos intelectuais que, só eles, conhecem a fundo as referências que atribuem às tendências popularescas.

Evidentemente, insere-se até Patti Smith em texto sobre forró-brega, para reforçar esses delírios intelectuais, antes que o "povão" descubra os segredos que a intelligentzia guarda em seus armários de vidro. Embora aparentemente eles apresentem "ricos" referenciais ao que eles entendem como "ralé", eles na verdade estão privando o povo pobre se conhecer esses referenciais, senão de maneira "terceirizada".

Afinal, se Patti Smith agora é "culpada" pelo forró-brega e Oswald de Andrade foi rebaixado a um reles garoto-propaganda do "funk" e do tecnobrega, então ninguém precisa conhecê-los, o "povão" que se satisfaça com as indigências que aparecem no rádio e na TV sob o rótulo de "popular".

Um exemplo é a insistência em Paulo César Araújo, no livro Eu Não Sou Cachorro, Não, em comparar a música de Waldick Soriano que dá título ao livro com "Opinião", de Zé Kéti, numa argumentação confusa, discutível mas verossímil o suficiente para garantir a "divindade" do escritor. Na verdade, o que PC Araújo quer é que os fãs de Zé Kéti abandonem o sambista - hoje tido como "refinado demais para o povão" - e que se contente com os pseudo-boleros chorosos do ídolo cafona.

Quando muito, o "povão" é obrigado a "conhecer" a MPB autêntica através de covers oportunistas dos ídolos bregas. Sobretudo os neo-bregas (Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Thiaguinho, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel), falsamente sofisticados. Mas isso cria uma acomodação, porque as versões dos clássicos da MPB acabam se vinculando à imagem desses "artistas" e desestimulam o "povão" a conhecer as versões e os artistas originais.

No comportamento, a intelectualidade dominante é claramente elitista, quando credita, por exemplo, a problemática machista apenas da classe média para cima. Se uma Gisele Bündchen, por exemplo, posa de objeto sexual, essa intelectualidade reprova com rigor. Mas se uma Mulher Melão faz a mesma coisa, a intelectualidade muda o tom e define a atitude como "divertida" e "deliciosamente provocativa".

Enquanto a intelectualidade com suas palestras lotadas e cheias de desavisados aplaudindo até tosse de palestrantes, cria associações tão tendenciosas assim, ela protege sua bagagem e seu acervo artístico e cultural, evitando que o povo retome a herança cultural por ele vetada.

Daí as "urubologias" intelectuais que tentam fazer proselitismo nas esquerdas. Daí a estranha transmissão de paradigmas de cultura popular dignos de executivo da Rede Globo, de assessor da Folha de São Paulo e de adidos culturais do PSDB, empurrados como se fossem "progressistas" devido ao rótulo de "popular".

Mas só a redução do "popular" a uma mercadoria e um estereótipo midiático já indica uma visão elitista e preconceituosa dessa intelectualidade "sem preconceitos" e "anti-elitista". Uma intelectualidade com habilidade para proteger seu exclusivismo a pretexto de defender o que "está aí" sob o rótulo de "popular".

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